Esta coluna nasceu depois que esbarrei em um blog com o título que me chamou atenção: “Coitada da mulher que não é mãe”. À primeira vista, o título sugere um olhar tradicional ou de pena, mas o autor o utiliza de forma irônica, justamente para dizer o contrário. Ele propõe uma reflexão sobre o preconceito e o julgamento que muitas mulheres sofrem, especialmente vindos de outras mulheres, por optarem em não ter filhos.
Embora a iniciativa deste homem possa parecer bem-intencionada, o texto comete ao menos dois pecados. O primeiro é o de um homem se propor a falar sobre um tema tão caro às mulheres. O segundo é que, ao mesmo tempo em que ele exalta a diversidade feminina e declara admiração pelas mulheres, lança luz sobre a rivalidade entre elas sem, no entanto, aprofundar as suas causas.
Essa rivalidade, como nos mostra Heleieth Saffioti em A mulher na sociedade de classes: mito e realidade (1969), não nasce do acaso, mas se trata de um fenômeno socialmente construído, enraizado na estrutura patriarcal e de classes que divide e subordina as mulheres entre si. Com isso, a autora afirma:
“O antagonismo entre as mulheres é um produto da própria estrutura patriarcal, que as coloca em posição de concorrência umas com as outras, especialmente no que se refere ao homem e aos papéis sociais a ele vinculados.”
Inspirada pela provocação do blog e das lembranças das leituras e debates sobre o livro, senti a responsabilidade de escrever, como mulher que não é mãe, sobre esse tema, mas sob outra perspectiva: a de não rivalizar ou romantizar a vida da mulher em si. Pois, da mesma forma que se romantiza a maternidade, também há uma romantização e especulação da vida da mulher que não é mãe, como se ela devesse estar sempre disponível, leve ou “livre”. Quando, na verdade, toda decisão traz consigo responsabilidades, pesos e renúncias.
Decidir, ou não, ser mãe nunca é simples! Em muitos casos, nem sequer se trata de uma escolha, mas de uma condição do próprio corpo. Para algumas mulheres, por diferentes razões, essa é uma decisão dolorosa; para outras, algo decidido desde a juventude ou amadurecido com o tempo. A vida sem filhos, como qualquer outra, é feita de escolhas, responsabilidades e desejos. E no final o importa mesmo, o que é essencial, é viver com plenitude e estar em paz com o caminho que se escolheu… ou que a vida apresentou.
Além disso, há mulheres que vivem o “não ser mãe” fisicamente, mas encontram outros modos de exercer sua maternidade, não no sentido do cuidado tradicional, mas em formas diversas de entrega e criação, sejam com projetos, cuidado consigo ou com a casa, relacionamentos, profissões: todos podem ser espaços onde o sentimento de gerar, nutrir e construir se manifesta. São expressões diferentes da maternidade, igualmente legítimas.
Eu mesma, a cada coluna que aqui escrevo, sinto que algo nasce. Exerço a minha maternidade ao refletir, criar e compartilhar essas palavras com o mundo. Assim como os filhos pertencem à vida, também as palavras ganham seu próprio caminho, e é nessa entrega que reconheço o ser mãe da mulher que não é mãe.
Apenas sejamos plenas e felizes com nossos corpos e nossas escolhas! Sigamos…
*Adriana Dantas é educadora popular
**Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato DF.
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