Adriana Souza

Adriana Souza é a vereadora eleita mais bem votada de Contagem (MG), professora de História, ativista socioambiental do SOS Vargem das Flores e co-fundadora do Coletivo Com Elas

Do espetáculo ao caos: aulão de IA e o desmonte da educação mineira

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Adriana Souza (PT) é vereadora de Contagem (MG) | Crédito: Arquivo pessoal

Quebradeira em aulão de IA é fotografia da educação no governo Zema

No dia 19 de novembro, o governo Romeu Zema transformou o Mineirão em palco de um grande evento de marketing: o “maior aulão de Inteligência Artificial do mundo”, voltado para cerca de 30 mil estudantes da rede estadual, em parceria com o Google Gemini. O objetivo declarado era entrar para o Guinness Book, o livro dos recordes.

O que ficou para a história, porém, não foi a aula — foi a pancadaria generalizada nas arquibancadas, a intervenção da Polícia Militar, o medo e a frustração de milhares de estudantes e profissionais da educação.

O aulão, que deveria durar quatro horas, nem chegou a acontecer de verdade: começou com atraso, foi interrompido diversas vezes e terminou em briga generalizada poucos minutos depois. Um evento que se vendia como inovação tecnológica terminou como retrato perfeito de um projeto de educação que prioriza espetáculo, marketing e disputa eleitoral, em vez de garantir condições mínimas de ensino, aprendizagem e segurança.

Quando a propaganda vale mais do que a educação

Nada no desenho do Aulão de IA apontava para objetivos pedagógicos claros. Qual era o plano de aula? Quais competências seriam trabalhadas? Como o conteúdo dialogaria com o currículo das escolas estaduais ou com a realidade concreta dos estudantes? Como os professores seriam envolvidos nesse processo antes, durante e depois da atividade?

Em vez de construir um programa de formação continuada em tecnologias digitais, articulado às escolas, o governo escolheu concentrar dezenas de milhares de adolescentes em um estádio de futebol, com foco em um único objetivo: bater recorde e gerar imagens para as redes sociais do governador e da Secretaria de Estado de Educação, em parceria com uma big tech.

O próprio Sind-UTE/MG resumiu bem essa escolha ao afirmar que o governo vive uma “realidade paralela” com esse tipo de ação: enquanto professores seguem sem receber o Piso Nacional, escolas carecem de investimentos básicos e profissionais da educação convivem com contratos temporários e salários aviltantes, o governo se dedica a produzir megaeventos de autopromoção.

Levar cerca de 30 mil adolescentes de 11 cidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte para um estádio, com filas enormes, pouca informação, falhas de organização e sem um projeto pedagógico consistente é, em si, um risco calculado — só que calculado de forma irresponsável.

Os vídeos que circularam mostram brigas em diferentes pontos das arquibancadas, estudantes correndo, garrafas jogadas, tumulto generalizado e a PM sendo chamada para conter a confusão.

É importante dizer o óbvio: quando um governo convoca milhares de jovens, ele é responsável não apenas pelo transporte e pela “programação”, mas também pela segurança, pela integridade física e emocional de cada estudante e pelo respeito às equipes escolares que acompanharam os grupos.

Em vez de educação crítica sobre tecnologia, o que se ofereceu foi uma mistura de precariedade organizativa, improviso e exposição a riscos. E isso não é acidente: é expressão de um modo de governar.

Salários arrochados, contratos temporários e sucateamento: o outro lado do show

Para entender o Aulão do Mineirão, é preciso olhar para o chão da escola mineira.

Em 2025, enquanto o governo Zema fazia pose de vanguarda tecnológica ao lado de uma multinacional, o salário inicial de um professor de Educação Básica em Minas Gerais, com jornada de 24h, continuava em R$ 2.774,82 — bem abaixo do Piso Salarial Nacional do Magistério, fixado em R$ 4.867,77. A diferença chega a mais de R$ 2 mil por mês, acumulando anos de desrespeito ao Piso.

Ao mesmo tempo, Minas Gerais ocupa o lamentável posto de estado com maior proporção de professores temporários do país: cerca de 80% da rede estadual está submetida à lógica da contratação precária, com vínculos frágeis, insegurança profissional e rotatividade constante, o que impacta diretamente a qualidade da educação.

Essa precarização da carreira docente já havia sido denunciada em textos anteriores, quando discutimos como a militarização das escolas tenta esconder a verdadeira crise da educação pública: salários baixos, falta de concursos, adoecimento profissional e desvalorização estrutural da docência.

Ou seja: enquanto o governo monta um palco high-tech no Mineirão, professores seguem sem reconhecimento financeiro mínimo, auxiliares de serviços da educação seguem invisibilizados e temporários seguem segurando o funcionamento da rede à custa da própria saúde.

Escolas sem laboratório, sem internet e sem condições mínimas

Outro ponto que escancara a distância entre o espetáculo e a realidade é a infraestrutura das escolas estaduais. Relatórios do Tribunal de Contas do Estado mostram falhas graves em escolas da zona rural, incluindo problemas de acesso à água potável, saneamento e condições inadequadas de funcionamento.

No campo da tecnologia, estudos nacionais apontam que menos da metade das escolas públicas brasileiras têm internet disponível para uso pedagógico dos estudantes, e uma parcela ainda menor conta com conexão em velocidade minimamente adequada para atividades de aprendizagem mediadas por tecnologia.

Em Minas, o próprio governo reconhece que precisa lançar uma PPP de infraestrutura escolar para reformar 95 unidades e dotá-las de melhores condições físicas, incluindo conectividade — um recorte ínfimo diante da dimensão da rede estadual[1].

Como falar em “maior aula de IA do mundo” quando tantos estudantes sequer têm laboratório de informática funcionando, acesso regular à internet, equipamentos atualizados ou espaços adequados para projetos de tecnologia nas suas escolas? Nesse contexto, o Aulão não passa de vitrine: um show pontual para as câmeras, enquanto a rotina permanece marcada por falta de estrutura.

Professores em luta permanente x governo de propaganda

Enquanto Zema sobe ao palco do Mineirão ao lado de executivos de uma big tech, professores e professoras seguem em estado permanente de mobilização, greves e atos por melhores salários, condições de trabalho e respeito ao Piso Nacional.

Na rede estadual, as greves recorrentes são gritos por dignidade. São a forma que a categoria encontrou para enfrentar um governo que prefere investir em campanhas de marketing e em modelos autoritários — como as escolas cívico-militares — do que encarar o núcleo do problema: a carreira docente, a infraestrutura e o projeto pedagógico.

Esse contraste fica ainda mais evidente quando olhamos para Contagem. Sob a liderança de Marília Campos, a cidade construiu um dos melhores planos de carreira docente da Região Metropolitana, investiu em infraestrutura e tecnologia nas escolas municipais e apostou em uma gestão democrática, dialogando com a comunidade escolar.

Não se trata de idealizar experiências, mas de mostrar que é possível fazer diferente: ao invés de grandes shows pontuais, construir políticas públicas contínuas, com planejamento, participação social e foco na aprendizagem.

Um governo neocolonial para a educação mineira

Quando falo que Zema tenta implementar em Minas um governo de caráter neocolonial, estou me referindo justamente a esse tipo de lógica:

  • importamos soluções prontas de grandes empresas de tecnologia, muitas vezes em formato de pacotes fechados, sem diálogo profundo com os profissionais da rede;
  • exportamos dados, recursos públicos e legitimidade política, reforçando a dependência tecnológica e a centralidade das big techs na definição do que é “inovação” em educação;
  • mantemos nossas escolas em condições precárias, nossas crianças e jovens sem acesso universal a equipamentos e conectividade, e nossos professores submetidos a salários baixos e contratos temporários.

As novas tecnologias aparecem como espetáculo, como pirotecnia, não como conhecimento a ser apropriado criticamente pela comunidade escolar. É a lógica neocolonial: em vez de construir autonomia tecnológica e pedagógica, contentamo-nos em figurar em um ranking, em um recorde, em um selo no Guinness Book.

Em outros textos já discuti como a inteligência artificial poderia estar a serviço da classe trabalhadora, ajudando a reduzir jornadas extenuantes, reorganizar processos e liberar tempo de vida — e não aprofundar a exploração ou servir apenas à vigilância e ao controle. O que vimos no Mineirão foi exatamente o oposto: uma tecnologia que poderia ser ferramenta de emancipação sendo usada como peça de marketing de um governo que precariza a vida de quem educa.

O que precisamos: plano pedagógico, investimento e autonomia

Ao invés de megaeventos vazios, Minas Gerais precisa de:

  • Plano pedagógico estadual para tecnologias digitais e IA, construído com a participação de professores, pesquisadores, estudantes e comunidades escolares;
  • Laboratórios de informática equipados, internet de qualidade e dispositivos individuais disponíveis para estudantes e educadores, com programas de manutenção permanente;
  • Concurso público e valorização real da carreira docente, com cumprimento integral do Piso Nacional, progressão, formação continuada e condições dignas de trabalho para todos os profissionais da educação, incluindo auxiliares e equipes de apoio;
  • Formação crítica em IA e cultura digital, que ajude jovens a compreenderem o funcionamento político, econômico e ético dessas tecnologias, e não só “usarem ferramentas da moda”;
  • Gestão democrática, com fortalecimento dos conselhos escolares, participação estudantil e protagonismo da comunidade na definição das prioridades da escola.

Nada disso entra em foto de drone sobrevoando o gramado do Mineirão. Mas é isso que transforma, de fato, o cotidiano da sala de aula.

Como professora e vereadora, sigo do lado de quem sustenta a escola todos os dias: professores, auxiliares, estudantes, famílias e movimentos que lutam por uma educação pública de qualidade.

A inteligência artificial pode e deve ser uma aliada nesse processo — mas só fará sentido se estiver a serviço da dignidade, da justiça social e da autonomia do povo mineiro, e não de um governo que trata nossa juventude como plateia de show e nossos educadores como números descartáveis em uma planilha.

Adriana Souza é militante, mãe, professora de história e vereadora mais votada de Contagem.

Leia outros artigos em sua coluna no Brasil de Fato MG

Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal


[1] Ver: educacao.mg.gov.br/wp-content/uploads/2025/10/PPP-Infraestrutura-Escolar-MG-Apresentacao-Roadshow.pdf.

Editado por: Elis Almeida

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