Descomplicando o Economês

Coluna escrita por Ana Cristina Mélo, militante da Marcha Mundial das Mulheres e doutoranda em Economia Política Mundial na Universidade Federal do ABC (UFABC).

O filme ‘O Último Azul’ e a crise do cuidado

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Rodrigo Santoro e Denise Weinberg integram o elenco de ‘O Último Azul’ | Crédito: Guilhermo Garza/Desvia

A força mais delicada que o filme traz é mostrar essa mulher idosa transpondo barreiras sexistas e etaristas, navegando para longe dos estereótipos

O longa brasileiro O Último Azul, lançado em agosto de 2025, não teve a repercussão merecida na minha opinião. Dirigido pelo pernambucano Gabriel Mascaro e com roteiro dele em parceria com Tibério Azul, o filme apresenta as mais variadas camadas e temáticas possíveis de se abordar. A obra se passa em um futuro distópico, em que o governo tem uma forma perversa de lidar com pessoas idosas: isolando-as, compulsoriamente, em um lugar distante de suas famílias, a chamada “colônia”.

A protagonista é uma mulher de 77 anos que não ficou sabendo da nova regulamentação que reduz a idade obrigatória de reclusão para a colônia, de 80 para 75 anos. A partir disso, sua rotina comum e pacata, compartilhada com amigos e familiares, passa a ter os dias contados.

Desse modo, a trama se desenrola com a protagonista Tereza em seus últimos dias, antes de ser deportada para a colônia, indo atrás de realizar seu sonho, que é voar de avião, e rejeitando completamente seu destino de ser descartada pelo Estado. Essa política de “cuidar” das pessoas idosas vem acompanhada de um discurso de que elas, supostamente, seriam um fardo para os mais jovens e estariam atrapalhando seus familiares de serem mais produtivos para o capital.

O Censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2022 nos revela que a população com 65 anos ou mais cresceu 57,4% nos últimos 12 anos, enquanto a porcentagem de crianças com até 14 anos caiu. Isso significa que a sociedade brasileira passa pelo processo de envelhecimento.

Historicamente, as mulheres foram e são as que mais realizam o trabalho de reprodução social — o trabalho de cuidados e os trabalhos domésticos. Tendo em vista o fato de estarmos vivendo um capitalismo financeirizado que prioriza o lucro em detrimento da vida, as mulheres se sentem cada vez mais esgotadas e esmagadas por essa lógica perversa. Estamos vivendo uma crise do cuidado, que está intrinsecamente associada à crise econômica e política, à crise ecológica e às demais crises inerentes ao sistema capitalista.

No filme, vemos uma política de Estado que pretende liberar, principalmente, as mulheres dos cuidados com idosos. Entretanto, é preciso enfatizar que essa política não existe porque estão pensando no bem-estar dessas mulheres e sim porque querem-nas desimpedidas do trabalho dos cuidados para que estejam ainda mais disponíveis para o capital. A filha da protagonista, por exemplo, é uma mulher que trabalha muito e aparece sempre muito apressada e/ou cansada nas cenas. Todo ser humano, em algum momento da vida, vai precisar de cuidado, especialmente na infância e na terceira idade, assim, é preciso trazer à tona a relevância desse tema e debatê-lo com bastante cuidado.

O envelhecimento da sociedade brasileira leva o Estado a pensar em políticas que objetivem amenizar a crise do cuidado. Em 2024, foi instituída a Política Nacional de Cuidados, que reconhece que os cuidados devem ser compartilhados entre a família, o Estado e a sociedade, priorizando o bem-estar de quem cuida e de quem é cuidado. Essa é a primeira vez em que, no Brasil, se discute politicamente algo que fazia e ainda faz parte do âmbito privado e isso representa um avanço significativo para a sociedade brasileira.

A força mais delicada que o filme traz é mostrar essa mulher idosa transpondo barreiras sexistas e etaristas, navegando para longe dos estereótipos associados aos idosos: frágeis, incapazes e com declínio cognitivo. Vemos uma mulher existindo no mundo, à sua maneira, em busca de sonhos e liberdade; ela aprende e experimenta coisas que, em geral, são associadas aos mais jovens, e isso evidencia a diversidade e subjetividade humana de forma nada clichê e muito bonita.

Os idosos são, frequentemente, alvos de políticas e tratamentos que os consideram homogêneos e despidos de subjetividade e unicidade. Apesar de ser assegurado, pelo Estatuto do Idoso, o atendimento personalizado, o que se vê, geralmente, são elaborações de políticas repletas de preconceitos baseados nesse imaginário irreal que criamos e reproduzimos acerca da existência idosa nessa sociedade tão etarista que vivemos.

*Ana Cristina Mélo é militante da Marcha Mundial das Mulheres e doutoranda em Economia Política Mundial na UFABC.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

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Editado por: Carolina Ferreira

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