De 4 a 7 de dezembro, o Parque Municipal no coração de Belo Horizonte volta a pulsar como território de memória, economia e ancestralidade negra. O Festival Canjerê chega à quinta edição com a celebração da memória, cultura e luta dos povos e comunidades quilombolas e tradicionais negras.
O Canjerê nasceu como resposta e como afirmação. Resposta a um estado que, por séculos, tratou seus povos tradicionais como entrave ao desenvolvimento e permitiu que a mineração predatória comandasse o destino de cidades e vidas. E a afirmação de que existe outro modo de produzir riqueza, tempo, cuidado e vida. Belo horizonte, vai receber nesses dias uma celebração da forma de produção que os quilombos praticam. Um modelo de desenvolvimento sustentável, coletivo, espiritual e enraizado na relação com a terra.
O festival reúne feira quilombola, cortejos, guardas de Congo, Moçambique e Catopé, apresentações culturais, oficinas, rodas de conversa e práticas de mídia ativismo. Tudo organizado a partir dos saberes ancestrais que mantêm vivos os territórios negros de Minas.
Vivemos um momento em que comunidades quilombolas sofrem pressão crescente da mineração e de outras formas de expropriação. Por isso, o tema do ano “Quilombos contra os impactos da mineração e o direito ao bem viver” se afirma como convocação coletiva. A defesa da terra passa por coragem política e por memória viva.
A feira quilombola que ocupa o Parque Municipal oferece a imagem mais concreta da economia preta em movimento. Ali chegam os excedentes da produção agrícola, artesanal e cultural. Mas chegam também autonomia, dignidade e os laços comunitários. No Canjerê, o que o povo preto mostra é política em sua forma mais firme. Os quilombos possuem calendário próprio, tecnologias sociais próprias e modos próprios de produzir vida.
3.500 irmandades em Minas
Outro eixo essencial do festival é a presença das irmandades e suas guardas. Minas abriga aproximadamente 3.500 irmandades e muitas cidades contam com dezenas de guardas ativas. É provavelmente a maior rede popular de organização cultural e espiritual do país e, ainda assim, uma das mais invisibilizadas pelas políticas públicas. O Canjerê faz o movimento oposto. Traz tambores, estandartes, rezas e cortejos para o centro da capital e desloca simbolicamente a cidade para a cadência do Congado.
Ao longo dos quatro dias, o festival costura festa e formação. Junta Ministério da Igualdade Racial, MEC, Ministério do Desenvolvimento Agrário, INCRA, CONAQ, FEAM, Movimento pela Soberania Popular na Mineração, universidades e lideranças quilombolas. O objetivo é debater direito à terra, saúde da população negra, educação antirracista, gestão territorial, cultura e reparação histórica. Enquanto isso, o Parque vibra com Pereira da Viola, blocos, grupos quilombolas e artistas populares.
Esse encontro acontece porque há continuidade de esforço entre movimentos, coletivos, instituições e mandato comprometido com os povos tradicionais. oferecemos, através de emenda parlamentar, suporte capaz de garantir alguma estrutura, deslocamentos, oficinas e condições dignas para a presença das comunidades. Esse apoio integra o compromisso mais amplo de fortalecer o ecossistema político, cultural e territorial dos quilombos de Minas.
No fim, o Canjerê entrega uma disputa de futuro percebido na reorganização do espaço simbólico de Belo Horizonte ao colocar no centro aqueles que historicamente foram empurrados para as margens. Durante os dias de celebração, a cidade é obrigada a reconhecer que os quilombos têm projeto de país e este projeto continua vivo, vibrante e inegociável.
Andreia de Jesus (PT) é educadora popular, advogada, mãe solo e deputada estadual em Minas Gerais
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