Sofri. E vibrei. Fazia tempo que uma segunda-feira de Copa do Mundo não me deixava tão exausto. O Brasil escapou do Japão no último minuto do tempo normal. O Paraguai eliminou a Alemanha. Marrocos despachou os Países Baixos. Três resultados improváveis para quem acredita que dinheiro explica tudo.
Saí daquela sequência de jogos com uma velha convicção reforçada: o futebol continua sendo um dos poucos espaços da vida em que o dinheiro pesa muito, mas não decide tudo.
O Japão deu uma aula de disciplina tática. Durante boa parte da partida, parecia saber exatamente o que fazer, enquanto o Brasil parecia procurar a si mesmo em campo. Não consegui evitar a comparação com o país em que vivemos. Também nós ainda buscamos um rumo depois de anos de devastação institucional e moral. A disputa entre o projeto democrático liderado por Lula e o projeto autoritário bolsonarista permanece em aberto. Como a Seleção, o Brasil ainda procura um padrão de jogo capaz de transformar talento disperso em projeto coletivo.
Passamos um primeiro tempo perdidos em campo, dominados por uma equipe tecnicamente inferior, mas muito mais organizada. O Japão conhece seus limites e constrói sua força justamente sobre disciplina, solidariedade e inteligência tática. A Seleção Brasileira, ao contrário, continua parecendo um conjunto de excelentes jogadores que ainda não se reconhecem como equipe.
O alívio veio apenas no fim, quando Gabriel Martinelli apareceu para marcar o gol da classificação. Confesso que não resisti ao paradoxo do simbolismo. Vestindo justamente a camisa 22, que remete ao candidato do caos, foi Martinelli quem “salvou a pátria”. A mesma numeração que o bolsonarismo tentou transformar em patrimônio eleitoral acabou estampada nas costas do jogador que devolveu a tranquilidade a milhões de brasileiros.
Essa imagem me levou imediatamente à Copa de 1970. Em plena ditadura militar, o regime procurou se apropriar politicamente do tricampeonato mundial. Demorou para parte da esquerda perceber que abandonar a Seleção significava entregar gratuitamente um patrimônio popular aos donos do poder. A camisa amarela nunca pertenceu aos militares. Assim como hoje não pertence ao bolsonarismo. Ela continua sendo patrimônio do povo brasileiro.
A noite ainda reservaria outras duas surpresas. O Paraguai eliminou a poderosa Alemanha. Marrocos voltou a mostrar sua força ao derrotar os Países Baixos. Dois países periféricos venceram economias infinitamente mais ricas, reafirmando que o futebol não é uma planilha financeira.
Confesso que senti uma satisfação especial com a vitória paraguaia. O pequeno país que foi devastado na Guerra do Paraguai, entre 1864 e 1870, enfrentando a Tríplice Aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai, acabou me proporcionando uma pequena vingança simbólica contra outra potência, justamente a Alemanha, que, doze anos atrás, nos impôs a maior humilhação da história da Seleção Brasileira.
Já na terça-feira, veio a vitória da Noruega sobre a Costa do Marfim. Desta vez venceu a seleção do país economicamente mais forte, mas nem por isso a lógica do dinheiro saiu consagrada. A partida foi equilibrada até os minutos finais. Os marfinenses empataram no segundo tempo e só sucumbiram aos 86 minutos, quando Erling Haaland decidiu o confronto. A Costa do Marfim mostrou, mais uma vez, que o talento e a organização produzidos na periferia do sistema podem enfrentar de igual para igual equipes mais ricas. A diferença esteve menos no dinheiro do que na presença de um craque extraordinário capaz de decidir uma partida equilibrada.
Para nós, brasileiros, fica o aviso. O prêmio pela sofrida classificação diante do Japão será justamente enfrentar Haaland e essa excelente geração norueguesa nas oitavas de final. Se o Brasil repetir o futebol apresentado contra os japoneses, o susto poderá ser ainda maior.
Foi justamente assistindo a esses jogos que me ocorreu uma contradição curiosa. Enquanto o futebol insiste em demonstrar que o improvável faz parte da sua essência, nunca houve tanto esforço para transformar cada lance em mera probabilidade estatística. Nunca houve tanta gente interessada em converter emoção em aposta.
Nesse aspecto, a CazéTV desperdiçou parte do enorme patrimônio simbólico que construiu. Ao romper a hegemonia da Globo entre o público jovem, adotando uma linguagem espontânea, descontraída e muito próxima da cultura das redes sociais, parecia representar uma renovação bem-vinda da comunicação esportiva brasileira.
Casimiro Miguel consolidou sua imagem como o empreendedor que construiu sua trajetória praticamente do zero, sem o apoio dos grandes grupos tradicionais de mídia. Justamente por isso, sua responsabilidade é ainda maior.
Nem mesmo essa nova forma de comunicar escapou da sedução do dinheiro das bets.
A promoção insistente das apostas esportivas acabou levando a CazéTV a ser notificada pelo Conar. A advertência serve como um alerta que vai muito além de uma única emissora. Quem exerce enorme influência sobre milhões de jovens também influencia comportamentos. Estimular apostas como se fossem mero entretenimento significa contribuir para a normalização de uma atividade que já produz endividamento, dependência e graves problemas sociais.
No campo, o Japão quase eliminou o Brasil. O Paraguai derrotou a Alemanha. Marrocos voltou a desafiar uma potência europeia. A Costa do Marfim caiu de pé diante da Noruega. Nenhum desses resultados cabia nas planilhas dos economistas nem nos modelos estatísticos das casas de apostas.
Felizmente.
Porque o futebol continua acreditando em coisas que os algoritmos ainda não conseguem calcular.
Talvez seja justamente por isso que eu continue gostando tanto da Copa do Mundo.
Não apenas pelo futebol.
Mas porque ela continua insistindo em contrariar a lógica do mercado.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

