Boletim Ponto

O Ponto é editado por Lauro Allan Almeida e Miguel Enrique Stédile, do Front – Instituto de Estudos Contemporâneos, e é publicado todas as sextas-feiras.

Botando a casa em ordem

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A mudança na correlação de forças da política ajudou ainda o governo a finalmente falar grosso com o centrão

 A fase “lulinha paz e o amor” com o centrão acabou.

.O Lula do velho testamento. As mobilizações nas ruas serviram para garantir a isenção do Imposto de Renda, barrar a anistia e a PEC da Blindagem e ajudar o governo e a esquerda a retomarem a pauta de soberania. A mudança na correlação de forças da política ajudou ainda o governo a finalmente falar grosso com o centrão. Mais do que devolver o troco da derrota da MP do IOF na semana passada, o tom duro também faz parte da estratégia do Planalto de aproveitar o enfraquecimento e a divisão na direita, com a ajuda de Eduardo Bolsonaro e Tarcísio, para dobrar a aposta sobre o palanque em 2026. Além de bancar os ministros que não aceitaram o ultimato do PP-União Brasil, o governo baixou a lei da obviedade do “quem vota contra, não tem cargo”. A limpa começou pela Caixa Econômica Federal, Codevasf, Iphan, DNIT e Ministério da Agricultura e atingiu não apenas o PP e o União Brasil, mas infiéis do MDB, PSD e do Republicanos de Tarcísio e Hugo Motta. E não deve parar, porque somados, os partidos do centrão acumulavam cerca de 380 cargos no governo. O primeiro a entender o recado foi Hugo Motta, que não só engoliu sapo ouvindo Lula dizer que “esse é o Congresso de mais baixo nível”, como manteve o discurso de unidade e elogios ao governo, de olho na redistribuição dos cargos que ficaram vagos. Davi Alcolumbre, em plena campanha para emplacar Rodrigo Pacheco no STF, também entendeu o recado e recuou na votação dos vetos do PL da Devastação até encontrar um desenho que não pareça que o governo perdeu e não pareça que o agronegócio venceu. Ou pelo menos que fique para depois da COP30 para evitar constrangimentos. Mas que ninguém espere dias mais tranquilos. É possível que o governo aproveite a maré favorável para avançar outra pauta popular, a redução da jornada de trabalho ou a escala 6×1, enquanto se prepara para desarmar a bomba do orçamento de 2026, voltando à ofensiva contra bets e fintechs. E a fase de popularidade alta e ofensiva na política pode ganhar mais uma ajuda do STF, com 40 mil emendas – 40 mil! – sob suspeitas de irregularidades no radar da Corte.

.Friends. Enquanto o governo avisava o centrão que não ia mais aceitar uma relação tóxica, os bolsonaros descobriram pela tevê que o romance com Trump já era. No encontro entre o chanceler Mauro Vieira com Marco Rubio ninguém falou em Bolsonaro, anistia ou qualquer pauta da chantagem que desencadeou o tarifaço. Antes mesmo do encontro, até parlamentares bolsonaristas já contavam que as sanções e as revogações de vistos devem cair.  Na prática, prevaleceu o pragmatismo. A reunião não definiu nada, além de um possível encontro presencial de Lula e Trump ainda em novembro, mas, simbolicamente, não foi pouco. O canal de diálogo foi reaberto, o Planalto excluiu os bolsonaros da equação e a disposição dos EUA em conversar já é uma sinalização de que as tarifas podem ser revistas. Mas, para isso, o Itamaraty vai precisar oferecer algo que publicamente aparente ser uma vitória para Trump. No pacote de negociações, poderiam entrar as terras raras ou uma mudança na relação com as big techs. Não à toa, o Planalto acabou de instalar o Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM), que estava parado desde 2022, e o ministro de Minas e Energia Alexandre Silveira deve se encontrar em breve com o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright. De qualquer forma, o tom no Planalto e no Itamaraty é de cautela e sem cantar vitória antes da hora. A escalada da ofensiva de Trump contra a Venezuela pode ser um obstáculo para as negociações, já que mesmo que as relações entre Caracas e Brasília não sejam as mesmas de outros tempos, o Brasil não aceitaria a invasão militar do vizinho. E, por via das dúvidas, o país está aproveitando o impulso recebido pela tarifaço para apostar em novos mercados na Ásia, buscando outros parceiros para além da China, como a Ìndia.

.O ungido. Se o Advogado Geral da União Jorge Messias for confirmado como a décima primeira indicação de Lula para o STF, ele terá protagonizado uma narrativa típica dos cultos evangélicos em que, ao final, o humilde e leal é exaltado. De desconhecido assessor da presidência, ele foi popularizado e atacado como o “Bessias”, citado por Dilma no telefonema grampeado e difundido pela Lava Jato para impedir a nomeação de Lula como ministro no auge da crise do impeachment em 2016. Preterido na disputa pela vaga que terminou bem ocupada por Flávio Dino, Messias se tornou, na prática, o substituto de Dino como referência para as questões jurídicas do governo, com uma postura de eficiência e discrição que ganharam a confiança de Lula. Messias ainda tem a seu favor o fato de ser evangélico e a sua escolha sinalizaria, às vésperas de um ano eleitoral, para um público com o qual o governo segue com dificuldades em estabelecer pontes. Ainda que seu nome não seja unanimidade entre os parlamentares evangélicos, há quem espere que se repita a trajetória de Cristiano Zanin, pendendo para o conservadorismo com a toga de ministro, ou que prevaleça o “espírito cristão”. Provável defensor de uma postura laica no tema do aborto, Messias é mais conservador sobre a aplicação da CLT para entregadores de aplicativos e crítico das casas de apostas. Por mais que Lula diga em público que sua escolha será técnica, até as emas do Palácio da Alvorada sabem que as nomeações para o STF são políticas. E aí talvez esteja o maior obstáculo para a unção de Messias. Para superar a frágil governabilidade pós-bolsonarismo, Lula se apoiou no STF, leia-se Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, que teriam preferência pelo ex-presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, favorito também de Davi Alcolumbre, de quem também depende uma tramitação rápida e tranquila da indicação no Senado ou um longo chá de cadeira. E por ser política, há também pressões de fora do Legislativo e do Judiciário. Em 134 anos de história, apenas três mulheres foram indicadas ao STF, nenhuma delas negra, argumento em que o Movimento Mulheres Negras Decidem baseou-se para enviar uma lista de nove juristas negras como sugestões para a vaga.

.Ponto Final: nossas recomendações.

.PF e órgão que gere prisões compram armas de Israel durante genocídio palestino. Os milhões que o governo brasileiro pagou por armas israelenses desde o início do genocídio em Gaza. No Alma Preta.

.EUA gastaram milhões para cooptar PF há 20 anos; processo não foi julgado. A Agência Pública resgata os depósitos em dinheiro da CIA, o FBI, o DEA na conta de delegados brasileiros e que permanece sem julgamento.

.Pregadores evangélicos dos EUA ligados a Trump invadem o Brasil. Quem são os pastores trumpistas que estão no Brasil para influenciar os líderes evangélicos. No Intercept.

.Derrota do governo em MP do IOF esconde articulação do agro para barrar imposto sobre bets. Como o lobby da bancada ruralista e do Instituto Pensar Agro ajudaram a derrubar a taxação dos super-ricos e isentar mais uma vez o agronegócio. Na Pública.

.As corporações querem professores-robôs. Roberto Leher e Amanda Moreira da Silva escrevem sobre como a financeirização da educação e o ensino a distância ampliaram a precarização da docência. No Outras Palavras.

.Pré-COP em Brasília serviu para sentir o clima: foi cordial, mas com nuvens pesadas no ar. A Sumaúma mostra quais serão os principais obstáculos para os acordos da COP 30 em Belém.

Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

Editado por: Nathallia Fonseca

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