Andréia de Jesus

Andreia de Jesus (PT) é educadora popular, advogada, mãe solo e deputada estadual em Minas Gerais.

A potência política das cozinhas solidárias 

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Militantes do MST preparam refeições para pessoas afetadas pelo tornado no Paraná
As Cozinhas Solidárias precisam ser reconhecidas pelo que realmente são: uma das mais importantes tecnologias populares de combate à fome e construção da soberania alimentar do Brasil | Crédito: Thiarles França/ MST-PR

Cozinhas solidárias são força coletiva organizada

Quando uma mulher transforma a banana que colheu em doce, farinha ou bolo para complementar a renda da família, não está apenas produzindo alimento, está também fortalecendo sua autonomia. Quando uma cozinha comunitária serve uma refeição para quem enfrenta a fome, está sustentando a vida, fortalecendo vínculos e reconstruindo dignidades que um país desigual insiste em negar.

Por isso, as Cozinhas Solidárias precisam ser reconhecidas pelo que realmente são: uma das mais importantes tecnologias populares de combate à fome e construção da soberania alimentar do Brasil. Não nasceram dos gabinetes. Foram erguidas pelas mãos de mulheres, majoritariamente negras, das periferias, das vilas, dos assentamentos da Reforma Agrária e dos territórios populares que aprenderam, historicamente, a sobreviver quando o Estado se ausenta.

Hoje, felizmente, essa experiência construída na luta começa a ser reconhecida como política pública nacional. O Programa Cozinha Solidária foi instituído pela Lei 14.628/2023 e regulamentado pelo governo federal em 2024, reconhecendo essas iniciativas como instrumentos fundamentais no enfrentamento da insegurança alimentar. 

Antes da lei existir, as cozinhas já estavam lá. Durante a pandemia, nas enchentes, nas crises econômicas e nos momentos mais duros da vida do povo brasileiro, foram elas que garantiram comida no prato quando muitos viravam o rosto para a fome.

É nesse espírito que estamos apoiando, por meio de emenda parlamentar, um projeto de fortalecimento das cozinhas solidárias que reúne mulheres dos assentamentos da Reforma Agrária, das vilas e das periferias para trocar saberes, gerar renda e construir autonomia econômica. Mulheres que carregam conhecimentos ancestrais sobre cultivo, preparo e conservação dos alimentos e que agora ampliam suas possibilidades de produção e comercialização.

O ponto de partida é olhar para aquilo que já existe nos territórios. A agricultura familiar produz alimentos de qualidade, movimenta economias locais e responde por parte significativa do abastecimento alimentar brasileiro. Mas ainda enfrenta enormes obstáculos para agregar valor à sua produção e garantir renda digna para quem trabalha na terra.

Cozinhas produzem pertencimento 

Nas oficinas, os alimentos cultivados nos assentamentos ganham novas formas. Produtos que antes tinham baixa durabilidade podem ser transformados, reduzindo desperdícios e ampliando oportunidades de comercialização. Ao mesmo tempo, as participantes aprendem técnicas de culinária vegana e alimentação saudável, inserindo-se em mercados em expansão e criando novas perspectivas de trabalho e geração de renda.

As cozinhas solidárias são espaços onde as mulheres compartilham experiências, fortalecem redes de apoio e descobrem que o conhecimento que carregam tem valor econômico, social e político. 

Cozinhas solidárias transformam o trabalho invisibilizado do cuidado em força coletiva organizada. Há quem enxergue a cozinha apenas como um espaço doméstico. Nós a enxergamos como território de resistência. A memória encontra o afeto, a solidariedade se transforma em organização popular. É ali que mulheres historicamente excluídas das decisões econômicas constroem caminhos concretos de autonomia.

As cozinhas solidárias convergem agricultura familiar, reforma agrária, economia popular e solidária, o combate ao desperdício e o direito humano à alimentação adequada. Fortalecer experiências como essas é uma decisão política de potencializar o trabalho realizado por mulheres negras, periféricas e camponesas que seguem cultivando alimento, solidariedade e futuro.

Andreia de Jesus (PT) é educadora popular, advogada, mãe solo e deputada estadual em Minas Gerais

Leia outros artigos de Andreia de Jesus em sua coluna no Brasil de Fato.

Este é um artigo de opinião, a visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato

Editado por: Elis Almeida

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