Boletim Ponto

O Ponto é editado por Lauro Allan Almeida e Miguel Enrique Stédile, do Front – Instituto de Estudos Contemporâneos, e é publicado todas as sextas-feiras.

Polarize-se!

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PEC do fim da escala 6x1 foi aprovada em dois turnos na noite desta quarta-feira (27)
PEC do fim da escala 6×1 foi aprovada em dois turnos na noite do dia 27 de maio | Crédito: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

Talvez porque ninguém esperasse mesmo muita lisura por parte do Zero Um.

Olá, a rivalidade eleitoral não terá clima de torcida de futebol, e sim de luta de classes.

.Nem todo dia um 7×1. Depois de anos amargando uma reforma trabalhista aqui, uma retirada de direitos ali, os trabalhadores e trabalhadoras tiveram uma vitória maiúscula com a aprovação do fim da escala 6×1 na Câmara. O que começou como um desabafo de um balconista de farmácia, o hoje vereador Rick Azevedo, transbordou pelas redes sociais, virou Emenda Constitucional, passou por cima da chantagem do empresariado, do terrorismo da mídiadeu um nó no bolsonarismo — que ainda tentou bagunçar a votação defendendo uma proposta mais radical para tentar aprovar uma mais conservadora — para chegar na maior conquista de direitos desde a Constituição de 1988. Na versão aprovada, a escala de cinco dias de trabalho com dois de descanso remunerado e a redução da jornada de trabalho de 44 horas para 42 horas semanais passarão a valer 60 dias após a promulgação da Emenda. Já a redução da jornada de 42 horas para 40 horas semanais ocorrerá 14 meses depois. Mas não significa que a luta acabou. A proposta agora vai para o Senado, onde vai depender dos humores de um Davi Alcolumbre, com contas a acertar com o governo, e sob pressão do empresariado e do bolsonarismo, tanto para não votar antes das eleições, como para permitir contrabandos, como compensações aos empresários ou o pagamento por hora trabalhada, como quer Flávio Bolsonaro. Por fim, a aprovação é a segunda boa notícia do governo no último período, além do episódio “Dark Horse”, e prepara o caminho para o que deve ser a campanha Lula 4: mais à esquerda, justamente num momento em que parece que a expectativa da população com a economia está melhorando, ainda que a inflação exija sempre atenção.

.Pau de galinheiro. Não é propriamente uma novidade o envolvimento de Flávio Bolsonaro com práticas ilícitas. Sua candidatura decolou sob protestos iniciais de alguns membros do Centrão, que, depois, não titubearam em apoiá-lo assim que seu nome foi confirmado pelo PL. O mesmo fez a Faria Lima. Não é de admirar, portanto, que, mesmo com uma sucessão de novos escândalos, sua candidatura continue de pé e contando com o apoio do andar de cima. Talvez porque ninguém esperasse muita lisura por parte do Zero Um. Ainda mais que, logo em seguida, começa a Copa do Mundo e todas as atenções estarão nos gramados. As conversas com o “amigo” Vorcaro, vazadas pela imprensa, até geraram uma crise em sua campanha, tendo como resultado a perda de meia dúzia de pontos percentuais nas intenções de votos contra Lula. A tentativa de desviar o foco da crise indo ao encontro de Trump não resolveu o problema, mas ajudou a tirar o foco da escandalosa confissão do chefão do PL, Valdemar da Costa Neto, de que Flávio foi buscar o “restante do dinheiro” na visita ao banqueiro. Mais importante do que isso, os irmãos Bolsonaros trouxeram Trump para as eleições brasileiras, conseguindo a classificação das facções criminosas como organizações terroristas. Mas, em se tratando de eleições, tudo tem custos e limites. O envolvimento do ex-governador do Rio, Cláudio Castro, num esquema de desvio de recursos da RioPrevidência para o Master que soma cerca de R$3,7 bilhões pode abalar a candidatura dos Bolsonaros no terceiro maior colégio eleitoral do país se comprovado algum vínculo mais direto de Flávio com seu aliado na política estadual do Rio. E, no caso “Dark Horse”, se as investigações apontarem que o dinheiro que foi parar nas mãos de Eduardo nos Estados Unidos foi usado não só para financiar uma vida de luxo, mas para a campanha de sabotagem contra o Brasil na questão das tarifas, pode ser que os dois irmãos ainda acabem fazendo companhia para o pai na papudinha. A possibilidade de um naufrágio da candidatura bolsonarista puro-sangue tem levantado especulações sobre a possibilidade de Michelle Bolsonaro ser vice de Caiado (PSD), além de uma aproximação entre este e Romeu Zema (Novo). Mas, mesmo sendo inviável para vencer a eleição contra Lula, Flávio ainda pode ensaiar um retorno ao bolsonarismo raiz, perdendo a maioria nas urnas, mas galvanizando os 30% dos eleitores fiéis, dando sobrevida ao bolsonarismo e ajudando a fortalecer a bancada da direita no Congresso.

.Ponto Final: nossas recomendações.

.Enquanto Brasil discute fim da escala 6×1, Argentina vai na contramão do mundo com reforma que retira direitos e permite jornada de até 12 horas por dia. Conheça a política trabalhista de Milei. Na BBC.

.Como o socialismo poderia funcionar no século XXI. Em entrevista à Jacobin, Vivek Chibber reflete sobre o planejamento estatal e a economia de mercado no socialismo.

.Quem lutará pela transformação do Brasil? Márcio Pochmann aborda a fragmentação da classe trabalhadora e os desafios para a emergência de um novo sujeito revolucionário. No Outras Palavras. 

.O sistema que fabrica corrupção no governo do Rio não quer ser desmontado. Cecília Olveira detalha o que é e como funciona a máquina de corrupção carioca. No Intercept.

.Que fim levou a poupança de Lydia. A historiadora Keila Grinberg comenta sobre a investigação a respeito do destino dos depósitos da população escravizada na Caixa Econômica no século XIX. Na Piauí

.Chico Buarque e Silvio Rodríguez capturam resiliência e alegria do povo cubano em regravação de “Sonho com Serpentes”. Assista ao clipe filmado na ilha caribenha. No Brasil de Fato.

*Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Rafaella Coury

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