Quando uma mulher é assassinada, a pergunta que costuma aparecer é: o que deu errado?
Essa é a pergunta errada.
O feminicídio não é uma falha do sistema. Ele é parte do funcionamento de uma sociedade que aprendeu a regular o comportamento das mulheres pelo medo.
No Brasil, quatro mulheres são assassinadas por dia. Não por acaso, somos um dos países com maiores taxas de feminicídio do mundo. E não por acaso, também, as maiores vítimas são mulheres negras. O que esses números revelam não é um acúmulo de tragédias individuais, mas a existência de um padrão. Um método. Um recado.
Na noite de Natal, foi confirmada a morte de Tainara, após 25 dias de internação decorrentes das agressões cometidas por seu ex-companheiro. Durante quase um mês, ela lutou para sobreviver. Sua morte não foi um “caso extremo”. Foi a execução final de uma lógica conhecida: a de que mulheres que rompem, recusam, desobedecem ou tentam seguir vivendo pagam um preço.
O feminicídio é uma mensagem.
Ele diz: não saia.
Ele diz: não termine.
Ele diz: não confronte.
Ele diz: não seja livre.
Por isso, quando uma mulher é assassinada, o medo se espalha entre todas nós. Não é exagero, é racionalidade. Sabemos que aquilo não aconteceu “só com ela”. A violência é pública, ainda que o crime seja tratado como privado. O corpo violado de uma mulher funciona como aviso coletivo.
É assim que o patriarcado se atualiza.
Nos últimos anos, essa lógica ganhou novas roupagens. A misoginia deixou de ser apenas prática cotidiana e passou a ser discurso organizado. Comunidades digitais, fóruns e perfis misóginos produzem uma pedagogia do ódio: ensinam que mulheres são manipuladoras, descartáveis e inimigas. Que devem ser punidas quando frustram expectativas masculinas.
Isso não é radicalização isolada. É produção de sentido. É construção de consentimento para a violência.
Quando uma sociedade tolera que mulheres sejam desumanizadas, ela prepara o terreno para que seus assassinatos sejam relativizados. Quando um homem mata, ainda se busca
explicação psicológica, emocional, circunstancial. Quando uma mulher morre, quase sempre se pergunta o que ela fez antes.
O Estado, por sua vez, costuma chegar tarde. Age depois do corpo. Depois do luto. Depois da estatística. E mesmo assim, muitas vezes, de forma burocrática, fragmentada e insuficiente.
Não haverá enfrentamento real ao feminicídio sem tocar no que o sustenta: a desigualdade econômica, a divisão sexual do trabalho, a naturalização da violência doméstica, o racismo que torna algumas vidas menos choradas do que outras.
Muitas mulheres não denunciam porque dependem financeiramente de seus agressores. Outras denunciam e não são protegidas. Outras sequer conseguem acessar políticas públicas mínimas, como creches, trabalho, renda, moradia. Autonomia não é discurso, é condição material para sobreviver.
Como deputada estadual, mulher preta e periférica, sei que nossa presença nos espaços de poder não é simbólica. É disputa. É enfrentamento direto a uma estrutura que sempre tentou nos manter fora, silenciosas ou mortas.
Em Minas Gerais, avançamos em legislações que afirmam a autonomia das mulheres, como o direito à laqueadura sem autorização do cônjuge. Pode parecer pouco, mas não é. O controle sobre o corpo sempre foi uma das chaves do controle sobre nossas vidas.
Para 2026, não queremos apenas estatísticas menores. Queremos uma ruptura. Queremos políticas que atuem antes do luto. Queremos que o Estado pare de administrar cadáveres e comece a proteger vidas.
O feminicídio não é desvio.
É recado.
E a nossa resposta precisa ser coletiva, política e inegociável, não aceitaremos mais morrer para que outros se sintam no controle.
Para 2026, queremos viver.
Por Tainara.
Por todas nós.
Andreia de Jesus (PT) é educadora popular, advogada, mãe solo e deputada estadual em Minas Gerais
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Leia outros artigos de Andreia de Jesus em sua coluna no Brasil de Fato.
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Este é um artigo de opinião, a visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato

