Natural do Rio Grande do Norte, a atriz, roteirista, dramaturga e escritora brasileira Alice Carvalho tem ganhado cada vez mais relevância nacional. Neste 29 de agosto, quando se celebra o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, em entrevista ao Conversa Bem Viver, ela comenta sobre como foi interpretar Otília na série Guerreiros do Sol, sucesso de audiência em todo o país.
A personagem protagonizou um par romântico com Jânia, interpretada por Alinne Moraes. A obra apresenta o que foi o cangaço no Brasil, mas sem cair na perspectiva estereotipada e preconceituosa que, muitas vezes, reduz o movimento ao vilanismo ou ao heroísmo. Por retratar um fenômeno que aconteceu entre o fim do século 19 e meados do século 20, Carvalho conta que muitos se chocaram com a presença de um relacionamento lésbico na trama.
“Uma pessoa se espantou no set vendo o par romântico acontecendo entre mim e a personagem da Alinne Moraes, quase como se dissesse: ‘ué, já existia naquele tempo?’. É muito engraçado. Claro que já existia. Como mulher bissexual e negra, acho que não seja só o meu corpo que possa representar essas histórias. Mas olhando para um histórico de desigualdade de representações, por que não? ”, indaga.
A atriz também fez parte do elenco de Cangaço Novo e da novela Renascer. Ela estreia no cinema neste ano, em 6 de novembro, com o filme O agente secreto, longa já premiado em Cannes que conta ainda com a participação de Wagner Moura e direção de Kleber Mendonça.
“Os últimos trabalhos trouxeram minha imagem muito atrelada a um contexto rural. Eu sou uma mulher da capital, mas tenho família sertaneja, fui criada na região metropolitana, tenho grande conexão com o sertão e me sinto apta a contar essas histórias. Mas também quero contar histórias urbanas, sem precisar mudar minha prosódia para me inserir no mercado. Existe nordestino em qualquer lugar do mundo”, reflete.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato – Como foi a experiência de fazer a série Guerreiros do Sol?
Alice Carvalho – Essa série foi um marco não só para a plataforma onde a gente estava e para a TV Globo, que fez uma coisa inédita, mas também pela forma de contar a história desse fenômeno que aconteceu no nosso país, sem estar com a balança tão pesada para o lado do heroísmo e nem do banditismo. Tem ali a vilania e o heroísmo, as coisas estão todas misturadas, porque as experiências humanas são assim, repletas de heróis e de vilões convivendo dentro do mesmo indivíduo.
É um trabalho muito bonito que nasce já na dramaturgia, a partir do interesse de contar essa história pelo viés feminino, pelo ponto de vista das mulheres, mesmo que tenhamos a sanguinolência, a fúria e a ação sendo capitaneada pelas atitudes masculinas daquela época. O ponto de vista feminino é algo que carrega a história e faz com que aconteça uma conexão com um público muito diverso.
Uma outra coisa importante foi o trabalho primoroso que toda a equipe de escrita fez de abrir novos horizontes para a reconstrução de imaginários. Puxando um pouquinho a brasa para a sardinha do meu núcleo, de uma das tramas de Otília, minha personagem, abordar o entendimento da orientação sexual naquele tempo é algo muito raro na teledramaturgia.
Uma coisa que eu falei bem no início, nas primeiras entrevistas que dei, foi lembrando de um momento de gravação em que uma pessoa se espantou no set vendo o par romântico acontecendo entre mim e a personagem da Alinne Moraes, quase como se dissesse: “ué, já existia naquele tempo?”. É muito engraçado. Claro que já existia.
É óbvio que o audiovisual é uma ferramenta muito importante para colocar em prática essa reconstrução de imaginário. Porque, desde que existe o querer, existe mulher querendo mulher, homem querendo homem, e rompimento de padrões heteronormativos. A diferença é o espaço que a gente dá para contar essa história,que sempre foi muito pouco.
Agora, as coisas têm mudado, por causa da reivindicação da própria comunidade, mas também por causa de uma atualização das próprias pessoas que contam as histórias, que querem contar de outro ponto de vista. Não só pensando na representatividade, mas em contar coisas que de fato aconteciam.
Então, penso que Guerreiros do Sol é uma obra muito corajosa. Por isso e pelo protagonismo nordestino no elenco. É uma coisa que, se não for inédita, é quase inédita. Uma amiga estava me dizendo esses dias: “caramba, eu nunca tinha visto uma cartela de abertura de telenovela com os três nomes principais sendo de três atores nordestinos.” São coisas que podem parecer pequenas, mas têm um nível de significado muito grande e sinalizam para o mercado audiovisual e para artistas que pensam que, por nascerem no lugar onde nasceram, por falarem como falam, por virem de onde vêm, estão fadados a uma exclusão.
Claro, as coisas têm caminhado com um passinho de formiguinha. A gente tem construído devagar, tijolinho por tijolinho, essa estrada para os que vão vir depois caminharem. Mas temos que começar de algum ponto. Guerreiros do Sol é uma obra que, daqui a alguns anos, vamos enxergar como um grande aliado dessa desconstrução e reorganização do protagonismo na tela para essas maiorias que são minorizadas. Não somos minoria. A diversidade não pode ser tratada como minoria. Somos a maioria, a grande força deste país, mas somos minorizados.
Faz aproximadamente 10 anos do primeiro beijo gay em novelas da Rede Globo, em TV aberta. Quanto disruptivo foi ter protagonizado o que talvez tenha sido o primeiro beijo lésbico em uma novela não contemporânea?
Eu entendo que, dentro do projeto, foi um casal que teve torcida do primeiro dia de gravação até o último. Até as pessoas que falavam “nossa” não era um “nossa, não quero”, mas um “nossa, que incrível, nunca tinha parado para pensar”.
Foi uma trama muito abraçada, muito protegida, muito cuidada. Tivemos liberdade para montar nossas coreografias de intimidade por nós mesmas e a equipe se encaixava. Todo o cuidado protocolar das cenas de intimidade foi seguido. Eu e Aline palpitávamos em tudo. Era muito engraçado ver o operador de câmera discutindo lente e trocando com a gente, num lugar de muito cuidado e respeito, não só pelas atrizes, mas pelo interesse de contar aquela história com dignidade, sem hipersexualização, sem ocultar e sem mostrar de forma voyeurista. Isso foi fundamental para nos sentirmos seguras em cena.
O outro ponto é que o elenco virou uma família. Quando filmamos em locações, esses fenômenos acontecem. Mas foi engraçado, porque começamos a filmar primeiro no Rio de Janeiro para depois ir para Piranhas, Alagoas, Canudos e Paulo Afonso. Antes da viagem, já estávamos num entrosamento e numa felicidade de fazer parte disso.
Acredito que já existia no bastidor uma sensação de estar fazendo algo novo. Tinha um clima de delírio coletivo de viver aquilo. A música que a gente mais ouvia era “Aboio Avoado”, de Lenine, que fala “era um delírio danado”. Isso virou quase um grito de trabalho para nós. Estávamos fazendo aquele projeto com cuidado, visibilidade, liberdade dramatúrgica e diretores completamente entregues.
A parte do elenco que não era nordestina estava completamente dedicada. Eu não consigo contar nos dedos quantas vezes fui para a casa da Aline para estudar com ela. Ela é uma atriz muito dedicada, nerdzinha, estudava o texto comigo, ouvia música repetidamente. Todo mundo muito empenhado em contar a história com honra.
Os grandes nomes da Globo que estavam no projeto, mesmo não sendo nordestinos, vieram agregar visibilidade. Estavam disponíveis com corpo, talento, criatividade, humildade e generosidade, como Zé de Abreu e Daniel de Oliveira. Foram pessoas maravilhosas, sempre pedindo licença e reconhecendo a importância de estar naquela obra, sabendo que a audiência também seria importante para mostrar que essa forma de fazer funciona. Tivemos essas pessoas como aliados e parceiros criativos.
Era um clima de comunhão muito bonito, mesmo no calor e nos perrengues. Em cada lugar que a gente passava para morar, em condições diversas, havia compreensão, cuidado e produção atenta. Foi um sonho. Era um sonho e todo mundo estava bem erê, brincando, vivendo, jogando. Acho que essa é a coisa mais importante do projeto: a diversão no trabalho, mesmo nos momentos adversos.
Como foi para você, uma mulher bissexual e nordestina, interpretar o papel de Otília?
Falando em primeira pessoa, sei que meu corpo, na forma como as pessoas me leem, é um corpo político. Faço do meu corpo enquanto artista também um corpo político. Mas só posso falar em primeira pessoa. Eu sou uma mulher nordestina, negra, faço parte da comunidade LGBT, sou bissexual. Estou envolvida com lutas progressistas desde pequena, fui criada numa família progressista. Carrego isso no meu fazer artístico.
Minhas decisões, desde os testes que faço até os papéis que escolho, sempre tiveram critério. Hoje, por causa do sucesso de Cangaço Novo, o grande público passou a me conhecer, o mercado audiovisual também, e passei a receber mais convites. Tenho mantido uma postura criteriosa.
Eu gosto muito de abrir espaço para outras coisas acontecerem. A fama meteórica pode virar armadilha e tirar o foco do que é importante. Então, talvez num lugar romântico da minha profissão, eu sempre escolho projetos que façam sentido com a minha narrativa corpórea no mundo. Essa é uma escolha política e pessoal.
Na tela, reverberando, faz muito sentido quando um ator natural de determinado lugar interpreta alguém dali, porque a conexão e a verossimilhança ficam maiores. No meu caso, agora em Guerreiros do Sol, fez muito sentido interpretar essa personagem. Se existe uma tendência minha, enquanto corpo político, é a de escolher coisas onde caibo porque sei como contar essa história. Faço escolhas profissionais baseadas nas histórias que quero contar com o meu corpo.
Tenho tentado pensar a médio e longo prazo. Os últimos trabalhos lançados trouxeram minha imagem muito atrelada a um contexto rural. Eu sou uma mulher da capital, mas tenho família sertaneja, fui criada na região metropolitana, tenho grande conexão com o sertão e me sinto apta a contar essas histórias.
Mas também quero contar histórias urbanas, sem precisar mudar minha prosódia para me inserir no mercado. Existe nordestino em qualquer lugar do mundo. Eu estava em Cannes e alguém falou: “isso é comunicação nordestina em Cannes.” Então, não dá mais para pensar: “ah, vai se passar no Rio de Janeiro, será que ela não tinha que falar diferente?”. Não. Não quero usar meu corpo para cristalizar isso.
Inclusive, estou gravando uma série para a Netflix chamada Fúria, na qual em nenhum momento foi pedido que eu mudasse a prosódia. É uma série urbana, passada no Rio de Janeiro. Acho que isso tem caído em desuso, ou pelo menos espero que sim.
Sobre representatividade, eu não acredito que apenas uma pessoa da comunidade possa interpretar alguém da comunidade, falando em sexualidade. Quando vamos para pessoas trans, aí sim é outra régua, outra questão. Não estou falando de identidade de gênero, mas como mulher bissexual, negra, acho que não seja só o meu corpo que possa representar essas histórias.
Mas olhando para um histórico de desigualdade de representações, por que não? Se existem tantos atores e atrizes qualificados que encarnam essas maiorias minorizadas, por que não dar espaço a eles? Isso pode mudar. Quem sabe daqui a alguns anos veremos avanços. Esse é um sonho utópico meu: igualdade. Mesmo num sistema capitalista, eu quero acreditar nisso. E vai que daqui a alguns anos já tenhamos andado passos importantes.
Conversa Bem Viver

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