Makota Célia Gonçalves Souza

é jornalista, empreendedora social da Rede Ashoka, coordenadora geral do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira (CENARAB) e Doutora Honoris Causa pela Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL).

O lobo vestido de toga e fantasiado de cordeiro a julgar

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Onde vamos parar com esta noção dantesca de poder judicial absoluto, onde juízes e desembargadores, em sua maioria homens brancos, detém em suas mãos nem sempre limpas o poder de decidir sobre nossos direitos, sobre nossos sonhos e desejos?
Onde vamos parar com esta noção dantesca de poder judicial absoluto, onde juízes e desembargadores, em sua maioria homens brancos, detém em suas mãos nem sempre limpas o poder de decidir sobre nossos direitos, sobre nossos sonhos e desejos? | Crédito: Reprodução/TJMG

A criança de 12 anos precisa ter restaurado seus direitos

O que dizer de um país cuja (in) Justiça, que se diz justiça, brinca com nossos direitos cidadãos, descumpre covardemente as próprias leis que deveriam norteá-la para o melhor fazer da justiça?

O que dizer de um desembargador que dá uma sentença, onde declara a “normalidade” para ele (que inclusive é investigado por pelo menos duas denúncias de tentativa de abuso sexual no passado, uma por parte de um sobrinho e outra por parte de uma mulher que já havia trabalhado para sua família), para uma relação, ainda segundo ele, consensual entre uma criança de 12 anos e um homem de 35 anos?

Onde vamos parar com esta noção dantesca de poder judicial absoluto, onde juízes e desembargadores, em sua maioria homens brancos, detém em suas mãos nem sempre limpas o poder de decidir sobre nossos direitos, sobre nossos sonhos e desejos?

E o que dizer da e para a menina, a pequena garota vítima de sua própria mãe e agora daquele que deveria protegê-la? Como esta criança olhará amanhã os homens de toga que, da noite para o dia, a sentenciaram, a julgaram e a condenaram por ser uma menina nas mãos de inescrupulosos?

Confesso a vocês que tenho medo, medo do que estamos a viver. Dos julgamentos e incompreensões de nossa humanidade que estamos a vivenciar. Somos pessoas às quais não está assegurado o direito ao descanso para, simplesmente, nos humanizarmos. Ser mulher atualmente é quase um risco fatal, não temos direito a ser simplesmente mulheres a mulherar, a respirar.

Nossos sonhos não podem, nesta sociedade machista e homofóbica, serem sonhos de mulheres livres, que amam, andam, rezam, trabalham e que simplesmente vivem. Nossos corpos femininos de repente passaram a ser uma ameaça ao establishment de uma sociedade que cultua cotidianamente o ódio, o desprezo e o desrespeito ao outro, ou melhor, à outra. 

Há no ar, eu sinto, uma construção coletiva com base no ódio e na crença de que mulheres são feitas para apanhar, para morrer e serem desrespeitadas, eu sinto isso.

Em pleno século XXI, tatuei meu corpo no carnaval com um decalque “Não é Não”, quando o decalque poderia ser simplesmente assim: “sou feliz, sou mulher”, seria muito mais prazeroso estampar meu corpo com uma ação afirmativa de meu prazer em ser quem sou, não de precisar ensinar a marmanjo, que exijo respeito.

Eu queria de verdade que os homens fossem mais educados. A campanha se tornou necessária, como forma corretiva de comportamentos abusivos, machistas, homofóbicos. Tenho vergonha desses homens, que carecem aprender a viver em sociedade.

Mas volto a falar da pequena de 12 anos, cujo desembargador Magid Nauef Láuar, que se eu tivesse uma escola para ensinar homem a ser homem, com certeza estaria obrigatoriamente matriculado lá, achou que a relação dela com um homem de 35 anos, fosse consensual e um caso de namorados. Não sei se o desembargador tem filhas, mas se as tem, com certeza essas devem estar envergonhadas, de um pai que acha normal uma relação de uma criança e um homem monstro. Um pai que acha casual transgredir e violar a lei da qual ele próprio é guardião.

Será que esse desembargador monstro, tal qual o homem abusador, realmente estudou? Sabe o que é julgar com imparcialidade, com moral, ética e compromisso social? Não, para mim esse homem nunca soube o que são esses princípios.

Está no lugar errado, e espero eu, caso se confirmem as denúncias contra ele próprio colocadas, de abuso contra seu sobrinho e a servidora de sua família, logo ele passe a dividir cela com o homem que tão bem defendeu, isso, claro, se a justiça brasileira sair desse lugar cômodo de uma justiça cega, que nega a vida, o direito e a liberdade.

Esta criança precisa ter restaurados seus direitos à infância, à vida, à educação digna e ao amor. E isso se dará com a prisão de tod@s seus algozes, que estão há anos impunes e que agora devem pagar como todos os que cometem crimes, sejam eles quais forem.

E ao Desembargador, eu espero que não seja, após investigado, julgado e condenado, apenas mais um aposentado a receber como punição seu belo salário de magistrado. Se isso acontecer terei restaurada minha fé e esperança de uma Justiça e não a reafirmação do estado de (in) justiça brasileira.

Makota Celinha Gonçalves é jornalista, empreendedora social da Rede Ashoka e coordenadora geral do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira (CENARAB)

Leia outros artigos de Makota Celinha em sua coluna no Brasil de Fato MG

Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

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