Boletim Ponto

O Ponto é editado por Lauro Allan Almeida e Miguel Enrique Stédile, do Front – Instituto de Estudos Contemporâneos, e é publicado todas as sextas-feiras.

Black Fraude!

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No tiroteio entre as instituições, é o Planalto quem mais perde, seja economicamente, ao manter a cracolândia das emendas, seja nas derrotas políticas

Na casa do povo, a promoção cai sempre nas mãos do centrão.

.Chama o Hugo. Pode-se procurar todos os motivos possíveis para o rompante que levou Hugo Motta a colocar em votação o PL da Anistia: pagar o preço cobrado por Flávio Bolsonaro, fustigar o governo, alinhar-se com o centrão, demonstrar força, etc. Mas, como ficou evidente na conversa entre parlamentares flagrada pelo O Globo, a indignação com o atraso no pagamento de emendas impositivas foi o estopim para a pauta-bomba. O saldo incluiu ainda a tentativa de cassação do deputado Glauber Braga (PSol-RJ) que, depois da repercussão negativa do arroubo autoritário de Motta, reduziu-se à sua suspensão, e na manutenção do mandato de Carla Zambelli. Portanto, não será surpresa se a Câmara salvar o mandato de Eduardo Bolsonaro logo em seguida. Além de uma provável redução da pena de Jair Bolsonaro à meros dois anos de prisão. Aliás, a votação da anistia também comprovou que a base governista é uma fantasia. Fora PT, PCdoB e PSol, o governo não pôde contar com ninguém, nem mesmo com PSB e PDT. É verdade também que o surto autoritário de Hugo Motta revela mais sobre a sua debilidade do que propriamente sua força. A movimentação na Câmara mexe ainda com outras peças no tabuleiro político. No STF, Flávio Dino anunciou que já há condições para o STF julgar as ações sobre as emendas impositivas e Alexandre de Moraes fez questão de declarar a inconstitucionalidade da decisão da Câmara no caso Zambelli. No Senado, foi priorizada a votação do PL Anti Facção e a ação dos governistas deve bloquear o debate sobre a anistia até o ano eleitoral, apesar da pressa de Alcolumbre em levar adiante a pauta. É verdade que os senadores estavam em rota de colisão com o Supremo desde a semana passada e que a aprovação do Marco Temporal pelo Senado, contrariando o entendimento do STF, joga mais lenha na fogueira, mas o recuo das duas partes no tema do impeachment dos ministros pode aliviar a tensão. O acordo dá seis meses para os senadores elaborarem uma nova proposta e já há quem queira incluir mais duas cadeiras no STF indicadas pelo Congresso. No tiroteio entre as instituições, é o Planalto quem mais perde, seja economicamente, ao manter a cracolândia das emendas, seja nas derrotas políticas. E o próximo teste de forças deve ocorrer em torno da redução da jornada 6X1.

.Patinho feio. O tumulto não está só no Congresso. 2026 está chegando e as eleições são logo ali. Depois do ensaio do PL de lançar Michelle Bolsonaro à sucessora do marido preso, veio a facada nas costas da esposa, do PL e do centrão com o lançamento da pré-candidatura do filho Flávio. Mas todo mundo sabe que esta indicação só se justifica pelo instituto primitivo de sobrevivência do chefe do clã. Afinal, o único trunfo de Flávio Bolsonaro é não ser nenhum de seus irmãos. O centrão, que já vinha batendo cabeça devido às hesitações de Tarcísio de Freitas, só tem a lamentar. Já o governo, que luta contra a queda de popularidade, pode comemorar até uma impensável possibilidade de vitória de Lula no primeiro em 2026 e se movimenta para ampliar o leque de aliados. Mas todo mundo sabe que a candidatura de Flávio é apenas uma moeda de troca, como ele mesmo fez questão de lembrar, e o jogo da sucessão da direita deve voltar a se abrir. A dúvida é sobre o tempo para resolver esse imbróglio. De sua parte, a estratégia de Tarcísio é continuar afirmando sua lealdade ao chefe, evitando repetir o mesmo erro cometido por João Dória em 2021, quando entrou em conflito aberto com Bolsonaro. Porém, sabendo que tem apoio do centrão e da bancada evangélica, até o submisso governador de São Paulo alertou que Flávio Bolsonaro “não é o único candidato da direita”, abrindo espaço para a concorrência e para si mesmo caso o herdeiro do pai insista em não sair de cena. Já Ratinho Júnior, cuja rejeição nas pesquisas de opinião também é baixa, vê no lançamento da candidatura de Flávio uma oportunidade de apresentar-se como uma alternativa de centro num cenário eleitoral provavelmente polarizado. Aliás, o governador do Paraná começou a ser visto como um possível Plano B por Gilberto Kassab (PSD), que prefere manter distância de Flávio Bolsonaro, e até por Ciro Nogueira (PP). Mas, por enquanto, Ratinho Júnior deve seguir jogando parado e evitando polêmicas até definir seu sucessor ao governo do estado.

.Ponto Final: nossas recomendações.

.Terras raras e soberania: o elo invisível entre ciência, indústria e poder. A falta de domínio tecnológico e o processamento final reduzem o Brasil a simples exportador. No A Terra é Redonda.

.Lobby das big techs faz promessas irreais ao estimular corrida por data centers na América Latina. Como o Brasil vai entregar água e energia sem receber empregos das big techs. No Aos Fatos.

.A Maré de Raiva da extrema-direita latino-americana. Vijay Prashad escreve sobre os dilemas da esquerda do continente diante da ascensão da extrema-direita. No GGN.

.Ciclone extratropical: fenômenos ‘devastadores’ no Brasil são culpa das mudanças climáticas? Climatologistas alertam para o aumento de frequência e intensidade de fenômenos extremos. Na BBC.

.Banco Master: golpe revela falhas sistêmicas em regulação e controle do setor financeiro. Como o Fundo Garantidor virou o avalista de títulos podres graças à falta de fiscalização. Na Agência Pública.

.‘Fomos abandonados’: desabrigados pela enchente relatam insegurança e temem despejo de casas temporárias. Quase dois anos depois da enchente em Porto Alegre, o cotidiano de insegurança dos atingidos alojados em casas temporárias. No Sul 21.

.A falsa magia: como inventaram um parque da Disney em Curitiba. Como a prefeitura de Curitiba inaugurou um parque fake da Disney usando a Lei Rouanet. No Plural.

Editado por: Nathallia Fonseca

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