Olá, só o Lula do Velho Testamento pode garantir a reeleição.
.Me belisque. O sonho de uma eleição garantida para Lula virou pesadelo depois que Flávio Bolsonaro chegou ao primeiro lugar nas intenções de votos para o segundo turno em uma pesquisa eleitoral. Passado o susto inicial, a avaliação dentro do campo petista é de que o clima de campanha já começou e a versão Lulinha paz e amor deve dar lugar ao Lulão matador de dragões. De início, seria suficiente recuperar o conteúdo que o próprio Flávio Bolsonaro e família produziram nos últimos anos, como o envolvimento na rachadinha, a relação de Jair com o orçamento secreto e o entreguismo do irmão Eduardo frente às políticas antinacionais vindas de Washington. Mesmo assim, a radicalidade do candidato Lula deve ser dosada para não perder os votos do eleitor de centro. Mais do que bater em Trump, a linha do petista é a defesa da soberania nacional. O mesmo vale para as novas medidas de segurança pública propostas pelo Planalto, que buscam sobretudo esvaziar os argumentos da direita e agradar a classe média. O problema é que o agravamento das expectativas eleitorais reflete diretamente a desaprovação do governo que, segundo o AtlasIntel, atingiu 53% dos eleitores, ou na pior versão, 61% de acordo com o PoderData. E a situação pode piorar com a debandada de parte do primeiro escalão ministerial para tocar seus próprios projetos eleitorais. Parte da insatisfação se explica por fatores econômicos, especialmente pelo desequilíbrio entre renda, inflação e endividamento. A inflação desacelerou ligeiramente no último ano, mas não a sensação de aperto, já que para 58% dos brasileiros o salário não chega até o final do mês. Isso talvez explique porque a isenção do Imposto de Renda não surtiu os efeitos esperados pelo Planalto, que continua tentando enxugar gelo através de medidas pontuais de enfrentamento aos juros abusivos em empréstimos consignados. Outra questão urgente é o impacto da crise mundial de fornecimento de combustíveis. Embora o tema não tenha aparecido com força nas últimas pesquisas eleitorais, há preocupações com seu possível efeito em alguns setores. O governo segue tentando comprometer os governadores a darem sua contrapartida para garantir uma subvenção de R$3 bilhões para evitar novos aumentos no diesel. E ainda tem o impacto do aumento da gasolina sobre os trabalhadores por aplicativo. Trata-se de um setor composto majoritariamente por jovens em situação precária, dos quais 4 em cada 10 se identificam com a direita, e apenas 2 com a esquerda. O tema vai ganhando importância porque, segundo apontou a pesquisa AtlasIntel, o aumento da desaprovação do governo no último mês foi mais acentuado entre os eleitores jovens, entre 16 a 24 anos.
.Páginas policiais. Além das pesquisas eleitorais, a boa notícia para o bolsonarismo foi a prisão domiciliar por 90 dias para o ex-capitão condenado. Por um lado, a saída da Papudinha é uma vitória sobre o STF e Alexandre de Moraes no momento em que ambos estão mais enfraquecidos e significará um reforço nas articulações e na campanha eleitoral de Flávio, mesmo com as limitações da prisão. Por outro, mesmo os aliados mais próximos temem que Jair mais atrapalhe do que ajude uma candidatura que cresceu meteoricamente. Flávio logrou o que nenhum outro candidato conseguiu, nem mesmo Tarcísio, ao receber a transferência massiva de intenção de votos do pai. Mas para vencer a eleição precisa convencer o eleitor de centro de que não pensa e age como Jair, o que é mais difícil. Além disso, há um temor que as disputas entre Michelle e os filhos se ampliem. Por hora, o tema da anistia parece morto ou pelo menos emperrado no Senado, já que o veto do presidente Lula só pode ser apreciado numa sessão do Congresso e, se Davi Alcolumbre convocar a sessão, a CPMI do Master seria automaticamente instalada. Até o momento, Alcolumbre estava concentrado em outra frente contra os bolsonaristas, a CPMI do INSS, que conseguiu forçar sua prorrogação pelas mãos de André Mendonça, para em seguida ser derrubada no plenário do Supremo. O que já era esperado depois que a CPMI decidiu entrar em rota de colisão com a Corte. Agora, no apagar das luzes, restará a disputa entre os dois relatórios finais da Comissão, o oficial bolsonarista e o alternativo governista. Por outro lado, com o resultado desfavorável no STF na Comissão do INSS, é improvável que a oposição recorra à Corte para forçar por vias judiciais a instalação da CPI do Master. Mas também é possível que falte tempo hábil ao Congresso para surfar nesta onda. Além da continuação das investigações da PF, agora mirando em Campos Neto, a CGU também entrou no circuito, investigando os dois diretores do BC comprados por Daniel Vorcaro. Mais importante, em três semanas deve sair a delação premiada do banqueiro, caminho que também deve ser seguido pelo seu cunhado, Fabiano Zettel, e se ela for tudo o que promete, talvez o Congresso seja o menos interessado em manter o assunto vivo.
.Direitão. Na próxima semana encerra-se a janela para trocas de legenda de parlamentares e também é o prazo final para a descompatibilização dos membros do Executivo federal e estadual que concorreram às eleições, salvo os casos de reeleição. Com isso, esta última semana já apresentou mudanças significativas no cenário eleitoral. Na soma geral, as movimentações provam que a versão de que existe um centro – ou uma direita democrática – é conversa para boi dormir. A extrema-direita segue crescendo e sem espaço para a direita que usa guardanapos. A primeira prova é que na troca de legendas dos parlamentares foi o PL o partido que mais cresceu, alcançando 105 deputados, a maior bancada de um partido em 25 anos, e apostando que pode chegar a mais de 110 até a próxima semana. Outra prova é que seis anos depois de sair do governo Bolsonaro, reclamando do chefe e da família, Sérgio Moro ingressou agora no PL com o rabinho entre as pernas e prometendo subir no palanque de Flávio no Paraná, junto com a sua alma gêmea Deltan Dallagnol. Aliás, foram as movimentações do bolsonarismo no Paraná, somadas ao medo de que o escândalo do Master respingue no seu governo, que fez Ratinho Jr. desistir da candidatura presidencial. O governador paranaense vendeu a distribuidora de energia Copel ao empresário Nelson Tanure, sócio de Daniel Vorcaro, e Ratinho pai foi sócio dos irmãos Toffoli numa filial do resort Tayayá. O candidato do PSD deve ser Ronaldo Caiado, fundador da milícia UDR, e que dificilmente vai caber no figurino de “moderado” que a minúscula terceira via costuma reivindicar. Ao contrário, Caiado deve mirar no eleitor bolsonarista, especialmente seu setor mais fiel, o agronegócio, levando à divisão dos votos da direita, o que para Lula seria uma boa notícia. A candidatura de Caiado deve selar o destino de outro governador, Eduardo Leite, no Rio Grande do Sul, que deve permanecer onde está, terminando o mandato, o que diminui a exposição do seu vice e candidato ao governo no sul. Por fim, entre os governadores, Claudio Castro, no Rio de Janeiro, renunciou para tentar, sem sucesso, escapar do processo no TSE. Se tornou o sétimo governador inelegível do Rio e não ajudou na estratégia do PL que pretendia elegê-lo senador. Na base governista, o PSB possivelmente deve receber Rodrigo Pacheco, além de Simone Tebet, enquanto Marina Silva pode voltar ao PT nos próximos dias, com as duas formando a chapa de Fernando Haddad em São Paulo.
Ponto Final: nossas recomendações.
.A história de um lucro mórbido. A Jacobina lembra como a vida e a morte foram financeirizadas nos primeiros anos da epidemia de AIDS nos Estados Unidos.
.Como o trabalho ficou uma merda. Na Jacobin, Vivek Chibber e Melissa Naschek discutem como e porque a tecnologia desqualifica os trabalhadores no capitalismo.
.Em marcha histórica, multidão exige memória, verdade e justiça nos 50 anos do golpe militar na Argentina. Argentinos vão às ruas lembrar os 30.000 desaparecidos e desafiam o governo Milei. No Brasil de Fato.
.Bolsonaristas pagam para impulsionar ataques a Erika Hilton nas redes. Levantamento aponta ataques pagos na internet desde que a deputada assumiu a Comissão da Mulher na Câmara. No Metrópoles.
.Em 3 anos, Lula 3 desapropria menos terras para reforma agrária que Temer. No Repórter Brasil, Daniel Camargos analisa as causas e os impactos da paralisação da reforma agrária vivida nos últimos anos.
.Fé e IA: como as tecnologias estão transformando as experiências religiosas. Em entrevista à Pública, o acadêmico e pastor Valdinei Ferreira explora os impactos da tecnologia na religiosidade cristã..Chega de reinos perdidos: a Amazônia tem suas próprias histórias. A Samaúma mostra como o avanço dos estudos arqueológicos mudou a visão dos historiadores sobre a vida humana na floresta.
*Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

