Em 2022, o Brasil escapou por pouco de não mergulhar numa ditadura fascista com a derrota eleitoral de Bolsonaro e, principalmente, após seu plano de golpe de Estado fracassar.
Agora, em 2026, teremos, mais uma vez, eleições cruciais, e teme-se a ingerência de Trump nelas, em prol do fascismo tupiniquim.
Noticiou-se que, no encontro agendado entre Lula e Trump em março próximo, Lula buscaria um “pacto” no sentido da não intervenção de Trump. Segundo matéria de Jamil Chade, no ICL, a estratégia brasileira “passa por criar espaços de cooperação que, no fundo, desmobilizem as forças que defendem uma ingerência de Trump no Brasil”.
A questão é: será que Trump irá realmente se abster de interferir em nossas eleições?
A resposta a isso passa por vários fatores, inclusive pela solidez do atual governo norte-americano, cada vez mais impopular e contestado internamente. Trump sabe que provavelmente perderá as eleições legislativas de meio de mandato, no fim deste ano, o que lhe tiraria a pequena maioria que tem no Congresso norte-americano, e abriria caminho para um provável impeachment, dado o grau de ilegalidades e abusos que tem cometido.
Seu objetivo é interferir nessas eleições, fraudá-las, ou, se não conseguir, mentir que houve fraude e não reconhecê-las. Se conseguirá, não se sabe. De uma coisa, porém, sabemos: a capacidade dos EUA de sabotar países é enorme.
Será usada contra o Brasil?
A vantagem de Lula nas pesquisas eleitorais é real, mas pequena.
E a tendencia de voto no Brasil está muito solidificada.
Segundo pesquisa de fins do ano passado, 92% do eleitores pretendem repetir o voto de 2022 em 2026.
Boa e má notícia para Lula.
Boa porque ele teve 51% dos votos em 2022.
Má porque seu adversário teve 49%.
E se a extrema direita brasileira voltar, voltará muito pior, como Trump nos EUA.
Aos temas que a matéria do ICL diz que serão discutidos por Lula e Trump, eu apostaria em mais um, não mencionado: as terras raras.
Terras raras são um conjunto de minerais fundamentais para a indústria digital e bélica, para produtos de alta tecnologia e da transição energética, ou seja, a substituição gradual do petróleo por outras formas de energia – os motores dos carros elétricos, por exemplo, utilizam grande quantidade desses minerais estratégicos.
A China, atualmente, detém 48% das reservas conhecidas de terras raras no mundo. Em segundo lugar vem o Brasil, com 23% das reservas.
Mesmo assim, o Brasil ainda extrai poucos minerais de terras raras, responde por menos de 1% da produção mundial.
A China, atualmente, extrai mais minerais de terras raras que todos os demais países juntos, responde por 60% da extração global e 90% da capacidade de refino.
Os EUA são o segundo produtor, mas mesmo assim importam da China grande parte do que precisam.
Tremenda vulnerabilidade. Os chineses, ano passado, chegaram a aumentar as tarifas sobre as terras raras vendidas para os EUA, em retaliação à guerra tarifária lançada por Trump.
Trump já disse que queria acesso às terras raras da Ucrânia, como “pagamento” por sua intermediação do conflito com a Rússia. E as terras raras da Groenlândia são uma das razões de sua cobiça pela ilha.
Mais que raros, esses minerais são difíceis. Não basta extrai-los, há que colocá-los a ponto de sua utilização industrial, e isso é caro, demanda tecnologia sofisticada, e, fato triste, é bem danoso em termos ambientais.
O ponto crucial, portanto, é a tecnologia de beneficiamento desses minerais.
Soberania
Se o governo de um país defende, realmente, o interesse nacional, evitará ser apenas fornecedor de matéria prima, procurará participar da cadeia de valor dessa preciosa mercadoria que são as terras raras.
As conversas com os EUA em termos de parcerias para utilização de nossas terras raras têm acontecido, mas tem esbarrado numa exigência brasileira: que os EUA nos transfiram a difícil e cara tecnologia de beneficiamento.
Coisa de governo que se preocupa com o interesse nacional.
Coisa que um governo da direita brasileira, capachos dos EUA como sempre foram, jamais exigiria.
Então, porque Trump faria um acordo com Lula sobre as nossas terras raras, e, assim, se absteria de interferir em nossas eleições, se poderia fazer um acordo muito mais vantajoso, para os EUA, com os entreguistas da direita brasileira?
Trump convocou, no último dia 4, uma reunião com 54 países e mais a União Europeia para discutir a questão das terras raras. A proposta norte-americana é a criação de uma grande reserva de mercado em que esses países se comprometam a extrair terras raras para os EUA, isolando a China e diminuindo seu protagonismo nesse mercado.
O Brasil não deve concordar com a proposta, que privilegia somente os interesses dos EUA.
Lula deve costurar um acordo com a Índia, nos próximos dias, em relação às terras raras, e a União Europeia, que está fechando pacto de livre-comércio com o Mercosul, também já demonstrou interesse em parcerias com o Brasil nesse sentido.
Segundo noticiado na mídia, a embaixada norte-americana no Brasil já tem conversado sobre a exploração de terras raras com empresários brasileiros e estrangeiros e com os governadores de estados de Minas Gerais e de Goiás, ambos da direita entreguista. Agem como se não houvesse governo federal no país.
Minas Gerais e Goiás concentram as jazidas conhecidas de terras raras no Brasil. Mas temos apenas cerca de 30% de nosso território devidamente mapeado em termos de recursos minerais. Podemos ter muito mais reservas de terras raras, além de outras riquezas minerais.
O que evidencia a questão crucial da importância da pesquisa geológica de nossos recursos minerais, além de uma institucionalidade que busque conciliar a eventual exploração desses recursos com o cuidado ambiental. Não é exagero dizer que isso é uma questão de soberania nacional.
Localiza-se em Goiás a única mineradora de terras raras em operação no Brasil atualmente, a mineradora Serra Verde, de propriedade de dois fundos de investimento, um britânico e outro norte-americano. Essa empresa já negociou um empréstimo com um banco norte-americano para aumentar a extração dos minerais.
As terras raras são o petróleo do futuro. Os interesses econômicos e a disputa geopolítica em torno delas serão brutais, como tem sido em relação ao petróleo.
O que está em jogo, portanto, é muito importante: defenderemos, na eleição deste ano, a continuidade de um governo que preza o interesse nacional ou entregaremos, mais uma vez, o poder a uma direita submissa aos interesses de outros países?
Dominado por uma elite, salvo exceções, colonizada e entreguista, o Brasil, ao longo da história, conheceu momentos de soberania efetiva raros e difíceis – como os minerais de que falamos aqui.
Não podemos jogar fora essa situação preciosa de termos um governo realmente nacionalista, encabeçado por um verdadeiro estadista.
Rubens Goyatá Campante é doutor em sociologia pela UFMG e pesquisador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (CERBRAS)
—
Leia outros artigos do autor em sua coluna no Brasil de Fato MG
—
Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

