Boletim Ponto

O Ponto é editado por Lauro Allan Almeida e Miguel Enrique Stédile, do Front – Instituto de Estudos Contemporâneos, e é publicado todas as sextas-feiras.

Guerra de trincheiras

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Debate esvaziado teve apenas coadjuvantes na Band
Debate esvaziado teve apenas coadjuvantes na Band | Crédito: Reprodução

Apesar dos números não terem se modificado, a agenda eleitoral se moveu e entrou em cena a carcomida e perigosa pauta da corrupção.

Olá, eleitores entrincheirados, ataques pelo flanco, pouca margem de manobra, nenhum lado avança e ninguém recua.

.Inclusive nada. O início do horário eleitoral no rádio e na TV pode trazer um pouco de emoção para uma campanha eleitoral que, até o momento, não entusiasmou, como comprovam o primeiro debate entre presidenciáveis, sem Lula e Bolsonarinho, e as sabatinas na TV. Até aqui os demais candidatos têm feito apenas figuração, enquanto todo mundo espera por um segundo turno já definido. E mesmo nesta disputa, prevalece o cenário congelado. Como demonstra a pesquisa Quaest, quase 70% dos eleitores já escolheram o seu candidato presidencial e apenas 30% consideram a possibilidade de mudar de opinião. E, mesmo que os candidatos da parte de baixo da tabela sejam em sua maioria de direita, não necessariamente estes votos migrarão diretamente para Flavio Bolsonaro em um hipotético segundo turno, pois uma parte deve ir também para Lula. Por sua vez, o eleitor de 2026 parece ser o mesmo de 2022, e o percentual de intenção de votos em Lula reproduz um resultado similar ao de quatro anos atrás, mostrando que há uma calcificação da opinião dos eleitores. Este cenário coloca a decisão do pleito nas mãos de um eleitor que não se define nem como bolsonarista, nem como lulista e que muda de opinião com frequência. Além disso, a tendência é que não sejam os projetos, mas a rejeição ao adversário que defina a escolha do indeciso. Mas os cenários consolidados também carregam armadilhas. Por exemplo, há grandes chances de que, em 19 estados, as eleições para governador sejam resolvidas no primeiro turno. Neste caso, ou o eleito torna-se um formidável cabo eleitoral do candidato a presidente, ou a abstenção cresce porque a disputa presidencial perde a competição regional. Com isso, ganha ainda mais atenção a situação do Sudeste como fiel da balança para o desempate entre Lula, mais forte no Nordeste, e Flávio, no Sul.

.Saindo do eixo. Contraditoriamente, o quadro consolidado nas pesquisas representa um risco para o projeto de reeleição de Lula. Isso porque, apesar de os números não terem se modificado, a agenda eleitoral se moveu e entrou em cena a carcomida e perigosa pauta da corrupção. E, nesse caso, mesmo que Flávio Bolsonaro tenha o rabo preso no escândalo do Master, as denúncias contra ele já estão requentadas em comparação às denúncias contra Lulinha e Marcola que atingem o entorno do presidente. Além disso, a direita tem condições de dividir tarefas, deixando o discurso raivoso contra Lula para os candidatos nanicos, como fizeram Ronaldo Caiado e Renan Santos na Rede Globo, enquanto Flávio corre por fora. Em resposta, a estratégia da campanha petista busca combinar três frentes: defender-se das acusações contra o presidente, reforçar a denúncia do escândalo Dark House nas redes e, principalmente, mudar a pauta eleitoral da corrupção para a economia, onde Lula teria serviço para mostrar e condições de vencer no debate. O problema é que, se em quatro anos de mandato o governo não conseguiu converter suas políticas em apoio massivo, como fazer isso em poucas semanas? Além disso, dos R$ 78 bilhões previstos para os últimos projetos do Planalto, como o Reforma Casa Brasil, o Move e o Desenrola, apenas R$ 6 bilhões foram desembolsados, deixando a realidade muito aquém da expectativa. A essas alturas, a grande vitória de Lula seria a aprovação da PEC do fim da escala 6×1, que recebeu mais um empurrãozinho com o avanço nas negociações entre o governo e os presidentes da Câmara e do Senado. O pacote incluiria ainda a aprovação da PEC da Segurança Pública, esvaziando outro foco de críticas da direita, a derrubada da taxa das blusinhas, num aceno para o povão, e a Política Nacional de Minerais Críticos, que coloca em pauta a defesa da soberania brasileira e entra em choque com o entreguismo do governo Caiado em Goiás. Também no tema da soberania, a boa notícia é que Lula conseguiu abrir diálogo direto com Trump, visando diminuir os atritos e a possibilidade de uma intervenção mais pesada de Washington no processo eleitoral brasileiro. 

.Ponto Final: nossas recomendações.

.Bets causam prejuízo ao PIB cinco vezes maior do que tarifaço de Trump, aponta estudo. O buraco de R$ 141 bilhões que as bets causam na economia brasileira. Na BBC.

.Departamento de Guerra dos EUA investe 750 milhões de dólares em terras raras brasileiras. Levantamento da Pública mostra presença de capital estrangeiro em setor estratégico brasileiro.

.O gargalo do submarino nuclear: por que o Brasil patina em projetos estratégicos. No GGN, o Capitão do Mar-e-Guerra da Reserva, Eduardo Brick, explica por que a política industrial de defesa do país não prospera.

.Escolas viram negócio: como a iniciativa privada avança sobre a educação pública no RS. A ofensiva de instituições privadas sobre a educação pública gaúcha. No Sul 21.

.O método: como a extrema direita ataca professores para engajar eleitores. Como a extrema direita incentiva e usa a perseguição aos professores para alimentar suas redes. Na Agência Pública.

.Missão: atenção a qualquer custo. MBL utiliza estratégia do TikTok para fazer Renan Santos viralizar nas redes. Na Piauí.

*Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Rafaella Coury

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