Tem uma confusão que a gente repete tanto que virou senso comum: achar que “clima” é aquela previsão do telejornal. Mas o clima não é o retrato do dia; ele é o filme longo, a série histórica que molda onde a gente mora, como produz alimento e como organiza a vida.
Só que agora esse filme acelerou. E, quando acelera, ele cobra caro – e cobra especialmente de cidades que cresceram sem infraestrutura e de governos que governam o risco como se risco fosse surpresa e não previsível e controlável. Isso me faz pensar na história de Noé, que começou a construir um barco gigante sem nenhuma previsão de chuvas. Imagine quantos o chamaram de louco… bom, o resto da história a gente sabe.
Aí entra a primeira provocação: não é só a mudança do clima, mas uma combinação explosiva de clima extremo com subinvestimento crônico e urbanização desordenada. Nos últimos 12 anos, o Brasil se tornou ainda mais urbano. O IBGE mostrou que em 2022 a parcela da população vivendo em áreas urbanas subira para 87,4% (era 84,6% em 2010). E esse movimento não é abstrato, ele tem corpo, nome e CPF. Foram 16,6 milhões de pessoas a mais nas áreas urbanas.
A população rural, que já era minoritária, caiu de 15,6% para 14,3%. Isso tem impacto direto, porque migrar para a cidade não é só mudar de endereço: é aumentar a demanda por drenagem urbana, saneamento, contenção de encostas, manejo de águas pluviais, proteção de várzeas e áreas de infiltração. E isso muitas vezes se desdobra, nos melhores casos, em ampliar bairros em torno de rios e grotas, ocupando o que antes era “área de passagem da água”.
O problema é que o crescimento veio, mas a infraestrutura não acompanhou. Em muitos municípios, a política pública virou uma estética: calça a rua, bota meio-fio, passa uma camada de asfalto e chama de “progresso”. Só que, na hidrologia, isso tem nome: impermeabilização.
Aquela água que antes infiltrava em chão batido, quintal, área verde e beira de córrego, passa a correr rápido por cima do asfalto. E corre pra onde? Para um sistema de drenagem que quase nunca foi dimensionado para eventos extremos, ou que nem existe de forma integrada. O resultado é o que a gente já conhece: água no meio da rua, casa invadida, comércio parado, lama, doença, morte, prejuízo e gente sem dormir quando o céu se prepara para chover.
Em pouco mais de um mês, municípios de Pernambuco incluídos no decreto nº 60.112, sobre emergência pela seca, decreto este que entrou em vigor em 4 de janeiro de 2026, aqueles municípios agora são atingidos por chuvas e trocam de tragédia. Sai do decreto por estiagem e entra na defesa civil para enchentes e alagamentos.
A mesma estrutura de gestão pública, que não conseguiu garantir água e segurança hídrica, também não garante drenagem, encosta e ordenamento do território. Não é que o clima “mudou de ideia”, mas que a cidade ficou vulnerável tanto à ausência quanto ao excesso.
O dado mais brutal é quando a gente olha pro orçamento real da prevenção. A CNN Brasil reportou que 70% dos municípios investem até R$ 50 mil por mês em prevenção para a Defesa Civil. Isso pode pagar combustível, diária, uma equipe mínima, um computador, uma ação educativa. Mas não segura a enxurrada nem conversa com a magnitude do risco. A tragédia não é só meteorológica; ela é fiscal, técnica e política.
E tem um segundo erro, mais profundo, quando se fala de adaptação climática, a lente é quase sempre urbana, como se a zona rural fosse só “produção” e não território de vida. Só que a migração do campo pra cidade não aconteceu porque o campo ficou “pior por natureza”; aconteceu porque faltou política pública consistente, renda, serviços e resiliência territorial.
A crise climática empurra gente, e a desigualdade empurra mais ainda. Sem adaptação no rural (água, assistência técnica, proteção de solos, agroecologia, economia local), a cidade vira o destino inevitável. E a cidade, despreparada, vira o lugar do desastre.
A cidade contemporânea exige drenagem, saneamento, parques de retenção, renaturalização de cursos d’água, regulação de ocupação e moradia digna com manutenção permanente. Exige projeto político e orçamento.
No fim, o que a gente chama de “catástrofe climática” muitas vezes é catástrofe de infraestrutura. Chove forte e alaga porque o chão foi selado. Desce água e arrasta porque encosta foi ocupada sem contenção, sem drenagem, sem proteção. Entra água em casa porque a rede pluvial é improviso. E o Estado responde com a liturgia do desastre: decreto, foto de vistoria, sobrevoo para avaliação de danos, promessa de obra, doação emergencial.
A pergunta que fica, e que deveria pautar eleição e governo, é simples: quantos municípios e quantos estados estão dispostos a transformar a adaptação em prioridade orçamentária e política? Porque adaptação não é “meio ambiente”. Adaptação é gente, é a população que mais sofre quando falta água e quando sobra água. É quem mora no limite, no beco, na beira, na grota, na várzea, na rua, no loteamento sem drenagem.
Se a gente não politizar infraestrutura, vai continuar achando que o problema é “o clima que enlouqueceu”. Não enlouqueceu: ele mudou. O que falta é o Brasil, estados e municípios, mudar junto, com planejamento, obras certas, manutenção e justiça territorial centrada nas pessoas.

