Boletim Ponto

O Ponto é editado por Lauro Allan Almeida e Miguel Enrique Stédile, do Front – Instituto de Estudos Contemporâneos, e é publicado todas as sextas-feiras.

Jair preso, centrão às soltas

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A dúvida agora é sobre o poder da família definir um sucessor e sobre o próprio futuro do bolsonarismo


Na era pós-Bolsonaro, o centrão é a direita sem sobrenome no Congresso.

.Mercúrio retrógrado. Definitivamente, os astros não estão favoráveis a Bolsonaro e seu entorno. Jair foi preso e condenado a 27 anos de prisão. Eduardo se tornou réu e Flávio é investigado pela PF. Alexandre Ramagem foi condenado a 16 anos de prisão e fugiu para os Estados Unidos. Mais importante e simbólico que isso, 17 militares já foram condenados no STF por tentativa de golpe de Estado, incluindo os generais 4 estrelas, Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira, que foram presos.

E, como era de se esperar, os tigrões viraram gatinhos perante a Justiça, pagando de velhinhos enfermos e mentalmente confusos para tentar uma prisão domiciliar, uma redução de pena ou um futuro indulto. O problema é que o vitimismo também tem seu custo, já que fraqueza e covardia raramente são virtudes políticas.

Ainda que nas redes sociais haja mais críticas à prisão de Bolsonaro que menções de apoio, a confusão, o pessimismo e a apatia tomou conta dos apoiadores do ex-capitão. A dúvida agora é sobre o poder da família definir um sucessor e sobre o próprio futuro do bolsonarismo.

Alguns consideram que Jair não foi mais que um acidente de percurso para uma direita em crise e que o mais provável é que o bolsonarismo deixe de existir. Outros acreditam que a direita vai continuar distante de qualquer centro e que todos os candidatos a substituir Bolsonaro passem longe da moderação. Mas, antes disso, a direita precisa definir um nome para 2026.

O centrão vê uma oportunidade de se livrar pelo menos dos filhos de Jair, desmoralizados depois de tantas trapalhadas, e aumenta as expectativas para a indicação de Tarcísio de Freitas. O problema é que o governador de São Paulo continua hesitante à espera da unção do chefe que nunca chega.

Em compensação, para evitar seu próprio ostracismo, Jair prefere ser sucedido pelo filho Flávio, que se tornou inviável pela própria incompetência, emperrando uma definição e elevando os riscos de uma divisão da direita. Já o cacique do PL, Valdemar da Costa Neto, acredita que a indicação de Michelle Bolsonaro resolveria o impasse.

A prisão do ex-capitão também deve estremecer os palanques regionais da direita, acirrando a disputa sobre quem são os legítimos herdeiros do bolsonarismo nos pleitos estaduais. A única coisa que não é surpreendente é que a prisão de Bolsonaro tenha sido usada pelo centrão para ressuscitar a pauta da anistia e atrapalhar, mais uma vez, a vida do governo no Congresso.

.O nome do jogo é Master. As ausências de Davi Alcolumbre e Hugo Motta na sanção da isenção do Imposto de Renda, maior fato político do Legislativo e do Executivo no ano, são a prova de que a declaração de guerra do presidente do Senado não é mero teatro. A artilharia de Alcolumbre contra o Planalto inclui pautas-bombas com gastos orçamentários, o PL da devastação e dar pouco tempo para o tradicional beija-mão do indicado ao STF nos gabinetes do Senado antes da sabatina.

Alcolumbre já havia amargado uma derrota semelhante na época de Bolsonaro, quando preferia – vejam vocês – Augusto Aras para a vaga que ficou com André Mendonça no Supremo. É verdade que Jorge Messias não tem muita simpatia no Congresso e isso se deve ao temor de que ele se junte a Flávio Dino na caçada às emendas.

O jogo é arriscado porque, se Messias não for aprovado, não significa que Lula terceirizaria a indicação ao STF para Alcolumbre. E, se for aprovado, Alcolumbre engoliria uma grande derrota.

Mas o verdadeiro motivo da insatisfação do presidente do Senado está nas páginas policiais e no escândalo do Banco Master. Entre as operações suspeitas trazidas à tona pela PF está o aporte de R$ 400 milhões pelo Amapá Previdência (Amprev), presidido pelo aliado de Alcolumbre, Jocildo Lemos, feita mesmo após os alertas do Banco Central e que deixou aposentados e pensionistas sem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos.

Efetivamente, a ação de Alcolumbre no Senado abre possibilidades para os bolsonaristas e os ruralistas – que são a mesma coisa – aproveitarem para desgastar o governo. Já para Hugo Motta, o tumulto seria uma estratégia para reaproximar-se com o centrão e garantir os interesses do grupo. Mas, neste caso, a ponte entre o nepo baby paraibano e o Planalto já está em chamas há muito tempo, o que aliás se tornou uma oportunidade para Arthur Lira voltar a ser o interlocutor privilegiado entre o Congresso e o governo.

O problema é que até o final do ano ainda há projetos importantes para o governo a serem votados, como a tributação das bets e fintechs, a cobrança dos devedores contumazes, o PL antifacção, a PEC da Segurança Pública e a LDO. E tudo isso faltando menos de trinta dias para o recesso.

Por ora, Lula decidiu manter a cautela, apostar na capacidade de articulação de Gleisi Hoffmann e, provavelmente, do próprio Lula para garantir a aprovação de Messias e pacificar as relações, contando que a melhora nos índices de aprovação do governo em véspera de ano eleitoral ajude a convencer os parlamentares.

.Ponto Final: nossas recomendações.

.COP30 termina sem citar combustíveis fósseis e reacende críticas à falta de compromisso global. No Brasil Repórter, Isabel Harari traça um panorama do fracasso da cúpula.

.A verdade sobre o protesto da “Geração Z” mexicana. Por trás de um suposto movimento da juventude está o que há de mais arcaico na política Mexicana. Na Jacobin.

.Chile: por que a ultradireita sai na frente? O governo morno de Boric e a aposta no medo e no ódio aos imigrantes dão vantagens para a direita. No Outras Palavras.

.Por envolvimento com drogas, pessoas negras ficam um ano a mais presas do que as brancas no RJ. O Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) comprova a seletividade da segurança pública no Rio de Janeiro. No Brasil de Fato.

.A cruz, a cerca e o fuzil. Roberto Uchoa alerta para o processo de unificação das bancadas ruralista, da bala e da bíblia. No le Monde.

.A fascinante proposta do Emprego Garantido. No Outras Palavras, Pavlina Tcherneva discute a ideia do trabalho como direito universal garantido pelo Estado.

.O espetáculo por trás das grades: como ‘Tremembé’ reforça estereótipos do ‘crime feminino’ e camufla o colapso do sistema penal brasileiro. Artigo do Brasil de Fato analisa o sucesso do seriado baseado no sensacionalismo e na individualização.


*Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Geisa Marques

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