Fiz um gesto obsceno para uma câmera no meio do Carnaval. Não foi um rompante, desses que se explicam pela cerveja morna e pela hora avançada. Foi um gesto pensado, ainda que executado com a precisão desajeitada igual um bom recifense que sabe muito, mas talvez não dance o melhor frevo, pois é difícil. E talvez por isso mesmo tenha sido tão adequado: um gesto imperfeito diante de uma máquina que pretende a perfeição da captura. Um ato de inflamação, nesta cidade inflamada.
Há poucos anos, o Recife começou a ser povoado por objetos que não pertencem à sua paisagem moral e libertária. São ciclopes nanicos, varetas de ferro em altura acima da média da população com duas ou quatro câmeras apontadas ao entorno público, coletando imagem (e som, por vezes) ao longo de 24 horas, sete dias da semana.
São estruturas de vigilância que se anunciam com a “candura técnica” de quem promete apenas “monitorar”, “prevenir”, “auxiliar”. Palavras limpas, iluminadas, quase higiênicas. Aparecem “naturalizáveis” como a luz do dia, como se a luz resolvesse tudo.
É curioso como ainda acreditamos nisso: que a verdade mora na iluminação plena. Hans Blumenberg, um filósofo alemão ainda obscuro, mas importante, desconfiava profundamente dessa metáfora. A ideia de uma verdade nua, exposta à luz, não é um ponto de chegada, mas uma construção histórica, carregada de custos pagos por todos nós. A exposição não revela apenas, ela também violenta. A nudez da verdade, dizia ele, é menos um estado final do conhecimento e mais uma condição provisória do homem.
E daí recordo que toda frase de efeito tem seu equivalente oposto. Portanto, é possível dizer que toda luz intensa ao tempo que revela, também cega e, mais ainda, projeta sombra tão intensa quanto.
Talvez por isso o Recife sempre tenha preferido a meia-luz. Não a escuridão, mas esse regime intermediário no qual as coisas aparecem sem se entregar por inteiro, numa cidade meio claudicante, mas sempre inteira.
A cidade, como se sabe, sempre foi dada a excessos de sinceridade. Mas sua sociabilidade sempre dependeu de pequenos véus, de ambiguidades bem cultivadas, de uma certa elegância em não dizer tudo para que na hora da explosão tudo pudesse ser dito. Havia nisso uma forma de convivência e até de inteligência.
Tobias Barreto, por exemplo, era um sincericida em seus textos, mas aqui e ali evitava chamar a Coroa pelo seu nome – não precisava. José Mariano e Dona Olegária ocultavam escravizados, confabulando sua liberdade e desdobrando os planos do Cupim. Cito-os apenas para me valer da história contra a tecnologia, este monstro a-histórico.
Recife, cidade só ossos, mas inteira por si, atravessada pelo Cão Sem Plumas. Se tira a vida do rio que lhe atravessa em principalidade, Recife então é uma cidade miséria, uma cidade fome, a cidade mangue e caranguejo. Mas essa é apenas parte da história, a história que a “verdade enquanto luz e transparência” quer nos fazer acreditar.
Da aparente podridão também há, insistente, a vida oriunda daquele solo malcheiroso que, hoje se sabe, sustenta todo o ecossistema da costa marinha. Toda nossa lama é também solo fértil. E toda nossa luz só funciona quando não tão evidente, quando amalgamada e reconhecida na sua contraparte sombra. O Carnaval é a expressão máxima desse sentido.
Não é apenas festa. É um sistema de códigos emergente da vida mesma. Um pacto coletivo de suspensão parcial da identidade, para – pela contradição – reencontrá-la mais ali numa encruzilhada. Durante alguns dias, o nome próprio se torna irrelevante, a profissão se dissolve, a biografia perde densidade, exsurge uma performance e a máscara que a sustenta. Não se trata de esconder quem se é, mas de experimentar outras possibilidades de ser, sem o peso de uma vigilância constante.
E eis que, no meio disso, erguem-se as câmeras. Não como exceção, mas como método, sistemático, implacável, panóptico trezentos e sessenta graus iluminado. Um olho assim, tão imperioso, já não sabe o que é o “olhar”, apenas entende de um processo contínuo de coleta e armazenamento.
Não há registro: dos cruzamentos, do epifânico humano. Toda câmera no ambiente público é uma realidade reduzida a dados. Operam numa lógica em que toda presença deve ser convertida em informação, todo rosto em padrão, toda circulação em fluxo analisável e tudo isso como caminhos, em etapas algorítmicas, para o controle. E ponham na mesa, de logo, a promessa de segurança – uma palavra tão sensível, que fala sobre tantas dores e cujos embates não me cabe aqui repetir ou explicar.
O problema é que a segurança, nesse caso, não é neutra. Ela vem acompanhada de um modelo de mundo. Um modelo do “tudo deve ser visível”, tudo deve ser rastreável, tudo deve ser potencialmente previsível. Um modelo que desconfia do imprevisto como se ele fosse, por definição, ameaça. E em que “tudo” é o tudo que um recorte do mundo quer: nada é o que não é branco, não é normalizado, ou é desviante.
O Carnaval, por sua vez, depende exatamente do contrário. Da saída do povo, do rasgo no manto de invisibilidade, com seus ocultados agora recobertos com vestes fantásticas, insurgentes! Ele é a instituição do imprevisto. Um espaço onde a ordem cotidiana é levemente (ou vastamente) desorganizada para que a vida possa respirar de outro modo.
Não se trata de caos absoluto – há regras, há ritmos, há tradições a serem respeitadas, cultivadas. Toda orquestra de frevo, no meio da multidão, manifesta uma pulsação, um ritmo para se fazer caber, para vencer uma cidade maltratada, de urbanismo tido como “perfumaria”. Não é negar a entropia, é ensaiar dentro dela. Um desvio temporário que permite à cidade se reconhecer fora de si mesma.
E enquanto o poder público instaura controle e dissociação identitária, um bloco telúrico, que homenageia a si mesmo através de um-por-todos, e a multidão que ele carrega invade ruas abandonadas, como a enfraquecida rua da Imperatriz, revirando toda sorte de fantasma dessa cidade velha e o lixo não coletado – sendo que este último era parte de um dever. Isso se aplica a Recife, se aplica a Olinda que de tão separadas na verdade recusam a realidade de serem uma coisa só: uma grande dependência.
É nesse ponto que a vigilância se torna não apenas intrusiva, mas incompatível.
Porque ela não tolera o desvio. Ela precisa que tudo permaneça legível. E, para isso, transforma a multidão – que deveria ser difusa, meio luz-meio sombra, mas nunca morna, sempre viva – em uma superfície de leitura contínua. Cada rosto é um dado. Cada movimento, uma variável. Cada encontro, uma correlação possível. E tudo isso voltado para controlar, ordenar, no sentido mais mesquinho, para punir e violar direitos.
Há algo de profundamente melancólico nisso. Não pela tecnologia em si, já que máquinas sempre fizeram parte da cidade e tecnologias estão aí muito antes delas, é importante recordar, mas pelo imaginário que a sustenta. A crença de que a transparência absoluta é desejável. De que a exposição integral é sinônimo de verdade. De que viver bem é viver sob luz constante. Ai do corpo que ignora o escuro para dormir!
Blumenberg lembraria que essa obsessão é, em si, um mito. A verdade nunca esteve simplesmente ali, esperando ser desvelada como um corpo sob um pano. Sempre houve mediações, metáforas, filtros. Sempre houve, também, o direito de não dizer, de não aparecer, de não ser totalmente conhecido. O segredo é tão importante, que o direito o reconhece e resguarda em múltiplas dimensões – o segredo é um dos braços que sustenta a liberdade – ele está ali, também à meia luz, na Constituição.
O Carnaval, com suas máscaras, sabe disso intuitivamente. Talvez por isso incomode tanto quem precisa ver tudo.
As câmeras, com seus olhos fixos e indiferentes, não entendem o riso que não se explica, o gesto que não se repete, o encontro que não deixa registro nos fluxos de desordem coordenada da multidão. Para elas, tudo isso é ruído, um algo a ser reduzido, corrigido, integrado ao sistema. E, aos poucos, vamos nos habituando a essa redução. Vamos aceitando que a cidade seja lida por dispositivos que não participam dela.
Foi nesse contexto que levantei a mão, dedo em riste! Um protesto idiota, reconheço. Será que alguém viu? Será que desvirtuou um observador apático e murcho, entronizado como rei a partir de uma tecnologia capenga de pulsão de vida? Será que, por isso, ele ou ela, riu? Não sei.
O gesto obsceno não foi dirigido à lente em si, menos ainda ao humano observador, que nessa triste roda também é vítima, mas ao que ela representa: essa pedagogia silenciosa da visibilidade total que pretende nos por como linhas de cadastro apenas, sequer lirismo, quanto mais libertação! Uma pedagogia que nos ensina, pouco a pouco, que existir é ser capturado, que circular é ser registrado em condição e autorização e que só é possível participar se formos convertidos em mais um dado.
Meu gesto foi, no fundo, um pequeno desacordo. Foi meio infantil, minúsculo, foi bem ridículo e tudo isso para se mostrar contra as visões de mundo que sustentam uma cidade vigiada, de uma institucionalidade estéril: mais treinada para falar no Instagram do que para falar com o povo, na cara e olho do povo.
Foi uma recusa momentânea a essa lógica. Um lembrete de que há experiências que não se deixam reduzir sem perda. Que há espaços, como o Carnaval, que dependem de uma certa luz difusa, sob a qual fazemos votos, para (r)existir plenamente. E que, sem isso, a cidade pode até continuar funcionando. Mas deixa, discretamente, de viver ante uma tecnocracia que quer nos tirar tudo e nos sentenciar culpados.

