Desde de 1996, ano de realização do 1º Seminário Nacional de Lésbicas, o dia 29 de agosto passou a assumir o símbolo da luta por visibilidade e direitos. O Dia Nacional da Visibilidade Lésbica está longe de ser uma data comemorativa, apenas. Pelo contrário, é um momento de reafirmação, um ato político de resistência e orgulho de ser quem somos. Reivindicar o dia 29 de agosto como um dia de luta é central para avançar em uma agenda de garantia de direitos e dignidade para as mulheres lésbicas. Nesse sentido, a dimensão coletiva da luta é a única resposta para o processo histórico de opressões e violências que se constituiu na base da sociedade patriarcal.
Vivemos em um mundo estruturado a partir de um conjunto de valores que se expressaram ao longo da história em continuadas violências, sob a lógica da manutenção da estrutura da sociedade capitalista. Sociedade essa que hoje se defronta com uma profunda crise de caráter econômico, político, ambiental e social, acirrando ainda mais as contradições do mundo em que vivemos. Como consequência, o aprofundamento das opressões sofridas pelas mulheres lésbicas, em especial as mulheres jovens, como agressões físicas, exclusão escolar, desemprego, precarização e ausência de políticas públicas específicas.
Diante desse cenário, é fundamental a construção de uma agenda política propositiva, que aponte para avanços em direitos e a denúncia das opressões, tendo como centro a garantia de políticas públicas transversais: de acesso à saúde, à educação e à segurança; que reconheçam as especificidades das vivências lésbicas e potencializem as diversas formas de expressão da nossa sexualidade. Disputar políticas públicas é, portanto, travar a luta em uma arena pública, avançando na disputa ideológica da sociedade, rememorando a história da luta política das mulheres lésbicas e rompendo com um ciclo de invisibilização, violências e silenciamento.
Essa agenda política está ligada diretamente a um projeto popular para o Brasil. Essa luta deve se vincular à tarefa da disputa geral da sociedade e do futuro. Nesse sentido, é fundamental que a luta das mulheres lésbicas esteja entrelaçada, de maneira permanente, com a luta do povo. Porque a luta das mulheres lésbicas é potencializadora das lutas populares, porque alterar a realidade que vivemos e transformar a sociedade radicalmente é tarefa de todo um povo.
Nós, mulheres lésbicas, sentimos na pele o impacto do Brasil que temos, por isso devemos ser parte ativa na construção do Brasil que queremos. Por isso, neste dia 29 de agosto, devemos também nos apropriar das tarefas impostas pela conjuntura, assumindo o combate à extrema direita, a luta por justiça social e tributária, a defesa da soberania nacional e a construção de um projeto popular para o Brasil como sinônimo da luta por direitos, dignidade e visibilidade das mulheres lésbicas.
O Brasil que nós queremos será colorido com a nossa bandeira, e o dia 29 de agosto é a reafirmação da nossa identidade. Como símbolo, as palavras da cantora Bia Ferreira nos apontam o caminho: “A caneta, a folha, o lápis. Agora que eu comecei a escrever, que eu nunca me cale. O jogo só vale quando todas as partes puderem jogar.” É hora de tomarmos nas mãos a nossa história e, com luta e organização popular, virar o jogo e preencher de sonhos a vida das mulheres lésbicas!
*Camila Moraes, secretária-geral da União Nacional dos Estudantes (UNE) e militante do Levante Popular da Juventude.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.