Em um movimento que parece saído de um experimento social em escala global, países começam a interditar aquilo que, até ontem, era celebrado como promessa de conexão irrestrita. Em dezembro de 2025, a Austrália tornou-se o primeiro país a proibir o uso de redes sociais por menores de 16 anos. Agora, em junho de 2026, o Reino Unido anunciou medidas na mesma direção e foi além, propondo um “toque de recolher” digital que promete alcançar menores de 18 anos.
Aquilo que foi vendido como espaço de liberdade passa, progressivamente, a ser tratado como zona de risco. A rede, que prometia conectar pessoas em lugares distintos, revela sua outra face: não apenas liga, mas captura. Não apenas aproxima, mas retém, afinal, não estamos diante de uma simples ferramenta, mas de uma tecnologia que organiza condutas, orienta comportamentos e produz sujeitos. A rede, nesse sentido, opera menos como meio e mais como dispositivo. É como uma rede de pesca e nós, usuários, somos a presa.
No Brasil, a Lei nº 15.211/2025, o chamado ECA Digital, não proíbe, mas regula e determina que contas de menores de 16 anos estejam vinculadas a responsáveis, ampliando os mecanismos de controle parental. Trata-se de uma escolha menos disruptiva, mas não necessariamente mais simples. Como nos lembra Gilles Deleuze ao pensar as sociedades de controle, o poder contemporâneo já não se exerce apenas por interdição, mas por modulação contínua. Controlar não é impedir; é gerir fluxos.
Os riscos aos quais a infância e a adolescência estão expostas são amplamente conhecidos. Plataformas estruturadas em lógica de engajamento operam por meio de dispositivos que exploram a atenção como recurso econômico: rolagem infinita, recompensas intermitentes, algoritmos que aprendem a capturar o olhar. Vivemos sob um regime em que a exploração não se dá mais contra o sujeito, mas através dele. Não se trata apenas de tempo gasto, mas de um modo de afetação contínua que incide sobre ansiedade, autoimagem e percepção de si.
Ainda assim, há algo que escapa à retórica do risco. Sabemos dos efeitos, acumulamos evidências, multiplicamos alertas e, no entanto, permanecemos como usuários assíduos. Há, aqui, menos ignorância do que adesão. Menos falta de informação do que uma forma de captura que opera no nível do desejo. Estamos imersos nessa malha da rede que não apenas nos envolve, mas nos mantém como peixes capturados. O problema, então, não é apenas impedir o acesso, mas compreender por que, uma vez dentro, não conseguimos sair.
Entre a proibição e a captura: os limites da regulação
É nesse ponto que as políticas de proibição encontram seus limites, afinal, bloquear o uso por faixa etária ou transferir a responsabilidade para o controle parental pode produzir efeitos pontuais, mas não enfrenta o núcleo do problema. Ao contrário, abre novas frentes de tensão que expõem a complexidade do fenômeno.
A primeira é técnica e econômica. Mecanismos robustos de verificação de idade contrariam diretamente os interesses das grandes plataformas, cujo modelo de negócio depende da expansão contínua de usuários. Não se trata apenas de regulamentar, mas de confrontar uma arquitetura global de poder informacional, fortemente aparelhada ao atual governo americano, concentrada em poucas corporações que operam à escala planetária.
A segunda é comportamental. A restrição formal pode deslocar, mas não eliminar o acesso. Crianças e adolescentes tendem a contornar bloqueios, migrando para ambientes menos visíveis, como camadas mais opacas da internet, a chamada deep ou dark web, onde a mediação institucional é ainda mais frágil e os riscos se ampliam. Proibir, nesse caso, pode significar empurrar para territórios ainda menos governáveis.
A terceira, e talvez mais decisiva, é formativa. Nenhuma legislação será efetiva sem letramento digital e midiático. E aqui emerge uma contradição incômoda: os adultos responsáveis por mediar esse processo estão igualmente imersos, capturados pelas mesmas dinâmicas que pretendem regular. Como supervisionar aquilo que também nos governa? Como impor limites a uma tecnologia que reorganizou, silenciosamente, nossos próprios modos de atenção, relação e desejo?
No fundo, o debate não é apenas sobre crianças e adolescentes. É sobre uma sociedade que terceirizou sua atenção, fragmentou sua experiência e agora tenta, tardiamente, reconstruir limites para algo que já atravessa sua própria forma de existir.
Regular é necessário. Proibir pode, em certos casos, ser defensável. Mas sem enfrentar a lógica que transforma atenção em mercadoria e presença em dado, toda tentativa de proteção corre o risco de operar apenas na superfície, como um gesto que acalma a consciência sem alterar a estrutura.
Porque o que está em jogo não é apenas o acesso às redes. É a forma como fomos, progressivamente, capturados e moldados por elas.
E talvez essa seja a constatação mais incômoda de todas: não estamos apenas tentando proteger crianças de um ambiente nocivo. Estamos tentando regular um sistema do qual nós mesmos já não conseguimos sair.
A proibição, nesse cenário, revela menos uma solução do que um sintoma. O sintoma de uma sociedade que, tendo se deixado capturar, agora tenta, tardiamente, impor limites àquilo que já a constitui.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

