Por Elisabete Vitorino*
A onda de insurgências nos países africanos que eram colônias de países europeus se intensificou no pós-Segunda Guerra Mundial. As colônias aumentaram suas investidas pela independência como foi o caso de Cabo Verde, ex-colônia portuguesa. Apesar de não ter luta armada, o arquipélago conquistou sua independência em 1975.
Esses movimentos pautaram as relações colonizador/colonizado e inspiraram os movimentos emancipatórios em diversos países do continente africano. É importante destacar que não foram apenas as lutas políticas, mas, principalmente, a luta armada que deu a esses países suas independências.
Para entender como se deram esses processos independentistas, iniciei uma série de entrevistas com pessoas de diferentes países africanos. Nesta primeira edição, conversei com o professor e doutor em História Social Elias Alfama acerca do processo de independência de Cabo Verde.
Elisabete Vitorino – Bem, vamos lá?! Eu sou Elisabete Vitorino e assino a coluna África & Diáspora, do Brasil de Fato PB. Agradeço sua participação na nossa coluna. Eu vou fazer algumas perguntas que irão compor a nossa próxima publicação sobre a independência e experiência de africanos na diáspora e que estão vivendo no Brasil. Gostaria que você se apresentasse.
Elias Alfama – Eu sou Elias Alfama Vaz Moniz, cabo-verdiano, bacharel em história pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, graduado em licenciatura em história pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutor em História Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professor Visitante na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, como professor de História da África, atuando também no Programa de Pós-graduação em Mestrado Profissional em História da África, da Diáspora e dos Povos Indígenas (PPMPH/UFRB).
Antes de continuar gostaria que, se possível, explicasse para nós brasileiros o que é a morabeza cabo-verdiana. Eu tenho convivido com cabo-verdianos e cabo-verdianas e tenho sentido um pouco disso. É algo muito específico de Cabo Verde.
A morabeza, para nós cabo-verdianos, é uma espécie de compromisso que assumimos para com o outro. Aquele que nos é estranho deve ser bem acolhido, respeitado e nos sentimos na obrigatoriedade de oferecer o melhor que temos. Vocês chamam de hospitalidade, mas, no nosso caso, é mais do que isso, é um modo de estar, e viver comunal.
Como você interpreta o processo de independência de Cabo Verde?
A independência de Cabo Verde foi um processo bastante complexo que começou bem cedo, ainda no início do processo de ocupação, quando os primeiros cabo-verdianos começaram a oferecer tenazes resistências às diversas formas de subjugação e dominação que os portugueses iam implementando. Um bom exemplo dessa ânsia pela sua autonomia é a forma como os cabo-verdianos se recusaram a adotar a língua do colonizador. Esse espírito acompanhou os cabo-verdianos em todo período colonial e está bem evidente nas formas de expressão cultural (do batuko ao funana, passando pela morna e coladeira), nas letras musicais e performances corporais, o crioulo dava conta da sua revolta, indignação face à situação em que se encontrava.
Quais foram as transformações que a independência de Cabo Verde trouxe para o país?
Qualquer processo do gênero é profundamente marcado por rupturas: desde logo, você tem a assunção dos rumos do país, que significa pensar em novas políticas públicas, de desenvolvimento em todos os setores. E isso representou grandes desafios para um país que se defrontava com carências de diversas naturezas: carência de recursos naturais, ausência de recursos humanos, visto que essa nunca foi a preocupação do colonizador.
Como você vê a sociedade cabo-verdiana atualmente?
Não obstante, são visíveis, na sociedade cabo-verdiana, os frutos da independência: 50 anos depois, são inegáveis os ganhos políticos (com uma democracia bastante aceitável para um país tão jovem), culturais, identitários. Hoje é cada vez mais visível, particularmente para os mais jovens. O orgulho que os cabo-verdianos têm do país que estão construindo. Como deve imaginar, 50 anos é um tempo curto e, como não poderia deixar de ser, ainda temos coisas a melhorar. Uma delas é a ainda ambígua relação que estabelecemos com o nosso continente, que oscila entre o rejeitar e o assumir conforme a conjuntura.
Bem, Cabo Verde chegou a Copa do Mundo e o mundo abraçou a seleção cabo-verdiana. Eu te pergunto: Na sua análise, quais os impactos que a participação do Cabo Verde na Copa do Mundo trará para o país?
Quanto à nossa participação na Copa do Mundo, por um lado, reflete os tais ganhos resultantes da independência e, por outro, a nossa magnífica participação tem despertado enorme interesse da comunidade internacional que, por sua vez, tem gerado novos desafios, como o de responder à grande demanda dos turistas, cujo número aumentou exponencialmente no último mês. Um outro grande desafio é o de não perder esse capital que a presença no mundial nos aportou.
Elisabete Vitorino – Mais uma vez, obrigada, professor!
Os processos de independência das ex-colônias de países europeus na África ainda são algo recente. No entanto, os avanços vão além dos campos de futebol e estão na produção de políticas públicas, no incentivo ao desenvolvimento socioeconômico, nas artes e na cultura como um todo. O estabelecimento de relações internacionais fortes tem pautado ganhos desses países inclusive com o Brasil, como é o caso da Universidade da da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab). Uma universidade pensada para receber estudantes africanos de países africanos de língua portuguesa em uma parceria de formação de nível superior.
*Elisabete Vitorino é paraibana, assistente social, mestra em Serviço Social e especialista em Saúde Mental pela UFPB. Atualmente é doutoranda em Estudos Étnicos e Africanos pela UFBA. Foi professora do curso de graduação de serviço social na Univerdidade Federal do Recôncavo da Bahia e professora formadora do curso de Aperfeiçoamento em Educação para as Relações Étnico-Raciais, promovido pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) no Campus dos Malês. É autora do livro “Serviço Social e atuais tendências do exercício profissional na saúde mental em João Pessoa/PB”.
**A opinião contida neste texto não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

