No final de março, o IBGE tornou públicos os novos dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE). O cenário é alarmante: entre adolescentes brasileiros, 43,4% das meninas e 20,5% dos meninos afirmaram ter sentido vontade de se machucar de propósito no último ano. Estamos falando da Geração Z — jovens que cresceram sob o ruído constante de crises sobrepostas: econômicas, sanitárias, ambientais e, sobretudo, digitais.
Essa é uma geração hiperconectada e, paradoxalmente, atravessada por formas intensas de isolamento. Os dados tornam essa condição incontornável: 18,5% desses adolescentes afirmam que a vida não vale a pena ser vivida “na maioria das vezes” ou “sempre”. A tristeza aqui não é episódica, ela adquire densidade de clima quando relatada por 41% das meninas, expondo as cicatrizes dos arquétipos de gênero que, desde cedo, disciplinam e sobrecarregam os corpos femininos.
O corpo como último recurso
Já não se trata apenas de “casos isolados”, mas de uma atmosfera. Diante de uma dor contínua e difusa, a questão central deixa de ser o que esses jovens sentem, para tornar-se: como eles conseguem — ou não — dizer o que sentem? Quando a linguagem falha e as palavras se mostram insuficientes, algo se desloca: o corpo entra em cena. Não como metáfora, mas como recurso.
E, a esse ponto, é necessário esclarecer com precisão: nem toda autolesão é um desejo de morte. Grande parte dessas práticas inscreve-se no campo da autolesão não suicida. São gestos intencionais de ferir o próprio corpo que não visam interromper a vida, mas suportá-la. Confundir essas dimensões — como frequentemente fazem discursos midiáticos ou clínicos — é reduzir o problema a uma caricatura moralizante, que impede qualquer possibilidade de diálogo. Perde-se o essencial: a autolesão, em muitos casos, não expressa uma vontade de desaparecer, mas uma tentativa radical de permanecer.
A escrita na pele
Quando a palavra falha, o corpo escreve. A partir de Michel Foucault, compreendemos o corpo como superfície de inscrição, lugar onde se gravam normas e silêncios. O antropólogo David Le Breton radicaliza essa leitura ao mostrar que, em contextos de fragilidade simbólica, o corpo converte-se no último território disponível de ação. É o que ainda podemos mobilizar quando todo o resto se esvai.
O corte na pele deixa de ser apenas ferida e torna-se gesto. A lâmina adquire um estatuto quase totêmico, capaz de converter a angústia indizível em marca visível. É uma operação silenciosa: transformar o excesso de sentir em limite, a vertigem em contorno. Não se trata apenas de um espetáculo, mas de uma tentativa desesperada de existência.
Pedagogias culturais da dor
Enquanto esses dados eram coletados, minha pesquisa de mestrado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) acompanhava os espaços onde essas práticas proliferam: as redes sociais. Ali, observei o que chamo de “pedagogias culturais da dor” — circuitos nos quais o sofrimento não é apenas vivido, mas mediado, ensinado e, em certa medida, normatizado e incentivado. Os dados da PeNSE não inauguram esse cenário; eles apenas o confirmam em escala populacional.
A autolesão não pode ser reduzida a um sintoma a ser eliminado. Ela precisa ser compreendida como uma linguagem-limite. Um gesto que diz, sem palavras: “há algo em mim que não encontra lugar”.
Além da “epidemia silenciosa”
A expressão “epidemia silenciosa”, tão comum na mídia, precisa de cautela. Não há vírus e tampouco há silêncio absoluto. O que há é uma multiplicidade de sinais que insistimos em não decifrar — não por ausência de voz, mas por nossa incapacidade de escuta. Não estamos diante de sujeitos passivos, mas de jovens que recorrem ao próprio corpo como meio de expressão diante da insuficiência do mundo.
Essa constatação exige que desloquemos o olhar da patologia para a ética. Aos responsáveis, cabe a coragem de uma presença que não julga, mas que suporta o peso da angústia do outro sem tentar silenciá-la com soluções rápidas, aos educadores, o desafio de transformar a escola em um espaço de negociação de sentidos, onde o sofrimento possa ser traduzido em palavras antes de tornar-se cicatriz. No entanto, a responsabilidade não pode ser privatizada no ambiente doméstico ou escolar. É urgente que o Poder Público e a sociedade compreendam que a saúde mental da Geração Z é o sismógrafo de um sistema em colapso. Precisamos de políticas públicas que não se limitem ao gerenciamento de crises ou à medicalização em massa, mas que enfrentem a precariedade da vida e a exaustão digital que roubam desses jovens a própria capacidade de sonhar. Ignorar esses sinais não é apenas uma falha de gestão; é um abandono soberano de toda uma geração.
Afinal, talvez a pergunta precise ser outra. Não mais: “por que esses adolescentes se machucam?”, mas sim: “que mundo estamos produzindo para que o corpo se torne o último recurso de linguagem?”
Entre o desejo de desaparecer e a necessidade de sentir, o que se desenha não é uma rendição à morte, mas uma forma extrema — e silenciosamente eloquente — de insistir na vida.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

