Por Marcos Aurélio Trindade
Em 2015, ao lado de um amigo, o filósofo Keller Reis, na faculdade de filosofia, ensaiamos uma reflexão ainda sem nome definido sobre o mal-estar produzido pela aceleração técnica e publicamos na revista Filantropia. Surgiu a ideia do termo “toxicotecnologia”. O que seria esse silogismo? É a toxicidade no mundo virtual. Falávamos da modernidade e de seus efeitos colaterais.
Hoje, percebo que aquele diagnóstico ficou no passado. Não estamos mais na modernidade: habitamos o transumanismo, ou seja, a imersão na virtualização inevitável.
O transumanismo, defendido por autores como Nick Bostrom e Ray Kurzweil, propõe ampliar as capacidades humanas por meio da tecnologia. Não se trata apenas de próteses ou algoritmos, mas da promessa de superação das limitações biológicas. A fronteira entre homem e máquina dissolve-se. O corpo torna-se plataforma; a mente, interface.
Não escrevo contra o progresso. Escrevo sobre seus efeitos psíquicos e simbólicos. O filósofo alemão Martin Heidegger advertia que: a essência da técnica não é técnica: é um modo de desvelar o mundo. Quando tudo se converte em recurso disponível, inclusive o próprio humano, instala-se uma mudança silenciosa na maneira de existir. O que antes era experiência torna-se dado; o que era silêncio torna-se notificação.
A toxicotecnologia, como penso, não é a tecnologia em si, mas sua assimilação acrítica e massiva. É o silogismo social segundo o qual se é novo, é melhor; se é digital, é inevitável; se é inevitável, deve ser incorporado. O problema não está no dispositivo, mas na mentalidade que o envolve.
Na filosofia da ciência semiótica, Charles Sanders Peirce falava da profusão de signos que compõem a realidade. Vivemos hoje numa atmosfera saturada de signos digitais: imagens, áudios, mensagens, métricas que disputam incessantemente nossa atenção. A mente, evolutivamente moldada para ambientes de escassez informacional, encontra-se submersa em excesso. O resultado é dispersão, ansiedade e fadiga cognitiva.
Estudos em psicologia e neurociência apontam aumento de sintomas associados à depressão, transtornos de ansiedade e déficit de atenção em contextos de hiperconectividade. A lógica da recompensa imediata curtidas, visualizações, notificações ativas circuitos dopaminérgicos de forma intermitente, semelhante a mecanismos de reforço variável. Não é teoria conspiratória; é arquitetura comportamental mental.
Fenômeno cultural
O transumanismo celebra a fusão homem-máquina como horizonte emancipador. Entretanto, pensadores críticos como Byung-Chul Han descrevem uma sociedade do desempenho, na qual o sujeito explora a si mesmo sob a aparência de liberdade. Conectado permanentemente, ele não descansa; apenas alterna plataformas. A imersão constante cria a sensação de participação total, mas também de exaustão contínua.
Se na modernidade havia o ideal de progresso racional, no transumanismo há a crença na atualização permanente do humano. O que não se adapta torna-se obsoleto. A identidade passa a ser construída em fluxos digitais, e a validação social depende de métricas públicas. O “eu” torna-se projeto editável.
Não afirmo que a sociedade esteja condenada. Afirmo que adoece quando não reflete sobre o ambiente que constrói. A toxicotecnologia é um fenômeno cultural: emerge quando a técnica deixa de ser instrumento e passa a organizar o imaginário coletivo. Quando estar offline parece ausência ontológica. Quando o silêncio se torna ameaça.
O desafio não é abandonar a tecnologia, mas reinseri-la numa ética da crítica. Acredito que o verdadeiro avanço esteja em afirmar nossas capacidades e em recuperar a técnica para o bem. Entre a promessa de superação biológica e o cansaço psíquico generalizado, é preciso perguntar: que tipo de humano queremos potencializar?
Se o transumanismo aposta na expansão, talvez nossa tarefa filosófica seja a contenção, não para negar o futuro, mas para que o futuro não nos consuma.
Marcos Aurélio Trindade é mestre em Bioética e membro da Sociedade Brasileira de Bioética.
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Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato

