Há um equívoco em curso após Eduardo Bolsonaro urdir, implorar e obter uma guerra tarifária contra seu país desfechada pelo governo de Donald Trump. Seu nome ajustou-se como uma luva à palavra “traidor”, logo seguido pelas referências clássicas de traição nacional no Brasil: Joaquim Silvério dos Reis e Domingos Fernandes Calabar. Uma comparação absolutamente injusta com qualquer um dos dois.
Comecemos com o primeiro deles. Joaquim Silvério dos Reis Montenegro Leiria Grutes (1756-1819) delatou os inconfidentes de Minas Gerais mas não traiu a sua pátria. A começar pelo simples fato de que era português.
Nascido em Monte Real, viera à colônia fazer fortuna. Militar, fazendeiro e dono de mineração, não era flor que se cheirasse, tinha dívidas fiscais e entregou seus companheiros em troca de promessas de perdão pela coroa. Pode-se argumentar até que, se não delatasse aqueles que conspiravam ante a extorsão praticada por Lisboa, estaria, aí sim, traindo o seu país.
Domingos Fernandes Calabar (1609-1635) tem origem diferente mas, também aqui, não se pode dizer que “traiu a sua pátria”. No enfrentamento entre portugueses e holandeses, aliou-se aos primeiros mas acabou trocando de lado. O mulato ou mameluco Calabar nasceu e morreu em Porto Calvo, capitania de Pernambuco. Não era português e não apunhalou a sua pátria. E o Brasil — território colonial em disputa por duas potências marítimas — não existia como estado independente. Logo, Calabar não traiu o que não existia para ser traído.
O caso do deputado federal Eduardo Nantes Bolsonaro, filiado ao PL e eleito por São Paulo, é de outra natureza. Natural de Resende (RJ), onde nasceu em 1984, é cidadão do Brasil, terra que existe como nação há 203 anos.
Ausente da Câmara dos Deputados desde março, mudou-se para os Estados Unidos onde dá expediente como uma figura inovadora no âmbito diplomático: tornou-se um antiembaixador de seu país. É um traidor em tempo integral e com salário pago pela pátria que está traindo.
Fazendo da omissão um modo alternativo de conivência com o crime, a presidência da Câmara dos Deputados faz que não vê o escárnio que financia, fabricado pelo maior traidor da história do Brasil.
Conta-se que a política gosta da traição mas odeia os traidores. A literatura pode odiar ambos. Dante Alighieri, por exemplo. Em A Divina Comédia, ele percorre Inferno, Purgatório e Paraíso ciceroneado pelo seu mentor Virgílio.
No Nono Círculo do Inferno, o poeta encontrou os traidores. Ali está um imenso lago congelado, o Cócito, formado pelas lágrimas dos malditos, onde os pecadores jazem imersos até o pescoço. Ali, no gelo absoluto, nada mais resta do humano e da humanidade. Dante relata que, comandando a cena está Lúcifer, que traiu Deus, e mastiga os pedaços de Brutus e Cássio, que trairam César, e de Judas, que traiu Jesus Cristo.
O nono círculo se divide em quatro anéis, cada um destinado a uma modalidade de traição. Os traidores da pátria estão em um deles, Antenora, nome derivado de Antenor, um conselheiro de Tróia que se juntou aos gregos para trair sua cidade. Em Antenora, Dante chuta o rosto de um dos traidores. Alguém poderia sugerir a Eduardo, quando estiver petrificado no gelo, para proteger o rosto e evitar um pontapé de Dante nas suas fuças. Mas só haveria necessidade disso se o traidor não tivesse, como tem, uma tremenda cara de pau.