A vida cultural de São Paulo (SP) está morrendo. Esta é uma frase que tem surgido em muitos debates, em especial quando se fala da vida noturna. Especulação imobiliária, ausência de políticas públicas, falta de amparo ao empresariado e até a mudança de hábitos da chamada geração Z são colocados como motivos desta queda. Mas será que é assim mesmo?
O jornalista Alexandre Bazzan publicou, em janeiro deste ano, o Mapa da Música Autoral de São Paulo. Recomendamos a leitura de todos os textos do seu Substack, mas vamos nos ater ao mapa. Ao todo, ele chegou a 248 bandas e 88 casas de show, com a zona oeste concentrando a maioria desses espaços. O cruzamento de informações pessoais e a ajuda nas redes sociais fizeram com que este estudo tivesse início, crescesse e atingisse outras cidades. É possível ver mapas de Rio de Janeiro (RJ), Fortaleza (CE), Recife (PE) e Santa Catarina, por exemplo. Se quiser, tem também playlist das bandas autorais.
Focando apenas em São Paulo, ver números tão expressivos (que poderiam ser muito maiores) traz aquele quentinho no coração de que tem gente por aí resistindo às adversidades dessa cidade que insiste em ter alma. A questão é: e quem não está mais lá? Ou deveria estar e foi tirado à força? A luz jogada sobre essa sufocada cena é difícil de explicar e também de entender. Aqui entra o movimento “Não Quero Sair do Mapa”.
Da zona oeste, a área campeã de palcos, surgiu em 2023 uma mobilização em torno do Ó do Borogodó pela ameaça de despejo. O espaço, fundado em 2001, referência do samba e do choro, viu a especulação imobiliária chegar à sua porta com uma ação judicial pedindo a desocupação do imóvel. A partir daí, diversas manifestações culturais tomaram corpo pedindo a permanência da histórica casa naquele local.
Desta movimentação inicial, decorreu um pedido junto ao Conpresp, órgão que deveria proteger o patrimônio histórico, cultural, artístico e ambiental de São Paulo, para que houvesse o enquadramento do espaço como Zepec – APC (Zona Especial de Preservação Cultural – Área de Proteção Cultural), o que foi reconhecido pela Comissão Técnica do órgão, dando fim ao processo de despejo.
Porém, se tratava de um parecer técnico, não de uma decisão final. O martelo foi batido no início de 2026, quando os responsáveis pelo julgamento não reconheceram aquilo que os técnicos tinham apresentado. Não à toa, o Conpresp está sendo investigado por improbidade administrativa.
Mesmo com este revés, nas palavras do movimento: “À medida que a mobilização em defesa do Ó do Borogodó se desenvolvia, teve-se conhecimento de situações de ameaça à permanência de outros espaços na cidade, que incluíam despejos, venda de imóveis para incorporações imobiliárias, aumentos abruptos e/ou abusivos de aluguel, pressões para mudança de uso, conflitos de vizinhança e dificuldades de interlocução com o poder público. A recorrência dessas situações levou à percepção de que o caso do Ó não constituía uma excepcionalidade, mas se inseria em uma problemática mais ampla relacionada à permanência de usos culturais e comunitários na cidade de São Paulo. O movimento ‘Não Quero Sair do Mapa’ surge nesse contexto, como tentativa de construir uma leitura e atuação compartilhada de conflitos vivenciados de forma isolada”.
Cultura é patrimônio, cultura é território, e o “Não Quero Sair do Mapa” se propõe a registrar e dar visibilidade aos espaços culturais, simbólicos e afetivos que ainda resistem.
Para debater essas questões e construir caminhos, o movimento promove um seminário em quatro encontros, nos dias 2, 9, 16 e 23 de setembro, a partir das 16h, no Instituto Casa da Cidade (Rua Rodésia, 398 – Vila Madalena). A programação está dividida em quatro eixos:
- 02/09 – Conceituar: o que são esses espaços? Quais marcos teóricos e legais os definem?
- 09/09 – Existir: como esses espaços se distribuem (e desaparecem) no tecido urbano?
- 16/09 – Proteger: quais leis e políticas públicas existem para protegê-los?
- 23/09 – Resistir: como fortalecer sua permanência?
Entre os debatedores estão Nabil Bonduki, Danielle Santana, Cleiton de Paula, Cássia Caneco e outros. Para fechar cada noite, apresentações culturais no Ó do Borogodó, das 20h às 22h, como forma de celebrar o que ainda resiste.
O seminário também vai desenvolver um mapeamento colaborativo de espaços culturais que integrará uma publicação final. A ideia é que o mapa não seja apenas um registro, mas uma ferramenta de luta: um instrumento para mostrar ao poder público o que existe, o que está ameaçado e o que precisa ser protegido.
Estamos assistindo ao desmonte da nossa cultura, bastante coisa está em jogo, é necessário mudar esse cenário.
Inscreva-se no seminário aqui.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

