Por Ana Cristina Mélo*
O mapa é um instrumento utilizado para representar uma área geográfica, indicando locais, direções e diversas informações relevantes. Durante uma viagem, ele nos ajuda a encontrar o caminho desejado, especialmente quando não conhecemos a rota de memória e não queremos nos perder. Assim, o mapa do caminho representa uma trajetória para alcançar um destino importante. Que lugar é esse que queremos alcançar com o mapa do caminho mencionado na COP30?
A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, realizada em Belém (PA), Brasil, entre 10 e 21 de novembro de 2025, focou suas discussões em buscar um meio termo entre o crescimento desenfreado do capital e a preservação do planeta. Há quem defenda o chamado “desenvolvimento sustentável” como a única solução viável. Será mesmo?

O dossiê n° 93 do Instituto Tricontinental nos alerta sobre as falsas soluções apresentadas por instituições internacionais: o Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris, ambos frutos de COPs realizadas nas cidades que levaram seus nomes. Atualmente, esses acordos são como notas de cruzeiro, obsoletas e sem valor. Eis que estamos em 2025, sobrevivendo a catástrofes resultantes da crise climática, enquanto empresas e Estados ainda resistem a abandonar o uso de combustíveis fósseis. Esses combustíveis, ao serem queimados, liberam dióxido de carbono na atmosfera, causando o aumento da temperatura. Esse aumento gera desequilíbrios e eventos extremos, como secas e inundações, que ameaçam a existência dos seres vivos em nosso planeta.
É crucial reconhecer que a crise climática está intimamente ligada às desigualdades de classe, raça e gênero. Esses desastres têm consequências ainda mais severas para mulheres negras e habitantes de áreas periféricas. Portanto, a luta deve ser conjunta e de todos nós. Devemos abandonar a ideia de que essa é uma preocupação exclusiva de meia dúvida de ambientalistas. Nossa existência está ameaçada se continuarmos nesse ritmo desenfreado e insustentável de crescimento econômico. Nesse contexto, a decisão de mutirão, um dos documentos do Pacote Belém — um conjunto de documentos aprovados em 22 de novembro — avançou ao reconhecer a importância das comunidades indígenas, mulheres e pessoas negras no combate à crise climática.
Um dos objetivos da COP em Belém era a criação de um mapa do caminho para o fim do uso de combustíveis fósseis, uma pendência da COP28 em Dubai. Em 2023, as partes estabeleceram a meta de erradicar o desmatamento até 2030, mas não elaboraram um plano para atingir esse objetivo. O mapa do caminho, que o presidente Lula defendeu desde o primeiro dia da COP, seria esse plano, que mais uma vez foi adiado.
Um artigo publicado no periódico internacional Science of the Total Environment, resultado de pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), relata que a zona costeira do município de Conde (PB) está perdendo espaço para o mar. Uma das consequências da elevação da temperatura é o derretimento das calotas polares, o que gera um aumento no nível do mar. Os pesquisadores identificaram que, além do aumento do nível do mar, a ocupação costeira causada pela urbanização, industrialização e turismo intensifica ainda mais a erosão, o que pode levar à perda de 12% da área do município a longo prazo. Isso resultaria no deslocamento forçado da população e em perdas irreversíveis da fauna e flora local.
A realidade apresentada por essa e outras pesquisas nos revela que a crise ambiental não é algo distante, suas consequências são comprovadas aqui em praias como Coqueirinho e Tambaba, muito próximas e muito visitadas por nós. Diante deste cenário, podemos nos perguntar: até quando acreditaremos que, apenas firmando esses acordos no âmbito da COP, estamos adiando o fim do mundo? Ailton Krenak já alertou que, se não nos desafixarmos da ideia de desenvolvimento e desse modo de viver, estaremos empacotando um mundo muito pior às futuras gerações. Ele nos alerta: pisemos suavemente na Terra.
*Ana Cristina Mélo é militante da Marcha Mundial das Mulheres e doutoranda em Economia Política Mundial na UFABC.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
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