Neste carnaval, duas escolas de samba transformaram a Avenida do Samba, em Belo Horizonte, em palco de afirmação política do povo preto. A Unidos dos Guaranys (campeã do Carnaval 2026) e a Triunfo Barroco colocaram no centro da avenida duas referências fundamentais da história do nosso povo: Marlene Silva e Chico Rei.
O corpo negro como potência
Marlene Silva, cria do bairro Concórdia, foi pioneira da dança afro em Minas Gerais. Bailarina, coreógrafa, professora e pesquisadora, dedicou mais de quatro décadas à valorização da cultura afro-brasileira, enfrentando o racismo estrutural que sempre tentou restringir a presença negra aos bastidores.
Ela levou para os palcos os ritmos, os gestos e a espiritualidade de matriz africana, formando gerações e ampliando a presença negra na cena cultural mineira. Seu legado é artístico, mas também político.
Ao homenageá-la, a Unidos dos Guaranys fez mais do que celebrar uma trajetória. Defendeu o direito do povo preto ocupar todos os espaços, inclusive aqueles que historicamente nos foram negados.
Direito à cidade
A escola de samba ainda trouxe para a avenida um debate urgente: o direito à cidade.
Eu nasci no Concórdia e sei que cada rua carrega a memória da comunidade. Hoje, o bairro está entre as áreas incluídas em um projeto de alteração do plano diretor para verticalização da região central de Belo Horizonte, com incentivos urbanísticos e fiscais que estimulam novas construções e maior adensamento.
A justificativa oficial fala em repovoamento e dinamização econômica. Mas quem vive no território sabe que esses processos vem acompanhados de valorização imobiliária acelerada, aumento do custo de vida e pressão sobre quem sempre morou ali.
O que está em jogo é quem pode continuar vivendo onde sempre construiu história. Quando a Unidos dos Guaranys leva esse debate para a avenida, afirma que cultura e território caminham juntos. Que não existe política cultural sem justiça urbana. Que bairro negro não é espaço vazio à espera de investimento.
Triunfo Barroco: liberdade construída coletivamente
Segundo a tradição oral, Chico Rei foi rei no Congo, capturado e trazido como escravizado para Vila Rica. Trabalhando nas minas, comprou sua liberdade e, depois, adquiriu a Mina da Encardideira. Com o ouro extraído, libertou outros homens e mulheres negros.
Chico Rei construiu liberdade coletiva. A ele também se associa a construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e o fortalecimento do congado, expressões religiosas e culturais que mantêm viva a ancestralidade africana em Minas Gerais.
Mesmo sendo uma narrativa preservada pela tradição oral, seu significado político é incontestável: organização, estratégia, solidariedade e resistência negra em meio à violência do sistema escravista.
Ao levar Chico Rei para a avenida, a Triunfo Barroco reafirma que o povo preto nunca foi apenas objeto da história. Sempre foi sujeito e protagonista.
O carnaval é um espaço de enfrentamento político. Quando a avenida celebra Marlene Silva, enfrenta o apagamento das mulheres negras na cultura. Quando exalta Chico Rei, confronta a narrativa colonial que insiste em reduzir nossa história à escravidão. Quando denuncia a especulação e a ameaça aos territórios populares, afirma que a cidade também é questão racial.
A avenida não é neutra, é preta. E enquanto houver samba comprometido com o protagonismo do nosso povo, nossa história continuará sendo contada com o devido valor que tem.
Andreia de Jesus (PT) é educadora popular, advogada, mãe solo e deputada estadual em Minas Gerais
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Leia outros artigos de Andreia de Jesus em sua coluna no Brasil de Fato.
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