Boletim Ponto

O Ponto é editado por Lauro Allan Almeida e Miguel Enrique Stédile, do Front – Instituto de Estudos Contemporâneos, e é publicado todas as sextas-feiras.

Um olho em Trump, outro no Master

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Fraudes no Banco Master podem chegar a R$ 12,2 bilhões.
Fraudes no Banco Master podem chegar a R$ 12,2 bilhões. | Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

Não fosse o Banco Master e Donald Trump, certamente Lula estaria se preparando para a corrida eleitoral num cenário bastante favorável

Olá, Lula calcula os estragos que podem vir de fora e de dentro. Isso que o Congresso está em recesso…

.Caixa de Pandora. Até agora não está claro quem ganha e quem perde com o escândalo do Banco Master. A comparação com a Operação Lava Jato parece inevitável, no entanto há diferenças importantes: no caso do Master, o envolvimento é mais individual e menos institucional e a crise, até agora, não atingiu tanto o Executivo. Além do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, quem está no olho do furacão é o STF. À denúncia de que Alexandre de Moraes teria participado de uma reunião na casa de Daniel Vorcaro, soma-se a forte desconfiança de que Dias Toffoli esteja conduzindo a investigação sobre o Master em benefício próprio e de seus familiares, em nome do STF. Porém, seus colegas de toga não estão dispostos a intervir diretamente. Nem mesmo a tentativa do presidente do STF, Edson Fachin, de propor um código de conduta da Corte deve prosperar. É que, para a maioria dos ministros, o melhor meio de estancar a crise é blindar Toffoli, aguardar que ele abra mão do caso e manter a coesão do Supremo. Para isso, gostariam também do apoio explícito de Lula, que faz questão de não se envolver. De olho num possível desgaste eleitoral, a estratégia de Lula é afirmar que não tem nada a ver com o assunto e que não teme qualquer investigação. Mas, até onde se sabe, a atuação do Master era muito capilarizada e pode respingar no núcleo baiano do PT. Para a Ministra Gleisi Hoffman, as tentativas de colar o escândalo no governo e no próprio Lulanão vão prosperar. Porém, a base governista ainda não acertou os ponteiros: contrariando o discurso do presidente, o líder do governo na Câmara, José Guimarães, rechaça uma CPI do Master porque ela seria um “palanque para a oposição”, enquanto o líder no Senado, Randolfe Rodrigues, é favorável à instalação. E também tem gente do centrão dando para trás na CPI. Duas alternativas permitiriam ao governo manter certo controle da agenda sem a pecha de esconder a sujeira debaixo do tapete: uma seria levar o caso Master para a CPI do Crime Organizado, sob o comando do senador Alessandro Vieira (MDB-SE); outra seria deixar o caso nas mãos da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, sob a tutela do experimentado senador Renan Calheiros (MDB-AL). Seja como for, todos os caminhos da crise levarão ao Senado e a Davi Alcolumbre assim que o recesso parlamentar terminar. Curiosamente, em meio ao temporal, dois responsáveis diretos por permitir a festa de fraudes do Master continuam ilesos pela mídia e pelos políticos, a Faria Lima e Campos Neto.

.Trinta dias de solidão. Não fosse o Banco Master e Donald Trump, certamente Lula estaria se preparando para a corrida eleitoral num cenário bastante favorável. A inflação e o desemprego parecem sob controle, o dólar está lá embaixo e, se a aprovação do governo não cresceu, a rejeição também não aumentou. É verdade que há problemas no horizonte, como a saída de vinte ministros para disputar as eleições, que devem deixar seus cargos para o segundo escalão em mandatos-tampão, além do orçamento previsto para 2026 que está longe de ser auspicioso para um ano eleitoral. E há os problemas que se tornaram praticamente crônicos neste mandato, como a taxa Selic em níveis desumanos e as emendas parlamentares, cujo destino no STF vai depender bastante do escândalo do Master e da força que o Supremo estará disposto a usar na briga com o Congresso. Mas tudo isso e os ajustes nos palanques eleitorais vão ter que esperar, porque na sala de cristais da geopolítica tem um elefante agressivo chamado Donald Trump. Lula passou o mês de janeiro em inúmeras articulações internacionais, basicamente tentando avisar a ONU que ou ela se reinventa e mostra trabalho ou vai acabar sendo substituída pelo Clube do Mickey de Trump, chamado ironicamente de Conselho da Paz. O auge deste périplo internacional foi uma ligação justamente para Trump, onde o Brasil sinalizou com uma parceria para a repressão à lavagem de dinheiro e ao tráfico de armas, mas também pediu que o clubinho de Trump se limite à Gaza. Até aqui, a estratégia de Lula de negociar e conversar sem abrir mão da soberania vai funcionando. Principalmente num cenário desfavorável, porque como o próprio Lula reclamou no Panamá, as organizações de integração regional criadas em tempos melhores, como a Celac e a Unasur, estão todas paralisadas.

.Raios que os partam. Ao menos pelos próximos dias e aparentemente até outubro, Lula não vai ter que enfrentar uma direita unificada. O blocão que derrubou o governo da CPMI do INSS, que impulsionou a PEC da Blindagem e que ia se unificar em torno de Tarcísio de Freitas não durou até o Réveillon. A vacilação do centrão e de Tarcísio em abandonar os Bolsonaros deu tempo suficiente para a cartada da candidatura Flávio que é cada vez mais real e concreta, como avalia o próprio Planalto, tanto que o PL já busca palanques no nordeste para o filho do capitão condenado. O partido também comemorou a marcha de Nikolas Ferreira, contabilizando o saldo para a candidatura de Flávio, mas a verdade é que a caminhada fake e o ato dizem mais sobre o futuro de Nikolas e sua capacidade de galvanizar a extrema-direita com independência dos Bolsonaros sem se livrar deles. Uma habilidade que faltou a Tarcísio. Aliás, como definiu Josué Medeiros, a inabilidade de Tarcísio nas articulações e no tempo da política, além da subordinação a Bolsonaro, estão no centro da perda de paciência do centrão e da Faria Lima com o governador paulista. Prova da descrença da extrema-direita tanto em Tarcísio, quanto em Flávio, é que ao invés de alguma unidade, os movimentos aceleraram a pulverização, com Romeu Zema e Ronaldo Caiado insistindo nas suas candidaturas, mantendo ativo o bloco de governadores com pretensões presidenciais com Eduardo Leite e Ratinho Jr. O incrível é que, em qualquer cenário e em qualquer conjuntura, Gilberto Kassab é sempre a mão vencedora na mesa e contabilizando três presidenciáveis na legenda. O PSD não mira em 2026, mas nas eleições municipais de 2028 e vai caminhando discretamente para disputar com o PL e o Arenão o posto de grande partido da direita.

.Ponto Final: nossas recomendações.

.Cuba em perigo. No Esquerda Online, Valério Arcary analisa a situação crítica na ilha caribenha, alvo de uma nova ofensiva dos Estados Unidos.

.Bilionários da tecnologia estão pressionando Trump em relação à Groenlândia. A Jacobin mostra que, além de Trump, os magnatas da tecnologia estão de olho nos metais raros disponíveis.

.Quais os rumos da corrida entre EUA e China pela IA em 2026? Wesley Rahn compara o desempenho das duas potências na nova corrida tecnológica. No DW.

.Os Panteras Negras voltaram? Na Alma Preta, Malu Nogueira caracteriza o ressurgimento do principal partido revolucionário que atuou no coração do império.

.“Justiça não foi feita”, diz mãe que perdeu os filhos no desastre da Vale em Brumadinho. Sete anos depois do crime ambiental, o rio e a terra seguem contaminados e os atingidos ainda aguardam por justiça. Na Pública.

.Como o Bope virou o Bope. Na Piauí, Lucas Pedretti mostra como a tropa de elite herdou a paranóia da Doutrina de Segurança Nacional da Ditadura.

.Escala 6×1 concentra maior sobrecarga de horas-extras e eleva riscos. Levantamento da VR mostra que escala 6X1 lidera a superexploração, principalmente no setor comercial.

Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Nathallia Fonseca

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