Brasil Popular

A coluna do Movimento Brasil Popular é publicada quinzenalmente às quartas-feiras. Escrita por militantes do movimento de todo o Brasil, ela aborda temas relacionados à política brasileira, luta ideológica e os desafios da esquerda na organização popular.

Rio estado de opressão: operação banho de sangue

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Comunicadores populares condenam uso da favela como palco para operações policiais | Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

Crianças não foram à escola, trabalhadores ficaram ilhados em casa, ambulâncias não conseguiam circular.

O dia 28 de outubro de 2025 entrou para a história como o retrato mais cruel da falência da política de segurança pública do Rio de Janeiro e, talvez, do Brasil. Assistimos a mais uma mega operação policial, só que desta vez, a mais letal da história nacional. Deixou 132 mortos segundo dados noticiados pela imprensa. O cenário foi o Complexo da Penha e do Alemão, território onde vivem mais de 400 mil pessoas, que acordaram naquele dia sob o som ensurdecedor dos helicópteros, fuzis e gritos de desespero. O que se viu não foi uma ação de segurança: foi uma chacina institucionalizada, um massacre de pobres justificado pela retórica da guerra às drogas

O problema central: características que só encontramos em uma ditadura aberta e declarada. A operação, conduzida sob o pretexto de combater o crime organizado, transformou aquelas favelas em zonas de guerra a céu aberto, o estado-terror se apresenta para os mesmos de sempre. Crianças não foram à escola, trabalhadores ficaram ilhados em casa, ambulâncias não conseguiam circular. O Estado, que deveria garantir a segurança de seu povo, agiu de forma selvagem. Foram até o momento 132 vítimas, dezenas de famílias massacradas de forma brutal, e uma mensagem terrível deixada no ar: na favela, o direito à vida não é protegido pelo Estado e a pena de morte é “legalizada”. 

É evidente que houve intenção de promover um massacre. Mesmo diante da apreensão de 93 fuzis, o que se revelou foi o fracasso da política do confronto. O dado mais simbólico da maior apreensão de armas da história do Estado do Rio, com 117 fuzis M-16, foi realizada sem disparar um único tiro. Esse contraste expõe a escolha deliberada do governo e de suas forças de segurança pela morte em vez da inteligência.  

A operação agiu de forma selvagem e desumana naquelas comunidades, sem qualquer preocupação com os moradores. Não pode ser natural que o Estado entre no território, promova um verdadeiro morticínio e vá embora deixando um rastro bárbaro de terror. Essa lógica é o primitivo instinto da pura vingança, combater o crime com uma política de banho de sangue que não resolve o problema final, apenas realiza um espetáculo midiático. Amanhã, a revolta e a sensação de injustiça, geram novo ciclo de violência. 

O governador Cláudio Castro, responsável direto pela ação letal, até o momento não assumiu sua responsabilidade e preferiu atacar a ADPF das Favelas (mecanismo que busca limitar o uso abusivo da força policial). Em suas declarações, tentou a todo momento culpar outras instituições e o governo federal. Seu discurso tem como objetivo justificar o morticínio realizado, por isso tentou chamar de “combate ao narcoterrorismo”, importando a retórica norte americana de guerra de extermínio, a mesma que os EUA utilizam para invadir países e violar soberanias, tal como faz hoje com a Venezuela.  

A responsabilidade do governo é dupla: primeiro, por autorizar uma operação dessa magnitude sem manifestar solicitação de apoio do governo federal, e segundo, por se omitir na construção de políticas sérias de segurança pública. Não há enfrentamento ao crime organizado sem cortar as fontes de sua força: o tráfico de armas, o dinheiro sujo do suborno que circula para alimentar todo esse comércio. Como diz o próprio povo, para acabar com essa guerra basta secar a fonte. Como essas armas chegam dentro da favela e não são paradas por nenhuma blitz? Como a carga chega no morro toda semana? Ela circula pela cidade sem ser monitorada? Chega do Estado cometer crimes que permitem mais crimes. 

Nós, do Movimento Brasil Popular, repudiamos duramente este tipo de ação violenta midiática com fins eleitoreiros promovido pelo governo Castro. Reafirmamos nosso compromisso com a vida de todas as pessoas, a dignidade e os direitos. Não aceitaremos que a política de segurança pública seja sinônimo de licença para matar. 

Defendemos que as forças policiais sejam submetidas ao controle social e políticas de prevenção que enfrentem com mais inteligência investigativa as causas estruturais da violência promovida por qualquer grupo criminoso. Somos a favor que o crime organizado tenha que ser combatido em sua essência, mas executar suspeitos não pode ser considerado uma política de segurança pública séria. A defesa de uma sociedade e comunidades vivendo em paz só é conquistada na luta por justiça, por que paz sem voz, não é paz, é medo! 

*Reinaldo de Miranda e Joyce Bueno fazem parte da coordenação estadual do Movimento Brasil Popular no Rio de Janeiro

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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