No último dia 27 de outubro a editora Expressão Popular, sob o título, A Luta pela Terra e a Justiça – Semear resistência, cultivar direitos, colher cidadania: 40 anos do MST, lançou o livro que aborda sobretudo essa relação quase umbilical entre o movimento e a busca pela justiça.
Organizado pelos juristas, militantes Ney Strozake, Diego Vedovatto, e pelas incansáveis juristas, educadoras colaboradoras do movimento Charlotth Back e Carol Proner.
O livro reúne uma série de artigos de intelectuais e lutadores igualmente dedicados e solidários ao tema. O MST é gigante, isso é fato. Impossível abarcar todas as temáticas que o constituem em um só livro. Parto daí para retomar um ponto essencial desta reflexão.
Em tempos de IA e ferramentas instantâneas de comunicação que nos roubam de nós mesmos e nos direcionam sobre onde buscar informações e conhecimento, organizar e publicar um livro que não esteja atrelado a esse mundo paralelo de ilusões, ou ao seleto universo do mercado editorial da não ficção comercial, dos religiosos, da autoajuda ou dos manuais de “como ser um milionário”. Chamar atenção para livros que abordem a leitura da realidade sempre foi e continua sendo um desafio.
E é justamente por isso que a pergunta central permanece: afinal, quem se interessa pela história de um movimento contada a partir dos seus próprios construtores? Quem se dispõe a revisitar a quebra de paradigmas nascida do chão da terra? Pois bem: essa história está sendo recontada, agora sob uma lente que se aproxima dos ensinamentos, das resiliências e dos avanços que o MST sofreu, e, ao mesmo tempo, promoveu, ao longo dos seus 40 anos de caminhada.
Essa trajetória, afinal, não foi simples
Digo “sofreu” porque, quantas vezes, mudanças de rota ou de convicções precisaram ser revisadas e reinventadas em milhares de encontros organizados pelo movimento? Ou na realidade dos acampamentos e assentamentos, vivenciado dia após dia pela militância? Quantos debates vararam noites para que o melhor caminho fosse escolhido, sempre com foco na maioria? Ganhar, perder… tudo faz parte da política encarnada na rotina dessas pessoas.
Conhecer de perto alguns desses militantes é motivo de honra e a prova viva de que a luta existe e se amplia a cada palavra dita, escrita e a cada ação por justiça que reverbera nacional e internacionalmente.
Nesse sentido, a obra também se dedica a iluminar um período marcado por mudanças profundas. Vivemos múltiplas quebras de paradigmas na atualidade e, como mencionei no início desta coluna, a mudança nos modos de comunicação e socialização não acontece à margem do movimento. Os 13 artigos da obra recuperam justamente as diversas transformações enfrentadas pelo MST diante das mudanças no modelo de produção agrária e agrícola. Transformações que o movimento acompanhou de perto e às quais respondeu modificando seu modo de lidar com a natureza, com as pessoas, com a política institucional, com a leitura e a prática das leis. E sobretudo, transformações que reafirmam sua defesa radical da dignidade da vida em todas as esferas. Como mencionado no segundo artigo:
“De fato, diante das significativas mudanças econômicas, sociais, ambientais, políticas, tecnológicas e culturais vivenciadas por toda a sociedade nas últimas quatro décadas, é inegável reconhecer que o MST também mudou”.
O que o livro nos mostra, na diversidade dos artigos, é o quanto o movimento não tem medo das mudanças: enfrenta-as e, muitas vezes, se coloca passos à frente, tornando-se exemplo de reinvenção e apontamento de caminhos para seus militantes e para o campo político da esquerda. Às vezes controverso, outras vezes profundamente coerente e afetuoso, mas sempre firme em seu propósito de existir e resistir, especialmente quando a luta exige enfrentamento, modernização e a quebra de velhos paradigmas. E continua:
“Analisar as mudanças vivenciadas ao longo de mais de quatro décadas por um movimento social da envergadura do MST, constituído atualmente por mais de meio milhão de famílias assentadas e mais de 100 mil famílias acampadas num país de dimensão continental como o Brasil, com diversidade regional, cultural e de tradições políticas tão distintas, não é tarefa simples”.
“Não obstante, na tentativa de contribuir com alguns poucos passos em tal jornada, por compreender que a assessoria popular jurídica, no ‘exercício contra hegemônico do direito’ que promove a defesa das ações do movimento (Carlet, 2015), ocupa lugar privilegiado na mediação institucional entre as ações empreendidas pelo sujeito coletivo de direitos e a resposta oficial que as diversas esferas do poder estatal conferem aos conflitos, talvez seja possível identificar parte dessas mudanças do MST ao olhar especificamente para as mudanças temáticas vivenciadas no exercício da atividade jurídica”.
Bom, o MST é essa força que impulsiona, vibra e se fortalece porque para além da convicção na luta, a compaixão e a solidariedade caminham juntas, de mãos dadas com cada militante e apoiador(a) sem-terra. E é justamente nessa união, entre coragem e cuidado, entre resistência e esperança, que reside a beleza da luta por acesso à terra, justiça e suas atualizações ao longo dos anos que este livro nos convida a adentrar.
E mais: o livro cumpre dois papéis fundamentais. Primeiro, destaca marcos jurídicos decisivos da resistência construída pelo movimento. Segundo, evidencia que compreender o MST é compreender uma parte essencial da formação social brasileira e das disputas contemporâneas em torno de territórios, direitos e soberania.
Trata-se de uma leitura necessária para quem deseja entender o Brasil além das aparências.
*Adriana Dantas é educadora popular
**Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato DF.
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