Boletim Ponto

O Ponto é editado por Lauro Allan Almeida e Miguel Enrique Stédile, do Front – Instituto de Estudos Contemporâneos, e é publicado todas as sextas-feiras.

Partidas e partidos 

No audio source provided.
Lula e Flávio Bolsonaro devem ser principais concorrentes em 2026
Lula e Flávio Bolsonaro devem ser principais concorrentes em 2026 | Crédito: Ricardo Stuckert/PR; Evaristo Sa/AFP

Só que na gaveta de Alcolumbre também está a grande bandeira de Lula para 2026, o fim da escala 6x1.

Olá, a Copa entra na reta final, e os candidatos entram no aquecimento.

.Fogo no parquinho. A crise aberta pela dissidência de Michelle com Flávio Bolsonaro poderia ter sido bem maior se as atenções não estivessem todas voltadas para a Copa. O que não significa que o problema seja pequeno. O principal saldo da treta familiar até agora foi o afastamento das mulheres, que representam 52% do eleitorado brasileiro. Dessas, 48% votariam em Lula e apenas 29% em Flávio, segundo a pesquisa Nexus/BTG Pactual, ou seja, um desempenho que inviabiliza qualquer vitória da candidatura bolsonarista. O tom misógino do influenciador Paulo Figueiredo ao defender Flávio só piorou a situação, confirmando que os bolsonaristas não gostam mesmo de mulher na política. Em resposta, Flávio tentou reduzir danos, criticando o aliado e reunindo-se com um grupo de mulheres que o apoiam em um evento sem muita repercussão. Até a senadora Damares Alves, tradicional defensora dos valores patriarcais, entrou em cena, somando-se à Michelle no que cada vez mais parece uma dissidência de gênero. É claro que a ex-primeira-dama sabe que não tem condições de desbancar Flávio em sua candidatura presidencial. Seu movimento busca disputar o futuro do bolsonarismo, resgatando a fidelidade pessoal ao líder (Jair) e opondo-se ao excessivo pragmatismo político dos enteados. O que, na prática, por agora, pode levar ao seu próprio isolamento político, com seu desligamento do PL Mulher e desistência do Senado, arrastando junto a candidatura de Flávio. Enquanto isso, a esquerda aproveitou a crise para tirar uma casquinha nas redes, inclusive para abafar os próprios problemas. Já Flávio tenta ancorar sua campanha cada vez mais em aliados externos, sejam eles os Estados Unidos, o movimento sionista ou a direita latino-americana. Mas isso só reforça o argumento de Lula de que é uma família de traidores da pátria, o que, aliás, um grupo de deputados petistas tenta tipificar como crime. E, para surpresa de ninguém, Trump deixou mais uma vez o vassalo brasileiro a ver navios. É que a tentativa de uma jogadinha ensaiada, em que Flávio posaria de negociador e Trump reverteria o tarifaço depois do seu apelo, não foi além da imaginação do candidato brasileiro.

.Atacantes e retranqueiros. Faltando menos de 100 dias para as eleições, Lula tem mantido uma vantagem sobre Flávio Bolsonaro que não é nem confortável, nem segura. Assim como a aprovação do governo tem melhorado, mas a passos de formiga. Sem autorização para jogar parado, o governo tentou entregar o máximo possível antes do 4 de julho, data limite da legislação eleitoral para este tipo de anúncio, em especial para as camadas mais populares, como o novo Plano Safra para a agricultura familiar. O problema do candidato Lula continua sendo o mesmo do presidente Lula: o Congresso Nacional. É verdade que Hugo Motta, tentando manter a boa relação com o Planalto, vai dar um gás antes do recesso e atender às demandas do governo sobre o novo limite para os microempreendedores e o PL de combate à misoginia. Porém, no Senado, Davi Alcolumbre instituiu a Operação Tartaruga, sentado em cima dos projetos prioritários do governo. Na prática, o Senado não vai votar nada até as eleições. Só que na gaveta de Alcolumbre também está a grande bandeira de Lula para 2026, o fim da escala 6×1. E, mesmo que o presidente do Senado sinalize que vai defender a redução da jornada sem transição, a aprovação deve ficar só para depois de outubro. De positivo para o Planalto, apenas o adiamento da votação da aposentadoria especial a agentes comunitários de saúde, que estava sendo acelerada para colocar uma bomba fiscal no colo do governo. Fora este, o único acordo possível entre Lula e Alcolumbre é a defesa de Jaques Wagner, que recebeu afagos do presidente do Senado e gestos de amizade de Lula. Afinal, mesmo que as pesquisas apontem desgastes depois da operação no caso Master, o ex-líder do governo segue liderando as pesquisas para o Senado na Bahia. De qualquer forma, em alguns dias a Copa acaba, o Congresso já está praticamente em recesso e os partidos têm até 5 de agosto para realizar suas convenções e definir as chapas. Acabou o aquecimento e agora toda partida é uma final. 

.Ponto Final: nossas recomendações.

.EUA x Brasil: a intervenção subterrânea. No Outras Palavras, Sara Vivacqua analisa a nova doutrina de guerra ao terror de Trump na América Latina.

.“Bancada das bets”: quem são os aliados das casas de apostas no Congresso Nacional. Sob a bandeira da liberdade econômica, parlamentares de direita jogam a favor das Bets. Na Pública.

.Enquanto escolas do campo são fechadas, programas educacionais do agronegócio se espalham pelo país. Foram mais de 110 mil unidades educacionais rurais fechadas nos últimos 25 anos. Veja n’O Joio e o Trigo.

.O Método Sueli Carneiro: livro de Cidinha da Silva reúne 81 lições da pensadora. O Nós apresenta o livro de Cidinha da Silva que relata os aprendizados ao longo dos quase quarenta anos de convívio com Sueli Carneiro.

.Momento China USP #67: O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro, ganha tradução para o mandarim. A tradutora chinesa Silvia Yan explica por que a obra de Darcy Ribeiro foi considerada prioritária para os chineses entenderem o Brasil. No Jornal da USP.

.100 anos de Alexina Crêspo: relembre guerrilheira feminista que defendia reforma agrária ‘na marra’. O Brasil de Fato relembra a trajetória da dirigente que participou das Ligas Camponesas e do MST.

.A matemática do gol de falta. Na Piauí, Sérgio Rodrigues analisa os efeitos do planejamento estatístico sobre um dos momentos mais artísticos do futebol.

*Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Rafaella Coury

|

Newsletter