Contra o autoritarismo de Hugo Motta, do chamado “centrão” e da extrema direita no Congresso, vamos às ruas no dia 14 de dezembro. Em mais um ataque ao povo brasileiro, a Câmara Federal aprovou um projeto que possibilita a redução das penas de Jair Bolsonaro (PL) e da cúpula da trama golpista do 8 de janeiro, condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por atentarem contra a democracia brasileira. A manobra foi votada “no calar da madrugada”, exatamente como ocorreu na aprovação da PEC da Blindagem.
Não bastasse isso, no mesmo dia, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), protagonizou uma das cenas mais vergonhosas da história do parlamento brasileiro, orientando a polícia legislativa a retirar à força o deputado Glauber Braga (Psol) do plenário, a agredir parlamentares progressistas e a cercear o direito dos jornalistas de acompanharem e transmitirem o que acontecia na sessão, postura frontalmente diferente da que teve quando bolsonaristas ocuparam a cadeira da presidência pedindo por anistia aos golpistas e paralisando os trabalhos da Casa por mais de 40 horas. Após meses de mobilização popular e denúncia de perseguição política, a cassação de Glauber foi derrotada e convertida em suspensão, mas o retrato lamentável da truculência entrará para a história.
Motta e a maioria do Congresso parecem não ter aprendido o recado dado pelo povo brasileiro no dia 21 de setembro, quando centenas de milhares de pessoas, de diferentes espectros políticos, foram às ruas de todo o país, com o mote “Congresso Inimigo do Povo”, e conseguiram reverter a aprovação da PEC da Blindagem e suspender temporariamente o PL da Anistia.
A direita, a extrema direita e o crime
O Projeto de Lei da Dosimetria nada mais é que uma “anistia suavizada”, que, ao fim e ao cabo, guarda o mesmo objetivo dos projetos rechaçados no dia 21 de setembro: garantir impunidade para criminosos. A medida, que agora está em discussão no Senado, pode reduzir a pena de Bolsonaro, condenado a mais de 27 anos de prisão, a apenas dois anos e quatro meses de regime fechado.
A sede de impunidade dos setores que sequestraram o Congresso Nacional também é escancarada, quando, em meio a todos esses fatos, aprovaram a manutenção do mandato da deputada bolsonarista Carla Zambelli, que está presa na Itália, após ser condenada pelo STF pela invasão dos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e por perseguir, portando arma de fogo, um homem, em São Paulo, às vésperas da eleição de 2022. A decisão de manutenção do cargo de Zambelli foi corretamente anulada pelo ministro Alexandre de Moraes.
Diante dos últimos episódios, cabe ao povo brasileiro, mais uma vez, ir às ruas. As frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, de forma unitária, convocaram manifestações em todo o país, indicando que não há espaço para impunidade àqueles que atacam a democracia brasileira.
2025 foi um ano pedagógico, ao escancarar as contradições do Congresso Nacional, dominado pelos interesses das elites, submetidas ao imperialismo norte-americano. Está cada vez mais nítida a relação umbilical entre deputados da direita e da extrema direita com a corrupção e o crime.
Os que queriam impunidade para deputados que cometessem crimes e querem perdão para Bolsonaro e sua trupe são os mesmos que subverteram, tentando enfraquecer o papel da Polícia Federal, o PL Antifacção e a PEC da Segurança Pública, propostas do Governo Federal para qualificar o combate ao crime organizado no Brasil. Também são os mesmos que aplaudiram de pé o massacre promovido por Cláudio Castro no Rio de Janeiro, com a chacina dos complexos da Penha e do Alemão, que deixou 121 mortos. Não querem combater o crime, porque são parte da cadeia de comando do crime.
Esses mesmos setores sequestraram o orçamento público — com o chamado “orçamento secreto” — e utilizam da chantagem e da extorsão para limitar a capacidade do governo Lula de implementar políticas essenciais, gerando instabilidade nas instituições democráticas brasileiras. Há uma tentativa em curso no Brasil de transição para o “semipresidencialismo”, no qual o Executivo tem cada vez menos poder, enquanto o Congresso Nacional, controlado pelas classes dominantes, se torna cada vez mais determinante. Na ponta, não há dúvidas sobre quem mais sofre com isso: o povo trabalhador.
O que muda o jogo é a pressão popular
E é justamente esse povo que, ao entrar em jogo, tem a capacidade de mudar o resultado da partida. Ao longo deste ano, através da iniciativa unitária dos movimentos populares na campanha do Plebiscito Popular por um Brasil mais Justo, conseguimos impor derrotas ao centrão e à extrema direita, conquistando vitórias importantes. Além de derrubar a PEC da Blindagem, a mobilização popular pressionou o Congresso Nacional a aprovar por unanimidade a isenção do Imposto de Renda (IR) para quem recebe até R$ 5 mil, uma promessa de campanha do governo Lula que estava ameaçada pelos interesses conservadores no Congresso.
Com a construção do Plebiscito Popular, mais de 2,5 milhões de brasileiros disseram sim à isenção do IR, à taxação dos super-ricos, à redução da jornada de trabalho e ao fim da escala 6 por 1, demonstrando que existe disposição popular para se mobilizar, quando o programa é claro e responde às necessidades da classe trabalhadora.
Reunindo amplos setores da esquerda brasileira (sindicatos, partidos políticos, movimentos populares, coletivos, artistas, movimento estudantil, grupos progressistas das igrejas, etc), o plebiscito, em diálogo com as frentes, possibilitou a retomada da unidade do campo democrático e popular e a construção das bases de uma Frente Popular, que acumule forças em torno de uma agenda programática da classe trabalhadora para o país.
Na disputa de ideias, construímos maioria social contrária à anistia aos golpistas e favorável à condenação e prisão de Jair Bolsonaro, principal líder da extrema direita. O povo brasileiro também rechaçou as tarifas de Donald Trump impostas ao Brasil e a tentativa de ingerência norte-americana nos assuntos internos do país, defendendo a soberania e reivindicando os símbolos nacionais, sequestrados pela extrema direita.
O fator Lula
Outro fator fundamental no processo de retomada da capacidade de iniciativa política das classes populares foi a mudança de posicionamento do presidente Lula. Ao longo dos dois primeiros anos de seu terceiro governo, Lula vinha governando “a frio”, sustentando-se principalmente nos setores que compõem a frente ampla, frente aos interesses do capital financeiro e da extrema direita. Mas, desde a discussão sobre o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) em junho de 2025, passou a apostar na politização e mobilização da sociedade.
O Governo Federal, em especial a figura do presidente Lula, assumiu uma postura clara e soube aproveitar dos erros da extrema direita e do centrão. Denunciou o cerco da direita às pautas do governo no Congresso e intensificou o diálogo com a sociedade sobre propostas de interesse popular, como a própria isenção do IR e o fim da escala 6×1. Também foi firme em defender a soberania nacional, diante das investidas norte-americanas, e não se negou a dar o nome correto à operação policial promovida pela extrema direita no Rio de Janeiro — chacina.
A maior disposição de iniciativa política do Governo Federal reflete a tática que o campo popular defendeu que a gestão assumisse desde o início do mandato, apostando em uma governabilidade “a quente”. Essa postura é decisiva, diante de um contexto em que existem margens para termos vitórias políticas, mas nossos inimigos ainda ocupam espaços de poder na institucionalidade, nos meios de comunicação, em setores da sociedade, além de ter a retaguarda internacional de Donald Trump no comando dos EUA.
A disputa de 2026 já começou! É necessário uma ampla campanha na sociedade pela reforma política e pela renovação do Congresso Nacional, elegendo parlamentares comprometidos com as pautas do povo brasileiro. Somente assim construiremos as condições para um governo ainda mais avançado. É preciso consolidar e fortalecer uma Frente Popular, em torno de um programa de mudanças sociais, para incidir na campanha de Lula e no próximo governo, combinando o enfrentamento ao neofascimo com a superação do neoliberalismo.
*Por Ana Carolina Vasconcelos e Paulo Henrique Lima, da Coordenação Nacional do Movimento Brasil Popular
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

