Brasil Popular

A coluna do Movimento Brasil Popular é publicada quinzenalmente às quartas-feiras. Escrita por militantes do movimento de todo o Brasil, ela aborda temas relacionados à política brasileira, luta ideológica e os desafios da esquerda na organização popular.

Movimento Brasil Popular: organizar as maiorias para transformar o país

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Militantes do MBP de todo o país na Plenária Elza Soares
Militantes do MBP de todo o país na Plenária Elza Soares | Crédito: Emilly Firmino

Contribuímos com as lutas das mulheres e LGBT, contra a violência e o feminicídio, contra a lgbtfobia, o preconceito e o racismo. 

O Brasil possui todas as condições necessárias para se desenvolver enquanto nação soberana e próspera, capaz de oferecer qualidade de vida para toda sua população: território, biomas, universidades de ponta, base industrial, uma enorme população trabalhadora, diversidade cultural e regional, unidade e identidade comum. 

Essa riqueza material e imaterial, no entanto, até os dias de hoje não foi colocada a serviço do povo brasileiro. Ao contrário, foi conduzida para atender aos interesses externos. Essa condição dependente e subordinada, que nos mantém subdesenvolvidos, ainda que na posição de sexta economia mundial, é garantida pelo apoio de nossas elites a essa relação sabuja com as potências internacionais, em especial com o imperialismo norte-americano. 

Por outro lado, seguimos carentes de nossa segunda independência, pela incapacidade das grandes maiorias, as classes populares, de implementar um projeto popular que realize as reformas estruturais para democratizar o Brasil. A construção da força social necessária para eliminar privilégios e distribuir riqueza, renda, terra, saber, cultura, acesso a ciência e tecnologia de ponta e a direitos básicos passa pela construção de uma estratégia política de transformação que nos leve à construção da revolução social, política e econômica que o Brasil precisa. 

Ao longo de nossa história tivemos diversas iniciativas de resistência e enfrentamento a ordem opressora e autoritária que buscou desde sempre alijar nosso povo da participação política nos destinos da nação. Dos quilombos as revoltas populares, da construção de movimentos, sindicatos, partidos, greves, marchas e protestos a luta armada e a participação nas eleições. 

No entanto, também é marca da nossa história a contra revolução permanente, a antecipação de nossas elites a movimentação dos de baixo, a produção deliberada da apatia e do desencanto, a busca pela cooptação e a eliminação das lideranças populares. 

É nesse contexto que, repetindo um padrão histórico, se insere o golpe do impeachment de 2016, originado da reação ao projeto desenvolvimentista colocado em curso pelos governos petistas. Sempre que se busca fazer do Estado brasileiro, instrumento de indução do desenvolvimento, e de democratização do Brasil, a reação se articula para colocar freio às mudanças, receosas de perder privilégios e o poder político no país. 

Foi assim ao longo de todo século XX, resultando em inúmeros golpes contra a democracia brasileira, o que a fez chegar nos dias de hoje frágil e limitada pelo enorme abismo social provocado por profunda desigualdade social e a negação de direitos. 

Se o golpe de 2016 é fruto da reação conservadora, também o é pela incapacidade das forças populares de impedirem que ele ocorresse, demonstrando fragilidade organizativa, ideológica e política da nossa construção estratégica até então. De lá para cá, são dez anos em situação de defensiva, parcialmente arrefecida com a vitória de Lula nas eleições de 2022. 

Vitória decisiva mas que não alterou substancialmente a correlação de forças na sociedade em razão do entranhamento da extrema direita e das ideias conservadoras no seio da sociedade e de instituições brasileiras.

É nesse contexto que surge a organização política Movimento Brasil Popular, no início de 2022, por decisão de 500 lutadoras e lutadores do povo reunidos na Assembleia Luiz Gama, em Sarzedo, Minas Gerais. 

Com atuação em movimentos populares, sindicais, pastorais e culturais, na luta antirracista, feminista e da juventude, decidimos por criar um movimento que organize as amplas massas populares, sobretudo das periferias urbanas, militantes e dirigentes políticos em torno de um programa de transformação do Brasil, por meio das reformas populares e da luta política pelo poder. 

Compromisso e construções 

Originários do Campo Popular, reivindicamos o que há de melhor da tradição política da esquerda brasileira: a formação militante, a disputa ideológica, o exemplo pedagógico, o trabalho de base e as lutas de massa, os valores humanistas e socialistas. 

Sobretudo nos propomos a combinação das formas de luta, conjugando luta ideológica, popular e institucional para alcançar os compromissos do projeto popular com a soberania, a democracia, a sustentabilidade, o desenvolvimento, a solidariedade, o feminismo e a luta antirrascista. 

Ao longo dos últimos quatro anos, tratamos de dar materialidade as nossas resoluções. Participamos de maneira ativa e intensa nas eleições de 2022 para eleger Lula e parlamentares comprometidos com a luta popular. Em articulação com parceiros e aliados, sobretudo com o PT, o MST, o Levante Popular da Juventude e o MAM, em 2022 e 2024, elegemos militantes do movimento para Câmaras de Vereadores e Assembleias Legislativas estaduais. 

Construímos trabalhos em inúmeras periferias urbanas em dezenas de cidades por meio de agentes populares de saúde, de cultura e de alimentação, da construção de cozinhas populares e centros populares de solidariedade. Construímos lutas comunitárias reivindicando reabertura ou melhoria da infraestrutura de creches, escolas e centros de saúde.  

Nos dedicamos com afinco, por meio do Levante Popular da Juventude, a organizar e formar a juventude da classe trabalhadora, em escolas, universidades e nas periferias das cidades. Construímos sindicatos e iniciativas de formação de sindicalistas do projeto popular. 

Nos envolvemos nas articulações políticas nacionais e nos estados visando a construção de iniciativas unitárias das forças populares, como o Plebiscito Popular por um Brasil mais Justo, em 2025, para pressionar pela redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6 x 1, pela isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e a taxação dos super ricos. 

Contribuímos com as lutas das mulheres e LGBT, contra a violência e o feminicídio, contra a lgbtfobia, o preconceito e o racismo. 

Convencidos que o Brasil precisa de uma frente popular, com unidade programática e de ação, para enfrentar a extrema direita e a ofensiva imperialista em nosso país, temos nos esforçado por contribuir para a unidade das frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, das centrais sindicais e partidos de esquerda. Essa unidade é necessária para atuarmos no bojo de uma coalizão democrática que isole a extrema direita e impeça retrocessos autoritários no Brasil, abrindo caminho para alterarmos no médio prazo a correlação de forças.

Nestes quatro anos, na batalha das ideias – a luta ideológia – formamos centenas de militantes em cursos e inicitivas de formação desenvolvidos por meio da Escola Nacional Paulo Freire, da Escola de Formação Luiz Gama, da Escola Emerson Pacheco e dezenas de turmas dos cursos Realidade Brasileira pelo país, dentre muitas outras iniciativas de formação. 

Também orientamos nossa militância nos estados a apoiar e dar sustentação as iniciativas do sistema de comunicação Brasil de Fato, bem como o desenvolvimento de iniciativas de agitação e propaganda e ocupação das redes sociais. 

Acúmulo de forças 

Ainda não logramos, em conjunto com a esquerda, renovar a interpretação do Brasil e construir um programa e uma estratégia de acúmulo de forças que nos permita dar um salto de qualidade na luta política. Temos, no entanto, construído as bases desse compromisso a revolução brasileira e o socialismo, com o povo, por meio da escuta, do diálogo, da renovação da prática militante e de iniciativas de solidariedade desde as comunidades. 

Em 2026, mais uma vez, a soberania, a democracia e a vida da classe trabalhadora se vêem ameaçadas. Quadro que se agravará a depender do resultado das eleições. Derrotar a extrema direita e reeleger Lula presidente se coloca no centro da tática das forças populares consequentes, e, portanto, para o Movimento Brasil Popular. 

Os tempos adversos e os desafios conjunturais – a ofensiva imperialista, a crise capitalista, a ascensão da extrema direita no mundo – reforçam os elementos centrais que identificamos, ainda em 2022, que marcam o atual período histórico e apontam para a necessária união de esforços para construção de uma ferramenta política que conjuga diferentes formas de luta, forja militantes e organiza as bases, fazendo a luta econômica, política e ideológica. A luta do povo é o nosso lugar.  

Com paciência histórica, passados quatro anos, voltamos a renovar nosso compromisso com as lutas nacionais e internacionalistas, pela libertação do povo brasileiro e do continente latino-americano. 

O sonho chamado Brasil, uma nação para os brasileiros e a serviço dos melhores anseios da humanidade, construído pelo protagonismo e a hegemonia da classe trabalhadora, se renova em nós e em nossas lutas, até que tenhamos nossa pátria livre. E assim o faremos, venceremos! 

*Frederico Santana Rick é sociólogo e militante do Movimento Brasil Popular

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Nathallia Fonseca

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