Barbara Coelho

Professora da UFBA, doutora em Educação, pós-doutora em Ciência da Informação e autora de “Tecnologia e Mediação” (CRV, 2017).

A dialética da sabotagem algorítmica: IA e a fronteira do conflito político na Bahia 

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Bots
O ataque aos candidatos do PT na Bahia, consistiu no disparo massivo de mais de 70 mil seguidores falsos, majoritariamente de origem asiática, em um intervalo de apenas cinco horas | Crédito: Rawpixel

Esse episódio não representa apenas uma agressão técnica, mas a síntese da tensão entre a democratização da tecnologia como arma de destruição de reputações

Cara leitora, caro leitor, o cenário político contemporâneo brasileiro transpôs definitivamente suas fronteiras para o domínio imaterial do ciberespaço, onde a lógica da “sociedade digital” impõe novos paradigmas de conflito. O ataque cibernético coordenado contra os perfis do governador da Bahia Jerônimo Rodrigues, do senador Jaques Wagner e do ministro Rui Costa, ocorrido na madrugada do dia 01 de agosto de 2026, serve como um case emblemático da vulnerabilidade institucional ante a sofisticação do crime digital. Sob uma perspectiva dialética, esse episódio não representa apenas uma agressão técnica, mas a síntese da tensão entre a democratização da tecnologia como arma de destruição de reputações. 

A anatomia da sabotagem: o algoritmo como armadilha 

O ataque consistiu no disparo massivo de mais de 70 mil seguidores falsos, majoritariamente de origem asiática, em um intervalo de apenas cinco horas. A sofisticação desta ação não reside no ganho numérico de audiência, mas na perversão da lógica de moderação das plataformas. Conforme apontam Caldas e Caldas (2019), o uso de “social bots” (robôs sociais) entendidos como programas desenvolvidos para simular o comportamento humano, busca poluir o debate público e manipular percepções. No caso baiano, o objetivo estratégico era induzir os sistemas e algorítmos da Meta a suspender as contas desses políticos por violação das diretrizes contra comportamento inautêntico, criando simultaneamente a narrativa falsa de que os próprios teriam comprado engajamento. 

A inteligência artificial e a escala do ataque 

A relação entre os ataques cibernéticos sofridos pelos políticos do PT na Bahia e a inteligência artificial (IA) é direta e estrutural, manifestando-se principalmente através da automação do comportamento inautêntico e do uso de algoritmos para manipular a percepção pública e as regras das plataformas sociais. Com base em pesquisadores (Caldas e Caldas, 2019; Goldoni, Rodrigues e Medeiros, 2024), os principais pontos dessa relação são: 

1) Uso de social bots (robôs sociais) – os ataques foram realizados a partir de disparos massivos de seguidores falsos. No caso baiano, a IA permitiu a adição de mais de 

70 mil perfis falsos em apenas cinco horas, escala impossível para ser atingida de forma orgânica e por meio manual. 

2) Manipulação de algoritmos de moderação – A estratégia dos criminosos utilizou a própria inteligência artificial das plataformas contra os alvos. Ao inundar as contas com seguidores falsos, o objetivo era induzir os sistemas automatizados de segurança da plataforma a acreditar que os políticos haviam violado diretrizes contra o ganho artificial de engajamento, o que provocaria a suspensão ou banimento automático dos perfis invadidos. 

3) Comportamento de enxame e guerrilha digital – a literatura científica descreve este fenômeno como comportamento de enxame, onde redes coordenadas de bots agem para sufocar o debate atual ou destruir reputações. Essa dinâmica é inflada pelos modelos de negócios da plataforma, que utilizam algoritmos para gerar engajamento, criando um “ciclo destrutivo” no ambiente digital. 

4) IA como desafio eleitoral institucional – O Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) identificou formalmente o “mau uso de IA” como um dos grandes desafios para as eleições de 2026. A preocupação inclui desde a automação de seguidores por IA para simular falas de candidatos, e o uso de algoritmos para disseminar desinformação de forma segmentada. 

5) Big data e microssegmentação – A IA é a ferramenta que permite processar o Big data (grandes volumes de dados dos usuários) para identificar públicos vulneráveis e direcionar ataques ou notícias falsas (fake news) com alta precisão. Esse direcionamento granulado facilita a criação de tempestades de indignação digital contra adversários políticos. 

Em resumo, a IA forneceu a infraestrutura técnica (bots) e a capacidade de escala necessária para que o ataque cibernético na Bahia pudesse tentar sabotar as candidaturas oficiais no dia da convenção partidária do PT. 

A semiótica “abaixo do radar” e a dialética do ódio 

A atribuição do ataque ao “padrão bolsonarista” pelas lideranças petistas aponta para uma estratégia de “semiótica abaixo do radar”. Segundo Silva, Bonfante e Hahn (2026), essa tática utiliza mensagens que possuem um significado inócuo para o público geral, mas funcionam como comandos codificados para públicos refratários e de nichos extremistas, incitando ataques em massa sem necessidade de ordem direta. 

A dialética aqui se manifesta na contradição entre visibilidade e privacidade. Para conter o fluxo de bots, as equipes de Jerônimo, Rui e Wagner foram obrigadas a tornar os perfis privados, reduzindo sua visibilidade justamente no dia da convenção oficial. Assim, o agressor obtém sucesso mesmo sem o banimento da conta, ao forçar o alvo ao auto isolamento digital, uma forma contemporânea de interdição do discurso político do outro. 

O desafio da governança e o anacronismo legal 

A resposta estatal ao caso, materializada na denúncia à Delegacia de Representação aos Crimes Cibernéticos (DRCC) e Ministério Público, esbarra em um sistema de governança fragmentado. Embora o Brasil tenha avançado com a Política Nacional de Cibersegurança (PNCiber) em 2023, Goldoni, Rodrigues e Medeiros (2024) argumentam que as normas brasileiras ainda formam uma “colcha de retalhos” desconexa, com insuficiente integração entre os entes federativos e as plataformas privadas. 

A legislação penal brasileira, datada originalmente de 1940, necessita de constantes atualizações para lidar com crimes que transpõem fronteiras físicas com a velocidade de um clique. Dialeticamente, a repressão isolada mostra-se ineficaz, pois, como defendem Patury, Salgado e Teixeira Filho (2016), a educação digital e a qualificação do debate são os verdadeiros corolários da redução da cibercriminalidade. 

Considerações e o que fazer neste caso 

O ataque cibernético na Bahia não foi um evento isolado, mas o sintoma de uma crise de legitimidade onde a tecnologia é usada para implodir as bases do diálogo democrático. A síntese necessária para este conflito exige que a segurança da informação deixe de ser tratada como uma questão puramente técnica e passe a ser vista como um pilar de sustentação da soberania popular e integridade eleitoral. 

Desse modo, chegamos ao seguinte questionamento: em uma era de sabotagem algorítmica automatizada por IA, como as instituições podem garantir a paridade de armas nas eleições se a celeridade da justiça é estruturalmente mais lenta que a propagação da desinformação em tempo real. 

Frente a isso, nossa proposta de solução é a implementação da Governança de Resiliência Digital Ativa. Para se protegerem, os partidos devem adotar um modelo baseado em três pilares fundamentais: 

1) Auditoria algorítmica e selo de integridade, a partir do estabelecimento de protocolos de monitoramento em tempo real de métricas de crescimento, registrando previamente as assinaturas orgânicas dos candidatos junto ao TSE e às plataformas, permitindo que disparos anormais de bots sejam neutralizados pelas redes sociais sem penalizar a conta do alvo. 

2) Educação digital de “corpo de tropa”, transformando o “clicador feliz” em um agente consciente capaz de identificar e denunciar possíveis ataques. 

3) Núcleos de resposta rápida multidisciplinares por meio da criação de comitês técnicos compostos por juristas, especialmente em IA e cientistas de dados para atuar na preservação imediata de provas digitais. 

Fontes citadas:

CALDAS, Camilo Onoda Luiz; CALDAS, Pedro Neris Luiz. Estado, democracia e tecnologia: conflitos políticos e vulnerabilidade no contexto do big-data, das fake news e das shitstorms. Perspectivas em Ciência da Informação, v. 24, n. 2, p. 196-220, 2019.

GOLDONI, Luiz Rogério Franco; RODRIGUES, Karina Furtado; MEDEIROS, Breno Pauli. What is the future of Brazil’s cybersecurity governance? Cadernos Gestão Pública e Cidadania, v. 29, p. 1-22, 2024. 

PATURY, Fabrício Rabelo; SALGADO, Fernanda Veloso; TEIXEIRA FILHO, Manoel do Bomfim B. A Política Criminal do Núcleo de Combate aos Crimes Cibernéticos do Ministério Público do Estado da Bahia no enfrentamento aos ilícitos cometidos no âmbito digital. Salvador: Ministério Público do Estado da Bahia, [2016]

SILVA, Daniel do Nascimento e; BONFANTE, Gleiton Matheus; HAHN, Graziela. INDIRETO E ABAIXO DO RADAR: A PRAGMÁTICA DE ATAQUES MISÓGINOS NO POPULISMO DIGITAL DE BOLSONARO. Linguagem em (Dis)curso, v. 26, 2026.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Jamile Araújo

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