Dez mortos em Tumbler Ridge. O nome da pequena cidade na Colúmbia Britânica, com seus parcos 2,3 mil habitantes, agora se junta ao inventário global do trágico. Enquanto o governo canadense ensaia notas de pesar e as autoridades locais buscam, nos escombros subjetivos da agressora, uma “motivação” individualizada, uma evidência se impõe para além do choque, a geografia deixou de operar como promessa de proteção automática.
O massacre em Tumbler Ridge no Canadá não pode ser compreendido apenas como um evento isolado. Ele se insere em uma gramática de violência que circula, se repete e se adapta.
Em abril de 2025, o município de Estação, no norte do Rio Grande do Sul, viveu o seu próprio colapso. Com pouco mais de 6 mil habitantes, a cidade viu a violência atravessar a porta de uma escola onde as faces eram conhecidas e os nomes, familiares. Assim como no caso canadense, o agressor não era um “corpo estranho” vindo da metrópole anônima, era parte do tecido social da pequena comunidade.
O diagnóstico, em ambos os casos, é incômodo, na sociedade de controle, o isolamento geográfico não equivale mais a isolamento simbólico. A subjetividade de crianças e adolescentes já não é formada exclusivamente na praça da matriz, mas também, e de maneira decisiva, em ecossistemas digitais que operam por comparação constante, validação performática e circulação de ressentimentos.
O Brasil no mapa dos ataques
Os dados da minha pesquisa de doutoramento tensionam qualquer tentativa de tratar esses episódios como surtos esporádicos. Entre o massacre de Suzano (2019) e o início de 2026, o Brasil registrou aproximadamente 45 episódios de violência extrema no interior de instituições escolares. São mais de 36 vidas, entre estudantes e professores, sacrificadas nesse intervalo.
Há ainda uma sazonalidade inquietante, dos 45 casos mapeados, 13 ocorreram entre fevereiro e março. O retorno às aulas, momento que simboliza renovação institucional, coincide com um período de maior vulnerabilidade. O que se observa não é uma sucessão de fatalidades desconectadas, mas um fenômeno de dispersão territorial e recorrência temporal que exige leitura estrutural.
O Brasil, nesse sentido, não é exceção nem mera cópia tardia, mas integra um circuito internacional de episódios que compartilham padrões de referência e circulação simbólica. A resposta pública, entretanto, permanece majoritariamente reativa e insuficiente.
A infraestrutura simbólica da violência
Ataques escolares não emergem do vácuo social. Tampouco podem ser reduzidos a uma única variável explicativa. Eles resultam da interseção entre vulnerabilidades psíquicas, acesso a armas, dinâmicas e, de modo decisivo, ambientes digitais que amplificam e organizam essas disposições.
No episódio de Sapopemba (2023), na cidade de São Paulo, investigações apontaram interlocuções internacionais em ambientes virtuais. A mentoria intelectual não estava no pátio vizinho, mas do outro lado do Atlântico, em Portugal. Esse dado não elimina fatores locais, revela, contudo, que a logística da radicalização é frequentemente mediada por plataformas transnacionais.
O que se consolida é um padrão, a logística é global, o alvo, cirurgicamente local. A violência passa a operar como linguagem reconhecível, com signos, estéticas e referências compartilhadas.
Observa-se um efeito de mimetismo, o chamado copycat, que estrutura uma gramática reiterável. Em 2018, ataques em Medianeira (PR) já evocavam padrões estéticos associados ao massacre de Realengo (2011). A iconografia internacional foi progressivamente nacionalizada, formando um arquivo doméstico do horror.
O agressor não busca apenas o extermínio, busca inscrição. Ataca para ser visto, nomeado, arquivado. Em uma cultura orientada pela visibilidade e pelo engajamento, para sujeitos capturados por dinâmicas de comparação incessante e crises profundas de pertencimento, o massacre pode se apresentar como gesto extremo de autoafirmação.
Isso não significa que as redes sociais sejam causa única. Elas funcionam como acelerador, repositório e amplificador de narrativas violentas, uma infraestrutura simbólica que torna o ato pensável e replicável.
A insuficiência da resposta analógica
A resposta pública, no Brasil e em outros países, como no Canadá, tem priorizado medidas de reforço físico: detectores de metal, policiamento ostensivo, protocolos emergenciais. São respostas compreensíveis diante do trauma imediato. Mas revelam o que o filósofo Michel Foucault descreveu como investimento na disciplina dos corpos. O problema, entretanto, deslocou-se para uma esfera algorítmica e relacional. Ao securitizar o pátio, o Estado frequentemente negligência os ambientes digitais onde discursos de ódio, misoginia, ressentimento e culto à violência circulam com pouca fricção.
A crise é também de subjetividade. A escola converte-se em palco onde fracassos individuais, atravessados por humilhação e isolamento, encontram uma saída espetacularizada. Não se trata apenas de vigiar muros, mas de compreender as condições culturais que tornam o massacre inteligível como forma de expressão.
Duas frentes inadiáveis
Romper esse circuito exige enfrentar duas dimensões complementares.
A primeira é a regulação das plataformas digitais. Não como censura de conteúdo, mas como responsabilização sobre modelos de negócio baseados na maximização do engajamento, mesmo quando esse engajamento deriva da radicalização. Enquanto algoritmos continuarem a premiar conteúdos extremos, a economia da atenção seguirá oferecendo visibilidade ao ódio.
A segunda é o deslocamento do investimento exclusivo na vigilância física para políticas públicas de cuidado e prevenção estruturada. Segurança escolar não se garante apenas com barreiras materiais, mas com redes psicossociais capazes de identificar sofrimento, exclusão e radicalização em estágios iniciais.
Isso implica fortalecer equipes multiprofissionais nas escolas, formar educadores para leitura crítica da cultura digital e instituir programas de convivência que reconstruam laços de pertencimento. Sem essa inflexão, permaneceremos reagindo a episódios que já anunciam sua própria possibilidade.
Dez mortos em Tumbler Ridge. O que ocorre em uma vila mineradora no Canadá rapidamente se integra a um repertório global de referências, inclusive, ao interior do Brasil. A questão não é apenas se haverá outro ataque, mas por que continuamos produzindo condições sociais nas quais o massacre aparece, para alguns sujeitos, como gesto possível e inteligível.
Enquanto essa pergunta permanecer sem enfrentamento estrutural, o arquivo continuará aberto e cada nova tragédia acrescentará mais uma entrada à gramática da violência contemporânea.
* Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

