Boletim Ponto

O Ponto é editado por Lauro Allan Almeida e Miguel Enrique Stédile, do Front – Instituto de Estudos Contemporâneos, e é publicado todas as sextas-feiras.

Um grande passado pela frente

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Os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Fl´ávio Bolsonaro (PL).
Os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) | Crédito: Ricardo Stuckert/PR; Redes sociais

A palavra 'educação' é citada 42 vezes no programa de Lula e apenas nove no de Bolsonaro.

Olá, em mais uma eleição polarizada, a bola de cristal da esquerda e da direita continua sendo o espelho retrovisor.

.Naftalina. Se depender dos lançamentos oficiais das candidaturas presidenciais, ninguém deve esperar grandes novidades na terceira eleição disputada entre petistas e bolsonaristas. Em vez de propostas para o futuro, tanto Lula quanto Flávio apostam no passado. De volta ao berço do PT e de sua própria trajetória, Lula conseguiu emular o famoso comício da Vila Euclides, relembrou sua história política e marcos de seus governos, apostando na nostalgia como valorcomo se viu também no seu primeiro vídeo de campanha. A estratégia parte da ideia de que a juventude não conheceu ou não reconhece as políticas dos governos petistas como conquistas, mas também aposta num setor do eleitorado que nunca foi tão numeroso, os 60+, em que Lula tem superado os adversários. Tanto que eles foram citados no discurso, assim como as mulheres — outro fiel da balança — e devem ganhar destaque nos programas de governo. Por sua parte, Flávio Bolsonaro repete o passado para tentar convencer o eleitor de que ele é o pai. Os bolsonaristas partiram do seu berço eleitoral, Copacabana, e Flávio pretendia ir no dia seguinte para Juiz de Fora, palco da facada de 2018. O discurso de lançamento repetiu o mote “Deus, Pátria e Família”, e o discurso antipetista, que, no fim das contas, é o que dá liga à extrema direita. Além disso, não se pode esperar novidades nos programas de governo. Lula deixou de fora a possibilidade de Tarifa Zero e reforçou políticas que não conseguiu implementar neste mandato, como a criação do Ministério da Segurança Pública. Já Flávio repetiu as promessas do bolsonarismo de limitar a ação do STF e requentou os símbolos de Milei, como a motosserra, para propor um Estado mínimo. Mas os contrastes dos programas não estão só nas propostas. A palavra “educação” é citada 42 vezes no programa de Lula e apenas 9 no de Bolsonaro. A palavra mais repetida no programa petista é “cultura”, 86 vezes, e no programa bolsonarista são “facções criminosas” e “segurança”, nove vezes, seguida por “agronegócio”, com sete menções. Porém, talvez não sejam só os candidatos que estão presos ao passado, mas também os eleitores. A pesquisa Quaest continua demonstrando a polarização do eleitorado: Lula vence no Nordeste, entre as mulheres, católicos, pretos e pardos e até dois salários mínimos; Flávio vence no Sul e Sudeste, brancos, evangélicos e acima de dois salários. Para Alon Feuerwerker, a polarização é ainda mais simples: é basicamente entre quem acha que o Estado deve aumentar impostos sobre os ricos para garantir o bem-estar social da maioria e quem acha que o Estado não funciona e não deve se meter na economia e na sociedade.

.Heranças malditas. O tom conservador das eleições também é reflexo do perfil dos candidatos: será a eleição menos concorrida desde 2010, com candidatos em média mais velhos e mais ricos que nas anteriores, enquanto o PT sai enfraquecido, com o menor número de candidaturas desde as eleições de 1994. O sentimento de volta ao passado é fruto, ainda, das dificuldades de superar velhos problemas. Por mais que Lula sonhe em elevar o debate, o tiroteio em torno da corrupção deve prevalecer, tanto porque a direita achou o escândalo de Lulinha para explorar — turbinado pela mídia — quanto porque o envolvimento de Flávio com Vorcaro não pode ser ignorado. Outro problema antigo é a questão ambiental. Há 20 anos, a descoberta do pré-sal embalou o sonho de um Brasil próspero, autônomo e ambientalmente sustentável, regado a royalties de petróleo. Agora, a descoberta de reservas na margem equatorial deve ser explorada pela campanha petista como um novo “passaporte para o futuro”, com poucas preocupações sérias com o meio ambiente. Mas a verdade é que o fim da “taxa das blusinhas” hoje dá mais votos que a preservação de florestas e rios. O principal avanço em relação ao passado nessas eleições parece ser mesmo a retomada do discurso da soberania, mas, nesse caso, a pauta não tem a ver com o petróleo e sim com a agressividade de Washington na área comercial. Por isso, Lula — o presidente e o candidato — seguirá buscando o diálogo como solução, mas também denunciando nos fóruns internacionais a conduta imperialista de Trump e a tentativa de ingerência nas eleições brasileiras. Mas a pior contradição da esquerda está dentro de casa e é a relação de amor e ódio com o centrão. O silêncio da campanha petista sobre o clientelismo e o fisiologismo regado a emendas parlamentares se explica pelo pragmatismo da própria eleição, já que todos dependem dos “currais” eleitorais controlados pelos caciques do centrão. Além disso, o Planalto conta com a boa vontade dos presidentes da Câmara e do Senado para manter acesa a esperança de fazer andar o fim da jornada 6X1

.Ponto Final: nossas recomendações.

.A reprimarização do Brasil e a possível virada. Marcio Pochmann reflete sobre as quatro décadas de financeirização e as oportunidades da conjuntura atual. No Outras Palavras.

.Mineradoras estrangeiras detêm quatro a cada dez projetos de terras raras no país. O Repórter Brasil mapeia os investimentos em terras raras no Brasil.

.Super-ricos do Brasil pagaram só 4,6% de Imposto de Renda em 2023, contra 27,5% da classe média. Relatório da Oxfam mostra a realidade regressiva do sistema tributário brasileiro. No Brasil de Fato.

.A promessa de ‘legado da COP30’ em Belém começa com um data center sem licença ambiental. O BEL1 avança sem respostas sobre licenciamento, consumo de energia e impacto ambiental e social. No Intercept.

.Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil. A Pública mapeia quem são e o que propõem os candidatos policiais e militares.

.A poesia encarnada de Pedro Casaldáliga. Maria Salete Magnoni analisa a poesia do bispo que enfrentou a ditadura e os ruralistas do Araguaia. No Outras Palavras.

.O que significa ser socialista nos EUA hoje? Na Pública, James Green analisa o avanço e os limites do socialismo democrático no centro do imperialismo global.

*Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Rafaella Coury

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