Desde que o mundo passou a considerar o clima como um problema político e econômico — e não mais apenas ambiental — uma nova agenda internacional começou a se consolidar. Nesse contexto, a partir dos anos 1990, as mudanças climáticas se tornaram eixo estruturante das grandes conferências multilaterais, passando a ocupar espaço privilegiado nas políticas públicas e nas estratégias do setor empresarial. A disputa pelo futuro do clima ganhou status de tema de alto escalão, reunindo executivos, chefes de Estado, movimentos sociais, cientistas e investidores sob os mesmos refletores — muitas vezes em um cenário que lembra um campo minado diplomático.
A partir desse momento, a preocupação climática deixou de ser restrita à comunidade científica e passou a interferir nos mercados, na legislação e no próprio modo de planejar cidades. E esse campo, cada vez mais, passa pelas cidades, onde a crise ambiental revela seus efeitos de forma mais inescapável.
A percepção da crise climática, porém, ainda costuma vir acompanhada de imagens distantes: florestas queimando, geleiras derretendo, animais em risco. O que fica fora desse imaginário é que os impactos mais diretos e cruéis se materializam justamente nas cidades, onde vive a maior parte da população mundial. Enchentes, deslizamentos, ondas de calor, falta de água e o avanço de doenças já moldam o cotidiano — sobretudo da população mais vulnerável.
Nas décadas seguintes, a transição climática deixou de ser discussão acadêmica e entrou nos portfólios corporativos. Transformou-se em argumento — e em produto. A inovação tecnológica, os selos de eficiência e os acordos financeiros passaram a construir um novo mercado, no qual o planeta se converte em oportunidade. No urbanismo, o movimento também se fez sentir: as cidades passaram a ser moldadas pela lógica concorrencial, flexível e sedenta por investimentos. Tornaram-se vitrines e também trincheiras do chamado capitalismo verde, expresso em grandes obras, modernização e glamour, mas também em remoções, gentrificação e na velha desigualdade mascarada de inovação.
Esse debate ganhou novamente fôlego em 2025, com a realização da 30ª Conferência das Partes (COP30) em Belém (PA). O encontro recolocou no centro das negociações a relação entre clima e cidades, destacando o papel decisivo das metrópoles tropicais no enfrentamento da crise climática. A conferência também reforçou o protagonismo de estados e municípios nas estratégias de mitigação e adaptação, ampliando discussões sobre um possível “federalismo climático” e sobre a necessidade de fortalecer governos subnacionais como atores fundamentais na implementação de políticas ambientais.
A cronologia das Conferências do Clima ao longo das últimas três décadas revela transformações profundas na forma como o mundo passou a compreender — e negociar — a crise climática. Tudo começa antes mesmo da primeira COP, em 1992, quando a ECO-92, no Rio de Janeiro, inaugura a governança climática moderna e lança a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). É desse marco que surgiriam, três anos depois, as Conferências das Partes, espaço anual de negociação que se tornaria o centro das disputas políticas, econômicas e ambientais do planeta.
A COP1, realizada em 1995, em Berlim, abre um ciclo de encontros que se repetem ano a ano. “As grandes mudanças começam com mudanças de perspectiva”, dizem negociadores que acompanharam a série desde o início. Berlim tornou-se, assim, o primeiro palco de um processo em que países tentariam — ano após ano — preservar o planeta que continuam a explorar e degradar.
As COPs, desde sua criação, refletem mudanças de perspectiva. E a mais recente delas é clara: não há futuro climático possível sem cidades no centro da equação. Desde então, atravessaram diferentes conjunturas internacionais, servindo de termômetro para crises geopolíticas, avanços tecnológicos e novas visões sobre desenvolvimento. Na América Latina, receberam edições na Argentina (1998 e 2004), no Peru (2014) e no Chile (2019, embora a reunião tenha sido realocada para Madri).
Mesmo com a crescente conscientização dos dilemas urbanos em escala global, o protagonismo das cidades nas primeiras edições das conferências se caracterizou pelo aspecto atrofiado no qual seu poder decisório ocupava menor escala em comparação aos demais atores da governança ambiental.
A virada começa nos anos 2000. Redes internacionais como Governos Locais pela Sustentabilidade – ICLEI e C40 ampliam sua influência, governos locais passam a pressionar por participação e ganha força a noção de “resiliência urbana” — conceito que integra planejamento municipal e adaptação climática. Movimentos urbanos e coletivos ambientais contribuem para trazer a pauta da justiça climática ao centro das discussões, cujo discurso passa a ecoar em fóruns paralelos e eventos oficiais, destacando que para a transição ecológica, indispensável o combate das desigualdades.
O protagonismo urbano, contudo – que vinha sendo construído desde 2005, quando prefeitos e redes internacionais começaram a ocupar espaços paralelos ao processo oficial da ONU – embora tenha crescido de forma contínua desde então, tem seu marco definitivo na participação efetiva no processo decisório climático a partir da COP21 (2015). Na COP21, em Paris, o Acordo de Paris reconhece formalmente os governos locais e regionais como atores essenciais na mitigação, na adaptação e no acesso ao financiamento climático. Mesmo sem direito a voto, cidades entram em mesas estratégicas e influenciam metas nacionais.
Passada uma década, em 2025, o Brasil assumiu um papel inédito ao sediar presencialmente a COP30, em Belém, no coração da Amazônia — escolha carregada de simbolismos e contradições. A maior floresta tropical do mundo, peça essencial da regulação climática global, convive com forte pressão do agronegócio, da mineração e de desigualdades urbanas persistentes. A reunião consolida o país como ator-chave da diplomacia climática internacional.
Se a floresta é central para a geopolítica climática, as cidades se tornaram fundamentais para entender como o aquecimento global se manifesta no cotidiano. No entanto, essa percepção é tardia. Durante grande parte da história das COPs, os centros urbanos permaneceram invisíveis nas negociações, apesar de concentrarem mais da metade das emissões globais e sofrerem os impactos mais intensos do colapso climático. As decisões eram tomadas entre Estados, longe das periferias, favelas e áreas vulneráveis onde enchentes, ondas de calor e crises sanitárias já se faziam presentes.
O planejamento climático urbano, tal como vem sendo formulado globalmente, parte de um pressuposto hoje amplamente difundido: tornar cidades resilientes gera oportunidades econômicas. A lógica parece simples — modernizar redes de água e energia, expandir transportes menos poluentes, reduzir riscos e prevenir desastres. Mas pesquisadores alertam que o discurso pode esconder um movimento mais profundo: a transição climática transformada em nova onda de reestruturação urbana a serviço do capital financeiro. Em outras palavras, priorizam-se áreas “rentáveis”, enquanto populações vulneráveis correm o risco de ficar para trás.
Essa trajetória encontra um ponto simbólico na COP30. Belém representa ao mesmo tempo a Amazônia e sua floresta — e a cidade amazônica real, desigual, vulnerável a enchentes, com infraestrutura insuficiente e dependente de grandes projetos de modernização. Sediar ali a conferência mais importante do clima escancara a urgência de integrar justiça urbana, proteção ambiental e planejamento climático numa mesma agenda.
Durante três décadas, as Conferências do Clima (COPs) negociaram metas e compromissos que raramente se concretizaram. A crise avançou mais rápido que os acordos. Nesse intervalo, as cidades se tornaram simultaneamente o principal motor econômico e o epicentro das novas vulnerabilidades: ocupações em áreas de risco, precariedade no saneamento, déficit habitacional, enchentes recorrentes, ilhas de calor, mobilidade insuficiente e deslizamentos que devastam comunidades inteiras. A crise climática atravessa todas essas fragilidades — e as amplifica.
Nas periferias do capitalismo global, o quadro é ainda mais dramático. São justamente os territórios mais vulneráveis aqueles que não atraem investimentos, por não oferecerem retorno financeiro imediato. Assim, a transição climática pode reproduzir — e aprofundar — desigualdades históricas: a cidade resiliente para alguns e a cidade colapsada para muitos.
Mesmo ocorrendo em um novo território, a COP30 não escapou dessa contradição. O encontro reproduziu tensões que marcaram as conferências anteriores: avanços diplomáticos lentos diante da emergência, metas descumpridas, promessas de financiamento insuficientes e decisões moldadas por interesses econômicos. No campo urbano, a disputa é ainda mais evidente.
É nesse ponto que surgem os maiores entraves diplomáticos. Adaptar cidades sem enfrentar desigualdades é tecnicamente possível e politicamente injusto. As negociações, porém, esbarram na frágil representação de governos locais e de instituições subnacionais no processo decisório das COPs. As cidades, que concentram efeitos diretos da crise climática, continuam pouco ouvidas. E a crise, como revelam os territórios, não atinge todos da mesma forma. A narrativa de que “estamos no mesmo barco” desaba diante da realidade urbana: a emergência climática é social antes de ser ambiental.
Garantir cidades sustentáveis envolve muito mais do que reduzir carbono. Significa assegurar qualidade de vida: água limpa, sombra, transporte digno, moradia segura, acesso ao espaço público, serviços de saúde e educação que não afundem com a próxima chuva. Falar de sustentabilidade urbana é, portanto, falar de democracia urbana.
As COPs permanecem como um esforço mundial para enfrentar um desafio que desconhece fronteiras. Mas seu êxito não será medido pelos documentos assinados — e sim pelas transformações concretas nos territórios onde vivemos. O século XXI ensinou algo fundamental: o clima se decide nas cidades, inclusive nas cidades amazônicas.
À medida que fundos internacionais destinam bilhões para adaptação urbana, cresce um alerta: os recursos tendem a fluir para áreas de “alto retorno”, deixando periferias ainda mais expostas a enchentes, calor extremo e desastres. A cidade resiliente em partes, avisam especialistas, é na verdade uma cidade injusta.
Uma cidade sustentável não pode funcionar como vitrine de modernização enquanto mantém a desigualdade como alicerce. De pouco serve construir avenidas verdes se, ao lado, famílias são removidas para longe de seus locais de vida, trabalho e pertencimento. A transição climática urbana, para ser justa, precisa começar exatamente onde historicamente começou o abandono.
*Marcio Valério Effgen é mestre em Sociologia Política pela Universidade Vila Velha – UVV e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP é Pesquisador do Observatório das Metrópoles São Paulo.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
