Bioética em Pauta

A coluna Bioética em Pauta é mantida pela Sociedade Brasileira de Bioética em Minas Gerais. E tem como objetivo compartilhar com os desafiadores debates que envolvem as éticas da vida em uma sociedade em rápida transformação e de enorme diversidade.

Quando a vida precisa ser postada para existir: o vício é projeto na idolatria do humano

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O gesto automático de buscar o celular antes mesmo de reconhecer o próprio corpo não é apenas hábito; é um reflexo existencial.
O gesto automático de buscar o celular antes mesmo de reconhecer o próprio corpo não é apenas hábito; é um reflexo existencial. | Crédito: Arquivo pessoal

A quem serve esse modo de vida?

Por Marcos Aurélio Trindade

A sociedade contemporânea desenvolve progressivamente a dependência do vício químico, concomitantemente se alimenta deste. Há, sim, dopamina, reforço intermitente e circuitos neurobiológicos capturados. Mas o núcleo do problema que está por trás disso é mais profundo: trata-se do medo de não existir socialmente.

O gesto automático de buscar o celular antes mesmo de reconhecer o próprio corpo não é apenas hábito; é um reflexo existencial. Uma resposta condicionada a um mundo em que a ausência de visibilidade equivale à ausência de valor. Não olhar, não responder, não postar tornou-se sinônimo de desaparecer. A vida, capturada pela lógica da plataforma, passa a exigir registro contínuo para ser reconhecida como real.

Esse vício é, portanto, simultaneamente químico e simbólico. A química sustenta o comportamento, mas é o pânico de irrelevância que o organiza. A sociedade inteira é educada para confundir existência com engajamento, presença com atualização, identidade com performance. Não se trata de indivíduos frágeis incapazes de se desconectar, mas de sujeitos produzidos por um sistema que transforma atenção em mercadoria e reconhecimento em moeda.

O medo de ficar sem o celular é, no fundo, o medo de perder lugar no fluxo incessante de validação que hoje estrutura o laço social. Assim, o vício se torna patologia subjetiva e revela-se como projeto coletivo: uma associação afetiva que captura corpos, tempos e desejos em nome da permanência visível.

É a sensação difusa de que, se eu não olhar, se eu não responder, se eu não postar, algo de mim ficará para trás esquecido no limbo digital onde hoje se arquiva a vida. Talvez esse seja um dos sintomas mais claros do nosso tempo: “a vida precisa ser postada para existir”. Chamam de nomofobia. Medo de ficar sem o celular ou as redes digitais em geral.

O nome é clínico, quase neutro, mas ele esconde uma engrenagem muito mais profunda. Acredito que trata-se de uma fragilidade subjetiva e social. Aprofundamento de um projeto, econômico, simbólico e afetivo que sequestra nossa atenção, coloniza nossos afetos e transforma presença em mercadoria.

Byung-Chul Han já advertia que não vivemos mais sob o chicote visível da repressão, mas sob a sedução da performance. Ninguém nos obriga a postar, nós mesmos nos exploramos. Trabalhamos nossa imagem, nosso corpo, nossas dores e até nossas causas como vitrines permanentes. O cansaço não vem apenas do excesso de trabalho, mas da obrigação de ser interessante o tempo todo.

O celular e outros aparelhos, esses objetos aparentemente inofensivos, tornou-se uma espécie de altar portátil. Nele cultuamos números: curtidas, seguidores, visualizações. A idolatria mudou de forma, mas não de essência. Antes, deuses exigiam sacrifícios. Hoje, o sacrifício é a própria interioridade a “mente”. Gabor Maté, ao refletir sobre trauma e adoecimento psíquico, insiste que o sofrimento não nasce no vazio. Ele emerge de contextos que negam vínculo, presença e escuta.

O que estamos chamando de ansiedade generalizada talvez seja, em grande parte, uma resposta apelativa em um mundo doente. Um mundo que exige produtividade contínua, disponibilidade permanente e felicidade exibível.

Não é por acaso que o trabalho adoece. Não apenas pelo excesso de horas, mas pela lógica que o atravessa. Trabalhamos conectados, avaliados, comparados. O descanso também virou conteúdo. Até o luto precisa ser esteticamente aceitável. A dor, quando não engaja, é descartada. Hans Jonas, ao pensar a ética da técnica, alertava que o poder tecnológico avança mais rápido do que nossa responsabilidade moral.

Criamos ferramentas capazes de moldar o comportamento humano em escala massiva, mas seguimos fingindo que seus efeitos são apenas colaterais. Não são. A dopamina barata do celular e outros dispositivos digitais é funcional ao lucro e deprimente para a mente. Quanto mais ansiosos, mais conectados; quanto mais conectados, mais previsíveis; quanto mais previsíveis, mais lucrativos.

Essa lógica que já atravessa o corpo. Vive um tempo de exibicionismo voyeur halterofilista: corpos expostos, treinados, filtrados, esvaziados de história. Um culto ao corpo acéfalo sem memória, sem finitude, sem sofrimento. Um corpo que precisa performar saúde enquanto adoece em silêncio. O adoecimento real não viraliza. A exaustão não é bonita. A tristeza profunda não cabe no feed.

Há algo de antigo nisso tudo. Na história humana, sempre houve ídolos. Sempre houve rituais. A diferença é que agora o templo cabe no bolso e o sacerdote somos nós mesmos. A vigilância deixou de ser externa. Nós nos vigiamos, nos corrigimos, nos cancelamos.

Lembro das reflexões de Lepargneur quando aborda o enfermo não como objeto de intervenção, mas como sujeito situado, atravessado por sentido, limite e esperança. O sofrimento, ali, não é falha a ser eliminada rapidamente, mas linguagem. Algo a ser escutado. Hoje fazemos o oposto: silenciamos o sofrimento com notificações.

Na perspectiva da psicologia e do ensino, há muito se reconhece que não existe aprendizagem sem corpo, sem tempo, sem presença. A fragmentação constante da atenção não apenas prejudica o aprendizado ela compromete a própria experiência de ser. Estamos sempre em outro lugar, mesmo quando estamos aqui.

Por isso faz tanto sentido a afirmação do professor Dr. Francisco Alvarez quando diz:

“A boa nova da saúde parte sempre do ser humano, de baixo, e o alcança em qualquer situação que se encontre. É justamente a boa nova porque se situa ao mesmo tempo no ponto de emergência do humano, das pequenas expectativas e das grandes esperanças. Nada descuida e nem despreza”.

Essa frase desmonta a lógica dominante. Saúde não nasce de cima, dos algoritmos, dos gurus digitais ou dos influenciadores da felicidade. Ela nasce do chão da experiência humana, do limite, da escuta, do vínculo. E isso o capitalismo da plataforma não sabe monetizar. Talvez por isso nos mantenha permanentemente inquietos. A inquietação move o consumo. O silêncio, não.

Escrevemos isso porque também estamos implicados. No deslizo do dedo na tela sem perceber o tempo passar. Também sentimos o incômodo de não ser vistos. A crítica à idolatria digital não é um convite ao retorno romântico ao passado, nem à demonização da tecnologia. É um chamado à responsabilidade. À pergunta incômoda: a quem serve esse modo de vida?

Enquanto não enfrentarmos essa pergunta, seguiremos tratando sintomas nomofobia, ansiedade, depressão sem tocar na ferida. Seguiremos chamando de transtorno aquilo que é, em grande parte, consequência de um mundo que transformou atenção em lucro e pessoas em perfis.

Talvez o gesto mais radical hoje não seja postar mais, mas recuperar a experiência de existir sem plateia. E isso, paradoxalmente, é profundamente provocativo.

Assim como já advertia Friedrich Nietzsche ao diagnosticar o niilismo cristão, não que concorde com essa corrente, como esvaziamento dos valores vitais, mas, cabe hoje perguntar se não estamos ingressando em uma nova configuração do niilismo: um niilismo humano, no qual a subjetividade é progressivamente anulada pela captura da vida psíquica nas dinâmicas digitais causando a doença generalizada na saúde mental.

Marcos Aurélio Trindade é filósofo, psicólogo com especialidade em saúde mental e psicanálise, Mestre em Bioética e Membro da Sociedade Brasileira de Bioética.

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Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato

Editado por: Elis Almeida

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