André Lucas Fernandes

Diretor e fundador do Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (IP.rec). Graduado e mestre em Direito pela UFPE. Doutorando pela Unicap, na linha de tecnologia e direito, com foco em inteligência artificial e conceitos jurídicos. Professor na pós-graduação da UFPE, Cesar School e UPE. Presidente da Comissão de Direito da Tecnologia e da Informação da OAB-Pernambuco.

A boiada dos datacenters e o novo Sertão digital

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Paisagem no município de Conceição do Canindé, região semiárida piauiense
Paisagem no município de Conceição do Canindé, região semiárida piauiense | Crédito: Ricardo Araújo / ASA Brasil

Nunca houve, caro leitor e leitora, a tal da “nuvem”. Sempre foi ferro, minérios e muita infra

Lembro do dia em que, caminhando pelo centro do Recife com uns 12 ou 13 anos, reclamei do calor que me esmagava com seu peso úmido, um troço que nos é bem típico. Minha mãe, professora formada em Letras pela UFPE, me olhou, desacelerando o passo que costumamos ter ao andar pelas ruas, até àquela época lotadas, e disse: “Tem um livro que fala de um Brasil do futuro: nele há bolsões de calor que derrete pessoas e elas precisam usar sombrinhas de ferro e seda preta para se proteger”. O livro era Não verás país nenhum.

A lembrança de Mainha, trazida de um repertório literário, me sinalizava de pronto duas coisas: que “ser algo futuro” não quer dizer “ser bom”; e que aquele abafamento não era apenas meteorológico, mas político, urbano, histórico. Isso se desdobrou em minha vida várias vezes e, agora recente, com a oportunidade de participar da COP 30.

Duas décadas depois, esse calor opressivo toma a forma de infraestrutura tecnológica instiladora e, elemento de uma economia, eu o estudo por estudar inteligência artificial e direitos. Não vem só do sol tal calor, mas de máquinas, de servidores computacionais em galpões herméticos consumindo exorbitâncias de energia e apropriando água como se não houvesse amanhã – são os tais datacenters (ou centro de dados).

Se depender dos governos federal e estaduais, o “bolsão de calor” brasileiro terá fundamento digital, concretizando hoje um passo importante para atingir a distopia de outrora, num ecossistema de datacenters que avança como boiada silenciosa, respaldado por governantes sedentos por atrair investimentos que parecem desenvolvimento, mas são mesmo é reforço de desigualdades.

O Nordeste tornou-se o novo território de sacrifício energético, esse conceito tão doloroso da justiça socioambiental. E aquilo que antes era metáfora literária, as pessoas se protegendo com sombrinhas de metal numa distopia de um país desmantelado, tornou-se a chave para compreender a distopia tecnológica que estamos construindo aqui e no resto do mundo neste tempo presente.

As pesquisas que tenho coordenado no IP.rec já mostram: o modelo brasileiro de implantação de datacenters reproduz, em larga escala, o velho patrimonialismo adaptado à economia digital. Patrimonialismo é quando o Estado é usado para interesses privatísticos, o Estado do Rei, o Estado que é do rei e portanto sobre ele o monarca tudo pode – dispõe, tira, dá, troca.

O que antes era no engenho, na usina, passou a ser do estaleiro do porto e, agora, é “a nuvem” da internet e da inteligência artificial. A narrativa muda, o locus também, mas a estrutura se repete. Os governos estaduais competem oferecendo renúncias fiscais, energia subsidiada, terrenos públicos e silêncio quando o assunto é regular, proteger direitos e induzir inovação real com foco social.

Veja os casos de Eldorado do Sul (no Rio Grande do Sul) e de Caucaia (Ceará). Vendem como futuro aquilo que reforça nossa historicíssima dependência: transformar território em insumo barato, mais commodities para lançar.

Datacenters da Google nos Estados Unidos | Crédito: Alastair P. Wiper/ Google

O datacenter, porém, é um artefato paradoxal: do que nos interessa, ele serve para sustentar a superestrutura informacional global da economia informacional (LLMs, GPTs, apps, filtros, redes sociais e toda essa parafernalha) ao custo de extrair, do chão nordestino, infraestrutura elétrica, hídrica e territorial que não retorna proporcionalmente para sua população.

Por trás do brilho da “economia digital”, há uma operação extrativista que converte o Nordeste em bateria nacional a ser vendida para o estrangeiro, mantendo o mito do progresso enquanto privatiza seus custos socioambientais. Afinal, nós, o Nordeste, que somos o “corredor do ventos”, os produtores de energia solar e eólica (renováveis, mas será que “limpas”?) e tão “precários”, deveríamos agradecer a tais governantes pela iluminada ideia de fazer girar nossa economia. Será?

Se Loyola Brandão imaginou bolsões de calor que se deslocavam pelas cidades derretendo os corpos, hoje vemos bolsões de calor gerados por clusters de processamento, pois os centros de dados são máquinas que precisam ser constantemente resfriadas, demandando água e eletricidade em regiões já vulneráveis. Nunca houve, caro leitor e leitora, a tal da “nuvem”. Sempre foi ferro, minérios e muita infra!

Trata-se de um colapso distribuído: infraestruturas de alta densidade térmica instaladas justamente onde o calor é mais violento. Elas repartem entre poucos os lucros e democratizam os custos. Seguimos a sina de criar territórios de sacrifício ao redor do planeta e do país.

E possuímos uma indústria cínica que, “engabelando” incautos e fazendo gozar os tecnofuturistas-sensacionalistas-solucionistas, vende falácias de “sistemas de circuito fechado” que podem até gastar menos água (e ainda é muita!), mas com certeza gastarão muita energia (esta, por sua vez, produzida com água, olha só!). É só uma de tantas. E não cabe desfiar o rosário – não agora, pelo menos.

No Recife (PE), em Fortaleza (CE), Salvador (BA) e Natal (RN), a presença crescente desses complexos e de planos governamentais que os habilitam, altera silenciosamente a ecologia material das cidades nordestinas já tão castigadas.

Há uma dupla sobreposição de vulnerabilidade: primeiro a nível climático, porque a região já é uma das mais afetadas pelo aquecimento, quando não estiolada, inundada, invadida pelo oceano; segundo na infraestrutura, porque o modelo elétrico nacional prioriza disponibilidade para grandes usuários, prejudicando a população, normalmente já vulnerável por um histórico de exploração, uma vizinhança periférica, em territórios indígenas ou quilombolas, etc etc etc.

E que nós fiquemos gratos, pois o que ocorre em Brasília é um pedido faminto pela dilapidação da parca publicidade deste sistema e sua conversão total em privado.

Em 2008 a situação da comunidade quilombola do Cumbe se agravou com a chegada da usina eólica ‘Bons Ventos’, hoje controlada sobre o domínio da CPFL. O empreendimento foi instalado sem a consulta prévia, sem consultar a comunidade. | Crédito: Foto: VPAAPS e Fiocruz Ceará

As pesquisas críticas de vários especialistas tocam num ponto decisivo: o datacenter não é neutro, não é “nuvem”. Afinal, já está na hora de destruirmos essa metáfora nada inocente de que a tecnologia não tem substrato material. Nunca foi. Nunca será. Um centro de dados é território, é matéria, é energia e calor. Ele disputa lugar com a vida e nos entrega uma vida simulada, em jardins murados de aplicações frívolas em sua maioria.

Como qualquer tecnologia na história brasileira, sua implantação se orienta por uma geopolítica interna que naturaliza assimetrias regionais. Assim, enquanto governos celebram anúncios de big techs como se fossem passaportes para o futuro, o Nordeste recebe o lado duro do pacto: o impacto ambiental, o rearranjo da matriz energética, a pressão hídrica e o soterramento de políticas urbanas que deveriam priorizar habitação, mobilidade e adaptação climática e não a estabilidade térmica de galpões de aço.

O calor que me incomodou naquele dia, no centro do Recife, tornou-se metáfora para entender o Brasil. Loyola Brandão antecipou um país onde sobreviver exigia sombrinhas de metal, em que foram criados museus de água dos diferentes rios para admiração, mas nunca fruição, pois todos eles haviam secado.

A boiada dos datacenters não é apenas tecnológica; é histórica e política. Ela avança porque encontra, no Nordeste, a combinação perfeita entre carência política e abundância natural, além de um bom punhado de escassez.

Mas não só disso nós somos compostos. Em Pernambuco somos o tal “maligno vapor” que incomodava o colonizador – e eu digo, revivendo, que somos sempre uma inflamação. E se não enfrentarmos essa equação, repetiremos no século 21 a velha sina imposta por jogos de metrópoles: transformar nossa paisagem, nossa energia e nosso futuro em plataforma para o crescimento alheio.

Surpreende, portanto, que governantes que se dizem democráticos não entendam isso e só estejam pensando em um dinheiro de uma economia especulativa, que nada deixa ao território e não resolve problemas sociais.

Importante mencionar, para não dizerem que me omiti, que tais aparatos são demandas de um setor de inteligência artificial cujas aplicações, em sua maioria, são de modelos despropositadamente grandes e cujo uso é disfuncional ou mero entretenimento, quando a pesquisa científica comprova que modelos menores resolveriam problemas reais.

Tais frivolidades vão das consultas desabusadas ao ChatGPT para questões que o sujeito deveria ter a capacidade de olhar, refletir e decidir, chegando até aos casos delirantes de namorados(as) digitais e de crianças que, enredadas num diálogo simulado, chegam ao extremo do desamparo, numa sociedade doente, e acabam com a própria vida. O frívolo se entranha em nós como tragédia.

O desafio é romper a distopia anunciada. Fazer do calor não um destino, mas um diagnóstico e de seu caráter inflamatório, um combustível, quiçá melhor, um catalisador que opera e nunca se deteriora. E, a partir dele, reconstruir o debate público, regulatório e territorial para que o Nordeste deixe de ser sacrifício e se torne sujeito. Um sujeito técnico, político, climático, popular e, acima de tudo, humano, a decidir seu próprio futuro.

Editado por: Vinicius Sobreira

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