Os resultados da Copa do Mundo de 2026 vêm produzindo uma sequência de partidas equilibradas que desafiam antigas certezas sobre a geografia do futebol mundial. O empate do Brasil com Marrocos, o empate da Holanda com o Japão, os empates da Bélgica com Egito e Irã, o empate da Espanha com Cabo Verde, os empates do Uruguai com a Arábia Saudita e com Cabo Verde, além do empate de Portugal com a República Democrática do Congo, revelam um fenômeno que vai muito além do acaso ou das chamadas zebras.
O futebol mundial está mudando. E compreender essa transformação exige olhar para dois processos históricos de longa duração: o legado do colonialismo europeu e a globalização do mercado internacional de jogadores.
Durante boa parte do século 20, o mapa do futebol mundial guardava alguma correspondência com a distribuição internacional do poder econômico, político e institucional. As principais seleções estavam concentradas em países que ocupavam posições centrais ou privilegiadas na economia mundial — como Inglaterra, Alemanha, Itália, Argentina e Uruguai. Este último, apesar de seu pequeno tamanho, figurava entre os países mais ricos do mundo nas primeiras décadas do século 20, razão pela qual era conhecido como a “Suíça da América”.
Essa correspondência, porém, nunca foi mecânica. O Brasil, por exemplo, construiu uma das maiores tradições futebolísticas do planeta sem jamais integrar o grupo das economias mais desenvolvidas. A novidade do século XXI é que a globalização do mercado de jogadores, associada às migrações internacionais e às heranças do colonialismo, vem reduzindo a distância que separava as potências tradicionais de seleções que permaneceram durante décadas fora do grupo dominante do futebol mundial
Uma circulação em duas direções
O fortalecimento das seleções que permaneceram durante décadas fora do grupo dominante do futebol mundial não pode ser explicado apenas pela exportação de jogadores para os grandes clubes europeus. O fenômeno é mais complexo e envolve uma circulação de talentos em duas direções.
De um lado, países da África, da América Latina e da Ásia tornaram-se grandes exportadores de jogadores para os centros do futebol mundial. Brasil, Argentina, Senegal, Marrocos, Equador, Colômbia, Japão e Coreia do Sul figuram entre os países que formam atletas cada vez mais valorizados pelos grandes clubes da Europa. Os centros financeiros do futebol concentram os recursos, as receitas de televisão, os contratos de patrocínio e os campeonatos mais prestigiados, enquanto uma parcela crescente do talento é produzida fora deles.
O próprio Brasil ocupa posição singular nesse sistema. Embora possua um dos campeonatos nacionais mais fortes do planeta, continua sendo um dos maiores exportadores de jogadores do mundo. Neymar Jr., principal referência da geração anterior e durante anos o rosto do futebol brasileiro no exterior, construiu sua carreira internacional entre Espanha, França e Arábia Saudita. Vinícius Júnior e Rodrygo consolidaram-se no Real Madrid. Raphinha tornou-se protagonista do Barcelona. Alisson e Ederson figuram entre os goleiros mais valorizados do futebol europeu. Bruno Guimarães transformou-se em peça-chave da Premier League. A seleção brasileira continua sendo uma potência histórica, mas também é produto da circulação global de talentos que caracteriza o futebol contemporâneo.
A Argentina segue trajetória semelhante. Embora mantenha um campeonato nacional relevante, seus principais jogadores atuam ou atuaram nos grandes centros do futebol mundial. Lionel Messi, campeão mundial em 2022, recordista de partidas disputadas em Copas do Mundo e atualmente na liderança da artilharia histórica dos Mundiais, construiu praticamente toda a sua carreira fora de seu país. Ao seu lado, atletas como Julián Álvarez, Enzo Fernández, Alexis Mac Allister, Lautaro Martínez e Cristian Romero desenvolveram-se nos principais campeonatos europeus. A seleção argentina contemporânea constitui um exemplo emblemático de como a circulação global de talentos não enfraquece necessariamente as seleções nacionais; em muitos casos, contribui para fortalecê-las.
O Japão é outro exemplo eloquente dessa transformação. Jogadores como Takefusa Kubo e Kaoru Mitoma atuam em alto nível no futebol europeu. A Coreia do Sul tem em Son Heung-min um dos maiores nomes do futebol asiático das últimas décadas. O Equador conta com atletas como Moisés Caicedo e Piero Hincapié, consolidados nos principais campeonatos europeus. O Senegal tem em Nicolas Jackson um representante da nova geração formada dentro do circuito global do futebol. O Egito alcançou projeção internacional com Mohamed Salah, um dos maiores jogadores africanos do século XXI.
Esses atletas competem semanalmente contra os melhores jogadores do mundo, treinam nos clubes mais estruturados do planeta e acumulam experiências que antes estavam restritas a um número reduzido de países.
Mas existe também um movimento inverso.
Os mesmos processos migratórios que levaram milhões de pessoas das antigas colônias para a Europa criaram diásporas que mantiveram vínculos familiares, culturais e identitários com seus países de origem. Isso explica por que diversas seleções africanas contam hoje com atletas nascidos ou formados nas antigas metrópoles.
Marrocos tornou-se o exemplo mais conhecido desse fenômeno. Achraf Hakimi nasceu em Madri. Noussair Mazraoui nasceu nos Países Baixos. Sofyan Amrabat também nasceu em território neerlandês. Ismaël Saibari nasceu na Espanha. Todos optaram por defender a seleção marroquina.
A situação se repete em diferentes graus na Argélia, em Gana, na República Democrática do Congo e em diversas outras seleções africanas. Esses países passaram a se beneficiar de um processo singular: seus jogadores recebem formação técnica, tática e física nos sistemas esportivos das antigas metrópoles e, posteriormente, colocam esse capital esportivo a serviço das seleções nacionais de origem.
O colonialismo produziu as migrações. As migrações produziram diásporas. E as diásporas transformaram-se em uma das fontes de fortalecimento de diversas seleções africanas.
O talento é produzido em escala global, mas continua sendo absorvido majoritariamente pelos grandes clubes dos principais mercados do futebol internacional.
O resultado é um sistema global de circulação de talentos. Jogadores formados na África, na América Latina e na Ásia alimentam os principais mercados do futebol internacional. Ao mesmo tempo, os grandes clubes e centros de formação esportiva da Europa desenvolvem atletas oriundos das diásporas que posteriormente reforçam seleções africanas, asiáticas e latino-americanas. Essa circulação em duas direções ajuda a explicar por que a distância entre as potências tradicionais e as demais seleções vem diminuindo de forma tão visível na Copa de 2026.
As marcas do colonialismo dentro das seleções europeias
Uma das explicações para essa transformação está nas próprias seleções das antigas potências coloniais.
França, Bélgica, Inglaterra, Países Baixos e Portugal contam hoje com numerosos jogadores originários ou descendentes de populações das antigas colônias. As seleções nacionais dessas potências refletem, em campo, séculos de circulação humana produzida pelos impérios coloniais.
A França é o exemplo mais evidente. Seus principais jogadores simbolizam essa história. Kylian Mbappé é filho de pai camaronês e mãe argelina. Além de liderar a seleção francesa, disputa nesta Copa de 2026 a liderança da artilharia histórica dos Mundiais com Lionel Messi. Ousmane Dembélé possui origens familiares na Mauritânia e no Senegal. Aurélien Tchouaméni descende de camaroneses. O mesmo padrão se repete em boa parte do elenco francês.
Na Bélgica, Jérémy Doku, filho de ganeses, tornou-se um dos símbolos dessa presença. O mesmo ocorre com Loïs Openda, descendente de congoleses, e com outros jogadores cujas famílias têm origem na África Central e Ocidental. A seleção belga contemporânea reflete de forma visível os fluxos migratórios que conectaram o antigo império colonial belga, especialmente o Congo, à Europa. Em Portugal, Rafael Leão é descendente de angolanos.
Portugal oferece um exemplo particularmente revelador dessa longa história. A melhor campanha portuguesa em Copas do Mundo durante décadas foi o terceiro lugar em 1966, liderado por Eusébio, nascido em Lourenço Marques, atual Maputo, em Moçambique, então colônia portuguesa. Seis décadas depois, a presença de jogadores com origens em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e outras antigas possessões ultramarinas continua sendo uma característica marcante do futebol português. O passado colonial permanece visível na composição da seleção nacional.
O fenômeno não se limita a casos isolados. Em várias seleções europeias, atletas oriundos de famílias migrantes ou descendentes das antigas colônias representam uma parcela expressiva dos elencos. Muitos dos principais protagonistas desta Copa — incluindo Mbappé, Dembélé, Doku, Saka e Rafael Leão — descendem de populações originárias da África Ocidental, da África Central ou do Magrebe. A presença desses jogadores ilustra como as antigas rotas coloniais continuam influenciando a composição das seleções nacionais europeias.
As antigas metrópoles coloniais continuam concentrando recursos econômicos, infraestrutura esportiva e grandes clubes. Mas parte significativa do talento que alimenta suas seleções tem origem em populações vinculadas ao antigo mundo colonial.
Em certo sentido, o futebol contemporâneo reproduz, sob novas formas, os fluxos humanos criados pelos impérios dos séculos 19 e 20.
O paradoxo da globalização
Existe, portanto, um paradoxo.
A globalização fortaleceu a concentração econômica do futebol. Nunca os grandes clubes europeus controlaram tantos recursos financeiros, tantas receitas de televisão, tantos contratos de patrocínio e tantos talentos internacionais.
Ao mesmo tempo, essa mesma concentração produz um efeito inesperado: a difusão do conhecimento futebolístico.
Os clubes concentram riqueza. As seleções redistribuem parte do talento.
Quando Marrocos empata com o Brasil, quando o Japão empata com a Holanda, quando Cabo Verde empata com Espanha e Uruguai, quando a República Democrática do Congo arranca um empate de Portugal, quando Egito e Irã neutralizam a Bélgica ou quando a Noruega precisa disputar um jogo equilibrado até os minutos finais para superar o Senegal por 3 a 2, não estamos apenas diante de resultados surpreendentes. Estamos observando os efeitos de décadas de circulação internacional de pessoas, experiências e conhecimentos.
Cabo Verde, representado por jogadores como o veterano goleiro Vozinha, tornou-se uma das imagens mais expressivas desse novo equilíbrio ao arrancar empates de Espanha e Uruguai, duas seleções pertencentes ao círculo histórico das potências futebolísticas.
O futebol como espelho do mundo
A Copa do Mundo de 2026 está revelando algo que vai além do futebol.
A circulação internacional de jogadores não é um fenômeno novo. Eusébio, Alfredo Di Stéfano, Ferenc Puskás, Johan Cruyff, Diego Maradona, Romário e Ronaldo Nazário construíram carreiras transnacionais ao longo do século XX. O que distingue o futebol contemporâneo é a intensidade alcançada por esse processo. Nunca tantos jogadores estiveram simultaneamente inseridos em circuitos globais de formação, competição e transferência como ocorre atualmente.
O resultado é que mecanismos que antes influenciavam um número relativamente reduzido de atletas passaram a moldar seleções inteiras. A circulação internacional de talentos, que já era importante em Copas anteriores, tornou-se uma das características estruturais desta Copa do Mundo de 2026.
Os grandes clubes continuam concentrando a maior parte dos recursos financeiros, da infraestrutura esportiva e da capacidade de atração de jogadores. Mas o talento tornou-se cada vez mais global. Atletas formados na África, na América Latina, na Ásia e em outras regiões abastecem os principais campeonatos do mundo, enquanto as diásporas produzidas por séculos de migração e colonialismo influenciam a composição de muitas seleções nacionais.
Por isso, os resultados desta Copa não devem ser vistos apenas como surpresas ocasionais. O empate de Cabo Verde com Espanha e Uruguai, o empate de Marrocos com o Brasil, os empates de Egito e Irã com a Bélgica, o empate da República Democrática do Congo com Portugal, o empate do Japão com a Holanda e a vitória apertada da Noruega sobre o Senegal refletem transformações estruturais que vêm se acumulando há décadas.
O futebol continua desigual. Mas tornou-se menos hierárquico.
Em campo, as antigas rotas do colonialismo e as novas rotas da globalização se cruzam. Jogadores formados nos grandes mercados internacionais reforçam seleções espalhadas por todos os continentes, enquanto descendentes das antigas diásporas coloniais ocupam posições centrais em muitas das principais equipes europeias. É nesse encontro entre história, migração e circulação global de talentos que se encontra uma das chaves para compreender o novo equilíbrio competitivo revelado pela Copa do Mundo de 2026.
*Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a linha editorial do Brasil do Fato.
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