Olá, imersa no escândalo do Master e nas disputas internacionais, a eleição brasileira tem favorito, mas só terá ganhador depois de outubro.
.Sai Neymar, entra Lula. As chances eleitorais de Lula crescem na mesma proporção que a família Bolsonaro cria problemas para si mesma. Não bastam as relações íntimas de Flávio com Vorcaro, que já levam um antigo aliado da família, Silas Malafaia, a tomar distância, assim como uma parte significativa do eleitorado evangélico. Nem a autossabotagem de Jair, depois que uma arma registrada em seu nome foi apreendida com seu segurança em uma blitz, o que pode comprometer sua prisão domiciliar. Agora a condenação de Eduardo só ajuda a aprofundar a crise. E, mesmo que ele não seja preso de imediato, porque Trump não tem pressa de extraditá-lo e deve explorar a situação para atrapalhar as eleições brasileiras, a família Bolsonaro continuará nas páginas policiais. Além de reabilitar Alexandre de Moraes no STF, que andava meio apagado desde as revelações de sua proximidade com Vorcaro, a condenação de Eduardo dá mais munição para a campanha de Lula. Afinal, se nos gramados a moral do Brasil anda baixa, é na diplomacia que o país tem se vestido verde e amarelo. Indiretamente, o próprio Trump ajuda Lula sempre que mostra desprezo por seus aliados, como ao confundir Flávio e Eduardo, ou quando ataca o Brasil, dando a oportunidade perfeita para Lula contra-atacar e marcar pontos dentro de casa. O presidente brasileiro já entendeu que as bilaterais com Trump mais atrapalham do que ajudam e tem preferido usar os temas quentes — como o combate ao terrorismo, tarifaço e eleições — para fazer o enfrentamento público à ingerência estrangeira, defender a soberania brasileira e, de lambuja, ser o porta-voz dos Brics e das nações mais pobres na reunião do G7. Ao mesmo tempo, enquanto Flávio Bolsonaro gerencia as crises na família e na campanha, Lula busca conquistar os eleitores de centro. Daí sua fala calculada, dizendo que nunca foi um esquerdista. Afinal, apesar de um cenário polarizado, tudo leva a crer que a eleição será decidida pelos eleitores independentes.
.Oi, sumido. Nos poucos dias que faltam até o recesso parlamentar de julho, o plano do governo era aprovar três matérias estratégicas: a PEC do fim da escala 6×1, a criação da Política Nacional de Minerais Críticos e a PEC da Segurança Pública. Porém, com os empecilhos criados por Alcolumbre e sem acordo na Câmara e no Senado para votar os vetos presidenciais, a semana terminou morna. A falta de protagonismo do Congresso é similar à de Neymar e do presidente do Banco Central. Depois de um breve protagonismo na liquidação do Banco Master, Gabriel Galípolo seguiu confortável no banco de reservas e sem muita vontade de entrar em campo. Mas é muito difícil passar incólume como presidente do Banco Central quando o escândalo do Master só cresce, revelando como Daniel Vorcaro comprou boa parte da República com cheques sem fundos, e quando o Pix está no centro dos ataques dos EUA ao país. Além disso, Galípolo tomou posse, apresentado por Lula como um “garoto de ouro” que todos esperavam que interromperia a alta crescente dos juros, mas que, na prática, levou a Selic ao mais alto patamar num ano eleitoral dos últimos vinte anos. E, se depender da última reunião do Copom, o cenário não deve se alterar. Ainda que o BC tenha reduzido os juros para 14,25%, o confuso comunicado emitido após a reunião dá sinais de que o raquítico ciclo de cortes chegou ao fim, para alegria da Faria Lima. Com exceção dos banqueiros, a necessidade de cortar os juros, ao lado de Endrik, é um dos poucos consensos da sociedade brasileira, capaz de juntar a CUT à Confederação Nacional da Indústria. E esse não é o único ruído entre Galípolo e o Planalto. O presidente do BC defende a PEC 65, que completa a autonomia do Banco Central e que substituiria o conceito de “empresa pública” por “entidade pública de natureza especial”. Isso permitiria que o BC gerenciasse seu próprio orçamento sem depender da Lei Orçamentária da União, mas também reduziria a vinculação direta ao Executivo. Por sua vez, a proposta tem oposição do ministro da Fazenda, Dario Durigan, endossada por um manifesto de economistas do calibre de Bresser Pereira, Luiz Gonzaga Belluzzo e Paulo Nogueira Jr.
.Classificado para a final. Além de Donald Trump, o outro grande puxador de votos dessas eleições será Daniel Vorcaro. Aparentemente, a falta de molho das tentativas de delação vinha justamente da aposta do banqueiro em esperar um cenário mais confortável após as eleições. Em outras palavras, contar com uma vitória de Flávio. Além do desempenho de Bolsonarinho nas pesquisas não ajudar, da parte da PGR Vorcaro já gastou suas chances e a percepção na Polícia Federal é de que, com o material apreendido nos celulares, a delação vai se tornando desnecessária. Tanto é que, sem abrir a boca, só nesta semana, a investigação tem aprofundado as relações financeiras entre o banqueiro e Ciro Nogueira, encontrando hospedagens pagas para o líder do PP e o presidente da Câmara, Hugo Motta, que também teria recebido “empréstimos” para uma cunhada. Até um obscuro ex-ministro da Cidadania do governo Bolsonaro, Ronaldo Vieira, já teve suas relações com o banqueiro reveladas. Além disso, uma ação de busca e apreensão na casa do senador Jaques Wagner (PT-BA) acendeu o alerta no governo de que o caso pode respingar diretamente no PT e na base aliada e, indiretamente, em Lula. A PF já prepara a próxima fase de investigações, mirando em operadores do mercado financeiro que lucraram com as fraudes do Master. Portanto, não há chances de que o caso se encerre ou não respingue nas eleições presidenciais até outubro. Além da disputa pelo Executivo e da lama no Legislativo, o Master voltou ao centro do STF nesta semana. Por trás da discussão do pedido de prisão domiciliar do Vorcaro pai, apareceram as divergências dos bastidores da Corte, que estavam mais discretas desde a substituição de Dias Toffoli por André Mendonça na relatoria do caso. Gilmar Mendes, único a defender a prisão domiciliar, aproveitou para alfinetar Mendonça, que não se fez de rogado e rebateu. Na segunda turma, especificamente, o fiel da balança será Nunes Marques, uma incógnita em se tratando do Master, mas que, neste episódio, acompanhou o relator.
.Ponto Final: nossas recomendações.
.Os vencedores da guerra no Irã. Quem são os 41 magnatas que aumentaram sua riqueza em US$ 23,5 bilhões especulando com petróleo, gás e fertilizantes. Na Revista Ópera.
.Argumento original de Dark Horse tinha jornalista como inimiga número 1. Na fantasia milionária dos Bolsonaros, a imprensa era a inimiga a ser batida. No Intercept.
.Quem são os brasileiros deportados dos EUA? O Observatório de Deportações traça um perfil dos 3 mil brasileiros deportados por Trump. N’A Terra é Redonda.
.O trabalho invisível que sustenta as cozinhas solidárias. Como funcionam e os desafios que enfrentam as 4 mil cozinhas solidárias nas periferias. N’O Joio e o Trigo.
.Aqueles dias em Havana. No Jornal da USP, Daniel Afonso da Silva relembra a prisão do jovem Milton Santos pela ditadura militar.
.O que motivou a pintura de ruas na véspera da Copa do Mundo. Da convocação de Neymar às doações de tintas, as razões para a volta das ruas pintadas para a Copa. Na Agência Mural.
.João Saldanha: o comunista que virou técnico da seleção tricampeã na ditadura. No Brasil de Fato Entrevista, biógrafo resgata a trajetória do técnico que levou o Brasil ao tricampeonato.
*Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.
**Esta é uma coluna de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

