Olá!
O governo quer estar do lado dos brasileiros. E ninguém quer estar do lado dos Bolsonaros. Só Tarcísio.
.À espera de Tarcísio. Às vésperas do desfecho do julgamento golpista, a situação não poderia ser pior para o clã Bolsonaro. O bolsonarismo viu sua bala de prata, o tarifaço de Trump, atingir o próprio pé e esvaziar parte do seu discurso e da base eleitoral de fora do núcleo duro. Com uma condenação inevitável, ainda que com algumas divergências entre os ministros do STF, Bolsonaro depende do sucesso das manifestações de 7 de setembro para ter alguma sobrevida, ainda que restrita ao discurso de perseguição e de vitimismo. Mas na vida real da política, o centrão não vê a hora de se livrar da sombra incômoda de Jair e filhos. Infelizmente, o encolhimento do bolsonarismo não significa o fim da extrema direita, como se vê nos discursos de pré-candidatos como Romeu Zema e Ronaldo Caiado. E do Planalto ao bolsonarismo, todo mundo já sabe que o candidato do antipetismo é Tarcísio de Freitas, daí o chilique dos filhos de Jair e até o plano de Eduardo em concorrer à Presidência por outra legenda, abandonando o PL. O próprio Tarcísio já se comporta como candidato presidencial, mesmo que desconverse ou fale em reeleição. Ainda que o Planalto também se preocupe com a possibilidade de Tarcísio se apresentar na eleição como “uma página em branco”, há quem veja a candidatura de Tarcísio como uma boa notícia, tirando o candidato mais forte da disputa paulista e abrindo uma possibilidade da centro-esquerda chegar ao Palácio dos Bandeirantes pela primeira vez, mesmo que nem Geraldo Alckmin, nem Fernando Haddad pareçam muito dispostos ao desafio. Só quem não entendeu que ficar eternamente à sombra dos Bolsonaros não é a melhor tática é o próprio Tarcísio. Ao mesmo tempo em que aumentou sua aproximação com o agronegócio e a Faria Lima, Tarcísio não deixou de fazer juras de lealdade ao ex-capitão e continua defendendo a anistia. É claro que disso depende a captura dos votos da base bolsonarista. Mas às vezes Tarcísio parece esquecer que sem ganhar o eleitor de centro não há chance de vitória. E a direita já entendeu isso, como reclamou Marcelo Godoy, em um Estadão sedento por fazer campanha para ele: Tarcísio virou o boneco de Bolsonaro.
.Jogo duplo. Agora, a única serventia que o bolsonarismo tem é ser usado pelo centrão para cozinhar o governo em banho-maria dentro do Congresso. Foi assim que a semana começou com a ameaça de Hugo Motta pautar em plenário a PEC das Prerrogativas que altera regras sobre imunidade parlamentar e tira o monopólio do STF para julgar congressistas. A discussão foi uma perda de tempo e não avançou, em partes porque o apetite do centrão pela impunidade passou do limite, propondo regras que tornariam impossível um parlamentar responder por qualquer coisa, constrangendo os mais moderados e tornando efetivo o bloqueio da base governista. Na prática, só serviu para demonstrar a perda de autoridade de Hugo Motta e atrasar a prioridade número um do governo, a isenção do Imposto de Renda para pessoas que recebem até R$ 5 mil e redução da alíquota para quem recebe até R$ 7 mil. O problema é que, agora, a oposição ameaça aprovar a isenção sem a contrapartida da taxação dos super-ricos – os que ganham acima de R$600 mil por ano – prevista no projeto original. A arapuca obrigaria o governo a vetar seu próprio projeto em virtude da lei de responsabilidade fiscal. O cenário retrata as tensões eleitorais que contaminam os trabalhos no Congresso. Depois do puxão de orelha dado por Lula no União e no PP, é possível que o desembarque do governo comece em breve, o que diminuiria também os instrumentos de barganha à disposição do Planalto, compensados apenas pelo olhar de lince de Flávio Dino sobre a distribuição de emendas. Isso justamente num momento em que a CPMI do INSS está iniciando com a presidência e a relatoria nas mãos da oposição, além do inquérito no STF ter passado para as mãos de André Mendonça. O governo resolveu ampliar sua bancada dentro da CPMI, sob o comando de Paulo Pimenta (PT-RS), ao diagnosticar omissões e traições vindas de aliados. Por hora, um acordo garantiu uma vice-presidência mais favorável ao Planalto, a ampliação da investigação para o período Temer-Bolsonaro e o bloqueio à convocação do irmão de Lula, envolvido com uma das entidades investigadas. E, enquanto todos os olhos estão voltados para o Congresso, ninguém lembra de perguntar a Gabriel Galípolo e ao Banco Central porque os juros continuam nas alturas se a inflação brasileira está controlada.
.Um mundo de problemas. É verdade que Lula recuperou a autoestima brasileira depois de enfrentar o tarifaço de Trump. E, convenhamos que o novo lema do governo – “Do lado do povo brasileiro” – é bem melhor do que o conciliador e burocrático “União e reconstrução”. Mas, se enfrentar um gigante global ajudou o presidente a recuperar a popularidade, também está cobrando o seu preço. Assim, parte da representação brasileira pode ter seu visto barrado pelo governo dos Estados Unidos na próxima Assembleia Geral da ONU, que ocorrerá em Nova York e marcará o aniversário de 80 anos da instituição. A grande vantagem da guerra comercial de Trump foi obrigar o Brasil a aproximar-se de outros parceiros comerciais, como é o caso do México, para onde uma comitiva brasileira foi enviada recentemente sob a liderança de Alckmin. Porém, Trump não é a única fonte de instabilidade global. O Itamaraty também vive um aumento das tensões com Israel desde que o governo brasileiro decidiu denunciar o genocídio em Gaza e os israelenses descambaram para a agressão pública e o rompimento de relações diplomáticas. Mas a verdade é que, mesmo quando joga em casa, as relações externas têm sido uma pedra no sapato do governo, vide o fracasso da agenda ambiental. No caso da COP 30, além do problema da especulação no preço das hospedagens que tem gerado constrangimentos internacionais, também há uma autossabotagem de fundo: o governo voltou a subsidiar a geração de energia em termelétricas que queimam combustíveis fósseis depois de uma década. É claro que uma contradição desse tamanho não passará despercebida no cenário internacional nem mesmo com o contorcionismo linguístico da Petrobrás com seu novo slogan – “transição energética justa”- que pretende passar pano para a exploração petroleira.
.Ponto Final: nossas recomendações.
.As digitais da Microsoft no genocídio palestino. Como a nuvem da Microsoft é utilizada pelas forças armadas israelenses para espionar seus inimigos. No Outras Palavras.
.De queridinha da mídia a persona non grata: a jornada de Greta Thunberg. A Revista Ópera mostra como e porque Greta foi banida pela grande mídia global.
.Nazismo sem moderação. Grupo de pesquisa da FGV mapeou mais de 35 mil brasileiros participando de canais nazistas no Telegram. No Intercept.
.Eduardo Bolsonaro é um projeto de Steve Bannon. Na Pública, Natalia Viana mostra como Eduardo vai se tornando o principal articulador da extrema-direita no continente.
.Pequenas cidades, grandes estragos. A Piauí mapeia o impacto do tarifaço de Trump no setor exportador das pequenas cidades do Brasil.
.Crimes na ditadura: entenda por que indígenas reivindicam uma nova Comissão da Verdade. Com mais de 8.000 vítimas contabilizadas, muito acima dos números oficiais, povos originários lutam por memória, verdade e justiça.
.Descubra sua posição no ranking da pirâmide de renda do Brasil. Plataforma desenvolvida pelo FiscalData permite calcular quem está acima e abaixo de você na hierarquia de renda.
.Mônica de Menezes: a primeira diplomata negra brasileira. No podcast “Conversa de Portão”, a história da primeira diplomata negra brasileira em pleno final da ditadura.
Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.