Após 138 anos da abolição da escravidão no Brasil, as organizações do campo popular e do Movimento Negro seguem ressignificando o 13 de Maio para afirmar uma verdade historicamente silenciada: a abolição não foi um presente da monarquia, mas resultado das lutas, revoltas e resistências do povo negro contra o sistema escravista. Reafirmar essa perspectiva é fundamental para compreender a realidade social brasileira e os impactos da escravidão na formação econômica, social, política e racial do país.
As narrativas assentadas na negação dos significados políticos do 13 de Maio são algumas das formas de expressão da ideologia das elites, que jamais aceitaram plenamente o papel histórico e decisivo da população negra para o desgaste e superação econômica e política do regime escravista. A crise do sistema só foi possível graças à combinação de diferentes formas de luta, distintas entre si, mas unificadas por um mesmo objetivo: abolir a escravidão. Nesse processo, foram fundamentais o papel da imprensa negra, a formação de quilombos, as revoltas, greves e insurreições, bem como as alianças com setores urbanos e médios, jornalistas, escritores e advogados abolicionistas. Historicizar essa data é recolocar no centro da agenda política das organizações populares os sentidos da resistência negra e a diversidade das formas de luta que garantiram a liberdade.
Ao resgatar a memória de mulheres e homens negros que dedicaram suas vidas à causa abolicionista, constituímos um ato de desobediência política à historiografia oficial, que historicamente relegou a população negra aos lugares de invisibilidade, passividade e submissão. O intelectual orgânico Clóvis Moura, em sua obra “Rebeliões da Senzala”, nos convoca a repensar a história do Brasil. Para isso, torna-se necessário realizar uma releitura crítica das interpretações que colocam as lutas negras em posições subalternas na compreensão da realidade nacional. Só articulando o olhar do negro, como apontava a pesquisadora e militante Beatriz Nascimento, é possível visualizar os acontecimentos em torno do 13 de maio desde uma perspectiva negra.
Entendo que o 13 de Maio se constitui como uma data nacional que nos mobiliza a atualizar as raízes e os sentidos do “Significado do Protesto Negro” (1989), escrito pelo militante e sociólogo Florestan Fernandes, que realizou uma análise monumental sobre a atuação do movimento negro enquanto sujeito histórico imprescindível para a superação do racismo e das desigualdades produzidas pela sociedade de classes. No entanto, passados mais de um século da abolição, as desigualdades sociais, econômicas e raciais herdadas da escravidão seguem estruturando profundamente a sociedade brasileira, impondo ao movimento negro e às organizações populares novos desafios políticos e organizativos. Ao afirmarmos que a abolição foi inconclusa, colocamos na centralidade das nossas análises e da ação política das organizações do campo popular e democrático tarefas fundamentais, profundamente relacionadas à realidade da população negra.
Se a abolição formal não garantiu acesso à terra, ao trabalho digno e à educação para a população negra, é preciso reconhecer que a precarização da vida e a superexploração de trabalhadoras e trabalhadores negros seguem estruturando as relações de trabalho e a própria organização da sociedade brasileira. Nesse sentido, os debates e as mobilizações pelo fim da escala 6×1 tornam-se fundamentais para expor as desigualdades raciais presentes no mundo do trabalho. As longas jornadas às quais negras e negros são submetidos revelam como a lógica escravocrata permanece operando no país, atualizada sob novas formas de exploração.
A luta pelo fim da escala 6×1 é de profundo interesse para a população negra, sobretudo diante dos números alarmantes da desigualdade no mercado de trabalho, do alto nível de precarização, da exclusão de direitos sociais essenciais, da menor escolaridade média e da concentração de renda entre um e dois salários-mínimos, quase sem possibilidades de mobilidade salarial. Superar as desigualdades raciais no mundo do trabalho exige a realização de reformas estruturantes que garantam direitos fundamentais e condições dignas de existência para a população negra, principalmente para as mulheres negras, pois são as mais impactadas.
Quando ousamos realizar esse debate e disputar, no campo das ideias e da ação política, os sentidos da organização do trabalho, e olhamos o perfil da classe trabalhadora, logo afirmamos que o racismo estrutura as relações sociais no Brasil, logo, classe e raça são determinantes para uma leitura crítica da realidade brasileira. Compreender essa contradição é fundamental para identificar os principais dilemas da classe trabalhadora na atualidade e construir respostas que dialogam com suas vivências e perspectivas.
As lutas empreendidas pelo fim da escala 6×1 precisam ser lidas e reconhecidas dentro da agenda política de reparações impulsionada pelas organizações do Movimento Negro e do marco das lutas abolicionistas. É preciso, no tempo presente, combinar as lutas sociais negras e o papel das políticas de promoção da igualdade racial. Esses são desafios e questões que estão postos para a nossa geração. Diante dessa tarefa histórica, torna-se necessário retomar as raízes do protesto negro e compreender, no contexto atual, o papel mobilizador e revolucionário do povo negro no Brasil.
*Nonato Nascimento faz parte do Setor Nacional de Igualdade Étnico-Racial do Movimento Brasil Popular.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
