A repercussão do meu artigo da semana passada, A Copa da Vergonha, foi além do que eu imaginava. O artigo atravessou fronteiras e passou a circular em importantes meios internacionais, entre eles o The Mercury, o Cape Times, o portal Independent Online (IOL) e o agregador The African, da África do Sul.
O debate suscitado pelo texto produziu desdobramentos interessantes. A editora Katia Marko do Brasil de Fato convidou-me a escrever, durante a Copa do Mundo, uma série de artigos sobre as relações entre futebol e política. Chamou-me a atenção também o fato de o cientista político Aldo Fornazieri ter publicado, posteriormente, um artigo com o mesmo título, examinando o tema sob outra perspectiva.
Foi nesse contexto que um comentário de leitor me levou a uma nova reflexão. Segundo ele, a verdadeira “Copa da Vergonha” não seria a de 2026, mas a realizada no Brasil, em 2014. Concordei em parte com a observação. A divergência estava mais na escala do que no diagnóstico. A Copa de 2014 representou, a meu ver, uma vergonha essencialmente brasileira. Já a de 2026 corre o risco de ser lembrada como uma vergonha de dimensão global.
Quando o estádio se transformou em palanque do ódio
A Copa realizada no Brasil ficará associada para sempre a dois episódios que ultrapassaram os limites do esporte. O primeiro foi o coro de insultos dirigido à presidenta Dilma Rousseff durante a cerimônia de abertura do torneio.
A cena foi transmitida para o mundo inteiro. Não se tratava de uma simples manifestação de oposição política. Em qualquer democracia, governantes podem e devem ser criticados. O que ocorreu naquele estádio foi algo diferente: uma demonstração explícita de intolerância política e de desprezo pela legitimidade do voto popular.
Os ingressos para a abertura estavam entre os mais caros do torneio e eram acessíveis principalmente aos setores de maior renda da sociedade. Uma parcela daquela elite econômica aproveitou um dos momentos de maior visibilidade internacional do Brasil para hostilizar publicamente uma presidenta eleita por mais de 54 milhões de brasileiros. Independentemente da avaliação que se faça de seu governo, Dilma Rousseff era uma governante comprometida com a ampliação de direitos sociais, a inclusão das camadas populares e um projeto de desenvolvimento nacional.
Havia ainda um elemento político adicional. A realização da Copa do Mundo no Brasil foi uma conquista diplomática e política dos governos Lula e Dilma, resultado do protagonismo internacional que o país alcançou naquele período. Para setores da oposição que já demonstravam crescente radicalização e que mais tarde convergiriam para posições de inspiração neofascista, era importante impedir que o evento se transformasse em um ativo político do PT ou de Lula. Nenhum legado positivo da Copa deveria permanecer na memória coletiva. A hostilidade dirigida à presidenta durante a abertura do torneio pode ser compreendida também como expressão dessa disputa simbólica.
Vista em retrospecto, aquela cena foi mais do que uma grosseria coletiva. Ela antecipava a radicalização política que se aprofundaria nos anos seguintes. Naquele estádio já estavam presentes elementos que mais tarde se tornariam centrais na ascensão da extrema direita brasileira: a desumanização do adversário político, a substituição do debate racional pelo ódio e a naturalização da agressividade como linguagem pública.
O 7 a 1 e as dúvidas que nunca desapareceram
O segundo episódio foi o traumático 7 a 1 imposto pela Alemanha à Seleção Brasileira. Mais do que uma derrota esportiva, tratou-se de um colapso nacional transmitido em escala planetária. Aquele placar permanece como um dos maiores vexames da história do futebol.
Ao longo dos anos surgiram especulações sobre os bastidores da Seleção Brasileira daquele período, incluindo alegações de influência excessiva de patrocinadores e interesses comerciais sobre decisões que deveriam ser estritamente técnicas. Entre elas, a de que a escalação da equipe precisaria ser submetida à aprovação de patrocinadores. Essas alegações jamais foram comprovadas de forma conclusiva, mas tampouco desapareceram do imaginário coletivo.
A simples persistência dessas dúvidas revela uma questão legítima: até que ponto o futebol de alto rendimento continua sendo conduzido por critérios esportivos e até que ponto está subordinado aos interesses econômicos que o cercam?
A pergunta permanece atual. Em diferentes momentos, convocações e escalações parecem obedecer não apenas ao desempenho em campo, mas também à relevância comercial e midiática dos atletas. O futebol moderno transformou-se em uma poderosa indústria global, e a tensão entre mérito esportivo e interesse financeiro está longe de ser uma questão resolvida.
Quando observados em conjunto, o coro de hostilidade dirigido à presidenta da República e a humilhação esportiva do 7 a 1 ajudam a explicar por que a Copa de 2014 deixou uma marca tão profunda na memória nacional. O torneio acabou simbolizando, ao mesmo tempo, uma crise política em gestação e uma crise de identidade do próprio futebol brasileiro.
De uma vergonha brasileira a uma vergonha global
Já a Copa de 2026 parece caminhar para outro tipo de vergonha.
Antes mesmo de a bola rolar, acumularam-se denúncias de discriminação, restrições arbitrárias de entrada, dificuldades impostas a delegações e torcedores de determinados países e uma evidente instrumentalização política do torneio por parte do governo do principal país-sede.
Se a Copa de 2014 refletiu contradições da sociedade brasileira, a de 2026 expõe contradições de alcance mundial. O futebol se apresenta como uma linguagem universal, capaz de unir povos, culturas e nações. Mas a realização do torneio tem sido acompanhada por práticas que negam justamente esses valores.
A Copa de 2014 expôs ao mundo o avanço do ódio político no Brasil. A Copa de 2026 expõe ao mundo as contradições de uma ordem internacional que proclama valores universais enquanto pratica exclusões e discriminações.
Por isso, talvez a distinção mais adequada seja esta: a Copa de 2014 foi uma vergonha brasileira. A de 2026 corre o risco de se transformar em uma vergonha global.
Os improváveis entram em campo
Mas nem tudo tem sido motivo de desencanto nesta Copa.
A extraordinária estreia da Seleção de Cabo Verde talvez seja a melhor prova disso. Representando um arquipélago africano de cerca de 530 mil habitantes, a equipe enfrentou logo em sua primeira partida a poderosa Espanha, campeã mundial e atual campeã europeia, formada por atletas conhecidos globalmente e donos de salários milionários.
Contra todos os prognósticos, Cabo Verde arrancou um empate por 0 a 0. O feito foi coletivo. Cada jogador cabo-verdiano pareceu disposto a correr um metro a mais, disputar uma bola a mais e fazer um esforço a mais em nome do conjunto.
Mas o resultado cabo-verdiano não foi um caso isolado. O Marrocos já havia empatado em 1 a 1 com a Seleção Brasileira, confirmando uma trajetória de crescimento técnico e tático que vem chamando atenção desde a Copa do Catar. No dia 15 de junho, o Egito arrancou um empate por 1 a 1 diante da Bélgica, uma das seleções mais qualificadas da Europa. E, fechando a rodada de surpresas, a Arábia Saudita empatou em 1 a 1 com o Uruguai, bicampeão mundial e uma das equipes mais tradicionais do futebol sul-americano.
Os goleiros tiveram papel decisivo nesses resultados. Em Cabo Verde, Vozinha foi um dos símbolos da resistência da equipe africana. Já Mohammed Al Owais foi fundamental para o empate saudita diante do Uruguai. No segundo tempo, os uruguaios transformaram a partida em um verdadeiro ataque contra defesa, mas não conseguiram superar a combinação entre uma defesa extremamente bem organizada e a atuação inspirada de seu goleiro.
Foram desempenhos individuais brilhantes, mas que só podem ser compreendidos dentro de um esforço coletivo igualmente notável. Cabo Verde, Egito e Arábia Saudita demonstraram que resultados surpreendentes não surgem apenas de talentos isolados, mas de organização, disciplina tática, solidariedade entre os jogadores e enorme capacidade de concentração.
Quando os pequenos desafiam os grandes
Talvez uma das mensagens mais importantes desta Copa esteja justamente aí. Diferentemente do futebol de clubes, cada vez mais submetido à lógica do mercado, das grandes fortunas e da concentração de talentos em poucas equipes, as Copas do Mundo continuam sendo um espaço em que outros fatores conservam enorme importância. O sentimento de pertencimento nacional, a identidade coletiva, a organização tática, a solidariedade entre os jogadores e a capacidade de atuar como equipe muitas vezes se revelam tão ou mais decisivos do que o valor de mercado dos atletas.
A própria história das Copas mostra que o poder econômico não determina sozinho os resultados. O Uruguai foi campeão mundial em 1930 e 1950, apesar de sua pequena população. O Brasil, que mais tarde se tornaria o maior vencedor da história das Copas, com os títulos de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002, conquistou seus primeiros campeonatos quando ainda estava longe do peso econômico internacional que alcançaria nas décadas seguintes. Nas Copas do Mundo, a força coletiva costuma pesar tanto quanto os recursos materiais.
Os resultados desta Copa parecem recolocar essa tradição em evidência. O empate do Marrocos diante do Brasil, a resistência do Egito contra a Bélgica, a organização de Cabo Verde diante da Espanha e a surpreendente atuação da Arábia Saudita contra o Uruguai lembram que o futebol entre seleções continua sendo um dos raros espaços da competição internacional em que a força coletiva pode equilibrar diferenças econômicas e estruturais aparentemente intransponíveis.
As seleções africanas, em particular, têm dado uma verdadeira aula de organização, empenho e crescimento técnico e tático. Cabo Verde, Marrocos e Egito demonstram que o talento está distribuído pelo mundo de forma muito mais ampla do que sugerem os centros tradicionais de poder esportivo. A elas somou-se a Arábia Saudita, representante de outra região frequentemente ausente do círculo das grandes potências futebolísticas. Nem sempre a fama, a visibilidade midiática ou o valor de mercado dos jogadores são suficientes para derrotar equipes movidas por disciplina, solidariedade e espírito coletivo.
Talvez esteja aí uma das explicações para as dificuldades enfrentadas pela própria Seleção Brasileira nas últimas Copas do Mundo. O Brasil continua produzindo alguns dos jogadores mais talentosos e valorizados do planeta, protagonistas dos maiores clubes e das mais lucrativas competições internacionais. Mas talento individual, por si só, nunca foi suficiente para conquistar Copas do Mundo. As equipes brasileiras que se tornaram campeãs entraram para a história não apenas pela qualidade técnica de seus craques, mas também pela capacidade de formar coletivos coesos, solidários e comprometidos com um projeto comum.
É possível que o futebol contemporâneo, ao transformar seus maiores astros em marcas globais e multimilionárias, tenha enfraquecido justamente alguns dos atributos que fizeram da Seleção Brasileira uma referência mundial durante décadas. Jogadores que já alcançaram fama, prestígio e segurança financeira antes mesmo de disputar uma Copa talvez não encontrem na camisa amarela o mesmo sentido de missão que mobilizou gerações anteriores.
Não se trata de questionar o patriotismo ou a dedicação desses atletas, mas de reconhecer que o sentimento de pertencimento, o espírito de sacrifício e a disposição de colocar o coletivo acima das ambições individuais parecem cada vez mais raros no futebol de elite. Talvez seja justamente a ausência desses atributos que ajude a explicar por que seleções compostas por estrelas mundialmente reconhecidas têm encontrado tantas dificuldades diante de equipes menos badaladas, mas mais organizadas e comprometidas com um objetivo comum.
Num mundo em que o dinheiro, a fama e o poder parecem determinar quase tudo, talvez a principal lição desta Copa seja justamente a contrária. O futebol entre seleções continua sendo um dos poucos espaços em que organização, solidariedade, identidade coletiva e capacidade de superação podem equilibrar diferenças aparentemente intransponíveis. Cabo Verde diante da Espanha, Marrocos diante do Brasil, Egito diante da Bélgica e Arábia Saudita diante do Uruguai mostram que nem sempre os gigantes vencem. É uma lição que vale para o esporte — e talvez também para a política e para a própria vida em sociedade.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

