Andréia de Jesus

Andreia de Jesus (PT) é educadora popular, advogada, mãe solo e deputada estadual em Minas Gerais.

Marlene Silva e Chico Rei: a avenida do samba não é neutra, é preta

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Andréia de Jesus é deputada estadual pelo PT em Minas Gerais
Andréia de Jesus é deputada estadual pelo PT em Minas Gerais | Crédito: Arquivo pessoal

Escola de samba trouxe debate urgente: o direito à cidade

Neste carnaval, duas escolas de samba transformaram a Avenida do Samba, em Belo Horizonte, em palco de afirmação política do povo preto.  A Unidos dos Guaranys (campeã do Carnaval 2026) e a Triunfo Barroco colocaram no centro da avenida duas referências fundamentais da história do nosso povo: Marlene Silva e Chico Rei.

O corpo negro como potência

Marlene Silva, cria do bairro Concórdia, foi pioneira da dança afro em Minas Gerais. Bailarina, coreógrafa, professora e pesquisadora, dedicou mais de quatro décadas à valorização da cultura afro-brasileira, enfrentando o racismo estrutural que sempre tentou restringir a presença negra aos bastidores.

Ela levou para os palcos os ritmos, os gestos e a espiritualidade de matriz africana, formando gerações e ampliando a presença negra na cena cultural mineira. Seu legado é artístico, mas também político.

Ao homenageá-la, a Unidos dos Guaranys fez mais do que celebrar uma trajetória. Defendeu o direito do povo preto ocupar todos os espaços, inclusive aqueles que historicamente nos foram negados.

Direito à cidade

A escola de samba ainda trouxe para a avenida um debate urgente: o direito à cidade.

Eu nasci no Concórdia e sei que cada rua carrega a memória da comunidade. Hoje, o bairro está entre as áreas incluídas em um projeto de alteração do plano diretor para verticalização da região central de Belo Horizonte, com incentivos urbanísticos e fiscais que estimulam novas construções e maior adensamento.

A justificativa oficial fala em repovoamento e dinamização econômica. Mas quem vive no território sabe que esses processos vem acompanhados de valorização imobiliária acelerada, aumento do custo de vida e pressão sobre quem sempre morou ali.

O que está em jogo é quem pode continuar vivendo onde sempre construiu história. Quando a Unidos dos Guaranys leva esse debate para a avenida, afirma que cultura e território caminham juntos. Que não existe política cultural sem justiça urbana. Que bairro negro não é espaço vazio à espera de investimento.

Triunfo Barroco: liberdade construída coletivamente

Segundo a tradição oral, Chico Rei foi rei no Congo, capturado e trazido como escravizado para Vila Rica. Trabalhando nas minas, comprou sua liberdade e, depois, adquiriu a Mina da Encardideira. Com o ouro extraído, libertou outros homens e mulheres negros.

Chico Rei construiu liberdade coletiva. A ele também se associa a construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e o fortalecimento do congado, expressões religiosas e culturais que mantêm viva a ancestralidade africana em Minas Gerais.

Mesmo sendo uma narrativa preservada pela tradição oral, seu significado político é incontestável: organização, estratégia, solidariedade e resistência negra em meio à violência do sistema escravista.

Ao levar Chico Rei para a avenida, a Triunfo Barroco reafirma que o povo preto nunca foi apenas objeto da história. Sempre foi sujeito e protagonista.

O carnaval é um espaço de enfrentamento político. Quando a avenida celebra Marlene Silva, enfrenta o apagamento das mulheres negras na cultura. Quando exalta Chico Rei, confronta a narrativa colonial que insiste em reduzir nossa história à escravidão. Quando denuncia a especulação e a ameaça aos territórios populares, afirma que a cidade também é questão racial.

A avenida não é neutra, é preta. E enquanto houver samba comprometido com o protagonismo do nosso povo, nossa história continuará sendo contada com o devido valor que tem.

Andreia de Jesus (PT) é educadora popular, advogada, mãe solo e deputada estadual em Minas Gerais

Leia outros artigos de Andreia de Jesus em sua coluna no Brasil de Fato.

Este é um artigo de opinião, a visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato

Editado por: Elis Almeida

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