Empresas como a Meta e startups de tecnologia do luto, que aqui estamos chamando de algoritmos da eternidade, estão desenvolvendo algoritmos de IA e outras tecnologias com o intuito de burlar o fim da geração de conteúdo humano ocasionado por morte. Essas tecnologias estão sendo chamadas de GriefTech e estão ficando cada dia mais avançadas. Será que estamos em meio a possibilidade da geração de zumbis digitais em prol do engajamento e trabalho de geração de conteúdo infinito para as big techs? Vamos saber…
O que é a GriefTech?
É uma movimentação emergente que vem sendo chamada de tecnologia do luto. Seu objetivo visa criar tecnologias para desafiar a morte e prolongar a presença humana no universo digital.
Na ficção, desde as vinhetas distópicas de Black Mirror até o niilismo neon de Cyberpunk 2077, há muito flerta-se com a ideia de transcender esse limite. Mas, hoje, a fronteira entre a ficção científica e a realidade está se dissolvendo, pois algoritmos de IA estão sendo patenteados visando prolongar a geração de conteúdo nas redes sociais. Estamos testemunhando o nascimento da GriefTech, um setor dedicado a garantir que a presença de uma pessoa persista mesmo depois de seu coração parar de bater.
Embora a expressão GriefTech indique métodos que vão desde a conservação física até a criação de clones digitais e algoritmos de inteligência artificial que simulam a personalidade de pessoas falecidas, neste artigo iremos nos concentrar na recente inovação da empresa de plataformas digitais Meta, que visa manter perfis ativos com motivação econômica transparente.
Vale salientar que as empresas conhecidas como Big Tech ou pelo acrônimo Gafam (Google, Amazon, Facebook/Meta, Apple e Microsoft) são consideradas monopólios digitais.
O trabalhador digital, lucros póstumos e o Meta Clone
Um dos desenvolvimentos mais provocativos nesta área encontra-se atualmente nos escritórios de patentes do Vale do Silício. Uma das grandes empresas consideradas Big Tech, a Meta (antiga Facebook), obteve uma patente, defendida pelo executivo Andrew Bosworth, que descreve um sistema projetado para manter os perfis de usuários ativos após a morte.
Não se trata apenas de uma página memorial estática, mas sim uma proposta para uma espécie de “trabalhador digital”. O mecanismo técnico é tão íntimo quanto perturbador. Ao treinar um clone de IA com base no conjunto de dados exaustivo que um usuário já tenha gerado e disponibilizado na plataforma, a exemplo de comentários, curtidas, sintaxe de escrita, mensagens de voz e até mesmo ritmos de interação específicos, a plataforma pode criar um imitador, gêmeo ou clone digital.
De acordo com Zuboff (2020), embora alguns desses dados sejam aplicados para o aprimoramento de produtos e serviços, o restante é declarado como superavit comportamental do proprietário, alimentando avançados processos de fabricação conhecidos como “inteligência de máquina” e manufaturado em produtos de predição que antecipam o que um determinado indivíduo faria agora, daqui a pouco e mais tarde.
Esse clone poderia responder a mensagens diretas, comentar fotos de amigos e publicar conteúdo “novo”, mesmo depois de ter se desligado da rede social ou da plataforma digital, mantendo uma presença fantasmagórica que sugere que o usuário nunca saiu, seja porque desejou ou seja por morte.
Outra big tech, a Microsoft, também já patenteou tecnologia semelhante, sinalizando uma grande mudança em toda a indústria em direção à comercialização da vida após a morte.
A motivação econômica por trás disso é assustadoramente transparente. Do ponto de vista da plataforma, um usuário falecido representa um evento de “churn”, ou seja, uma perda de engajamento e receita publicitária. Como afirma o próprio Andrew Bosworth no documento oficial da patente: “O impacto é muito mais severo e permanente se este usuário faleceu e nunca mais retornou à plataforma.”
Com a aplicação desses algoritmos da Meta em suas redes sociais, os perfis das pessoas falecidas seriam transformados em “entidades digitais ativas” que continuariam a agir nesses espaços como se o usuário estivesse vivo. As ações seriam, segundo a patente, da seguinte forma:

Nesse sentido, a Meta não está apenas criando uma maneira de honrar a história do usuário. Essas empresas estão, efetivamente, explorando o pós-vida em busca de métricas de engajamento, garantindo que, mesmo após a morte, seus usuários continuem sendo uma unidade produtiva para o algoritmo.
Esse aspecto se enquadra bem no que Zuboff (2023) chamou de capitalismo de vigilância. Segundo a autora, o capitalismo de vigilância reivindica de maneira unilateral a experiência humana como matéria-prima gratuita para a tradução em dados comportamentais.
O que acontece é que, na maioria das vezes, as tecnologias digitais são vistas apenas como instrumentos e não é dada a devida importância para os aspectos político e econômico relacionados ao seu uso e ao seu desenvolvimento (Pinto, 2005).
Se de fato esse algoritmo da Meta for implementado para uso em uma de suas atualizações em redes sociais, podemos estar falando do fim do direito ao esquecimento. Vale destacar ainda que a Meta é conhecida por possuir o maior banco de dados comportamentais do mundo, o que tornaria seus clones digitais extremamente precisos.
Algoritmos da eternidade: “eu vejo gente morta, o tempo todo”
Um dos pontos observados na pesquisa de Mattos e Grigoleto Netto (2025) é que o luto já não está mais restrito a um contexto privado, podendo ser considerado, junto com outras situações antes introspectivas e individuais, a exemplo da leitura, como espetáculo (Neves; Costa, 2024).
É nesse argumento que serviços de tecnologia digital, especificamente através do uso da Inteligência Artificial, vêm aprimorando a (re)conexão com o ente querido que morreu. Segundo Mattos e Grigoleto Netto (2025), já existem empresas que criam clones digitais, utilizando voz e se aproximando o máximo possível da personalidade de entes queridos, como por exemplo, Replika, HereAfter AI, Story File e Seance AI na Califórnia e as empresas Super Brain e a Silicon Intelligence na China, local em grande ascensão dos Ghostbots, Deepfakes e Griefs Techs.
Por outro lado, existem pesquisas que apontam o uso da tecnologia do luto como uma alternativa positiva para superação da perda do ente querido. Para Widerhold (2024), os deepfakes de áudio e demais tecnologias que permitem interação com a memória do ente falecido podem auxiliar no processo de luto, possibilitando, por exemplo, uma conversa que não foi possível e a expressão das emoções.
Ozdemir et al (2021) citado na pesquisa de Mattos e Grigoleto Netto (2025), aponta que “os humanos são mortais, mas suas pegadas digitais não são. As redes sociais estão cheias de pessoas mortas cujo restos digitais na forma de tweets, vídeos e fotografias anteriores, entre outros artefatos, continuam a circular no espaço virtual”.
Do ponto de vista ético, os estudos mapeados por Mattos e Grigoleto Netto (2025) destacam preocupações quanto ao impacto e ao papel da tecnologia na preservação de memórias de entes falecidos e a preservação de sua privacidade, além de impacto psicológico para enlutados e dificuldade de distinção entre vivos e mortos.
Desse modo, é preciso um debate crítico, principalmente no ramo da ética, que questione se essas tecnologias servem como um consolo real ou se são apenas uma estratégia para manter o engajamento digital e o lucro dessas plataformas e empresas.
Floridi (2018) destaca que não se trata apenas de colocar a tecnologia em um lugar de vilã, mas de compreender as repercussões e possibilidades, visto que “a melhor maneira de pegar o trem da tecnologia não é persegui-lo, mas estar lá na próxima estação”. A questão que se impõe é se conseguimos.
Referências
Floridi, L. Soft ethics and the governance of the digital. Philosophy & Technology, 31(1), 2028, 1-8.https://doi.org/10.1007/s13347-018-0303-9
NEVES, Barbara Coelho; DAMASCENO, Handherson Leyltton Costa. A espetacularização de si nas mídias sociais: o/a leitor/a-espetáculo e as pedagogias da visibilidade. Conjectura: filos. e Educ., Caxias do Sul , v. 27, e022019, 2022 . Disponível em: <http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2178-46122022000100109&lng=pt&nrm=iso> .
PIRES DE MATTOS, I. J.,; GRIGOLETO NETTO, J. V. O USO DA TECNOLOGIA DIGITAL EM SITUAÇÕES DE LUTO: Uma revisão sistemática de literatura (2014-2024). Psicologia E Saúde Em Debate, 11(1), 2025, 501–516. https://doi.org/10.22289/2446-922X.V11A1A30
PINTO, Alvaro Vieira. O conceito de tecnologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

