O que parecia mera burocracia para a consolidação do poder de Javier Milei na Argentina ganha, agora, ares de obstáculo que pode enfraquecer seu governo extremista de direita. Em 7 de setembro, eleitores da província de Buenos Aires escolhem seus representantes no legislativo local e, em 26 de outubro, vão ser eleitos os deputados e senadores nacionais.
Milei enfrenta os maiores índices de desaprovação desde o início de seu mandato, em dezembro de 2023. Os números mostram tendência de queda. Pesquisa AtlasIntel publicada nesta quinta-feira (28) indica que mais da metade dos argentinos (51%) desaprova seu governo. Em julho, a desaprovação era de 47,8%.
Os números preocupam a Casa Rosada. Milei tem minoria no Congresso e vem sofrendo derrotas seguidas em suas tentativas de aprovar projetos de lei que aprofundem seu desmonte do Estado. Para não depender de coligações com outros partidos para governar, sua administração contava com um aumento significativo de legisladores aliados, confiando no controle da inflação para isso.
Entretanto, além da impopularidade de suas medidas de austeridade, que deixaram a maioria da população abaixo da linha da pobreza, o governo do extremista foi atingido em cheio por um escândalo de corrupção envolvendo sua irmã, Karina Milei, que ocupa o cargo de Secretária da Presidência. Como termômetro da crise, os dois foram alvo de pedradas e vaias nesta quarta-feira (27) em um ato de campanha com seus candidatos ao legislativo na periferia de Buenos Aires. Milei saiu fisicamente ileso, mas as cicatrizes podem ser profundas.
“Qualquer escândalo de corrupção é uma coisa muito complicada. Ainda mais em se tratando de um presidente que sempre se apresentou contra a casta corrupta, com discurso muito forte contra isso quando se elegeu, e criou uma imagem que, mesmo tendo alguns defeitos, jamais teria esse, que é considerado tão grave”, disse a professora Miriam Gomes Saraiva, do departamento de Relações Internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).
“Ao desmontar essa imagem, ele deve perder eleitores, especialmente aqueles que não têm lealdade absoluta, não pertencem à bolha dele”, afirmou Saraiva ao Brasil de Fato.
Escândalo
O episódio veio à tona com a divulgação de áudios que implicam Karina em supostas cobranças de suborno na compra de medicamentos para pessoas com deficiência. A irmã é considerada o braço direito do presidente.
Calcula-se que ela embolsava cerca de US$ 15 mil (R$ 82 mil) por mês com o esquema. Karina ainda não se pronunciou publicamente sobre o escândalo, que derrubou a bolsa de Buenos Aires, gerou pressão sobre o câmbio da moeda local, o peso, e aumentou o risco-país.
O caso ocorre após o Congresso anular um veto de Milei a uma lei que declara a Emergência em Deficiência e destina mais fundos para o setor, o que representa um golpe político para o presidente.
Na Argentina, os legisladores – Câmara e Senado – são renovados a cada dois anos, o que significa que um presidente pode perder ou ganhar base de apoio. Para a professora Miriam Saraiva, as eleições de 7 de setembro na capital argentina serão uma “antessala das eleições nacionais”.
“Se Milei tiver muitos votos em setembro, deve ter também em outubro, mesmo porque Buenos Aires, por ter quantidade muito grande de eleitores, normalmente dá a tônica do que vai ocorrer nacionalmente.”
“A administração de Milei deve ficar com uma base maior no Congresso do que tem hoje. Mas para mim, hoje, parece difícil que ele consiga eleger a quantidade necessária de parlamentares para aprovar todos os seus projetos”, avalia a analista.