A fila de mortos, cobertos com lençóis coloridos, invade nossa sala e diz que a escravidão não acabou.
O padre preto, de batina negra, chora no asfalto cheio de mortos e reza um Pai Nosso com as pessoas pretas que choram e clamam por justiça.
O pastor e deputado de direita, também preto, chora na tribuna e diz que se um preto de chinela havaiana e sem camisa correr na favela é morto pela polícia.
Seus jovens fiéis, sem passagem pelo sistema de segurança, foram mortos sem direito a perdão.
Uma mãe preta e pobre mostra à câmera de TV a carteira de trabalho do seu filho preto enquanto, desesperada, aponta a fila de mortos estirados na praça da comunidade.
Uma tia afirma que viu o corpo do sobrinho sem um único tiro, mas com a cabeça de cabelos vermelhos degolada, como degolados foram Zumbi, Antônio Conselheiro e Osvaldão, revolucionários.
Castro, o facínora travestido de governador do Estado da Guanabara, afirma em entrevista coletiva que só morreram quatro pessoas inocentes.
Governadores, políticos de direita e os fascistas de plantão aplaudem.
O Brasil, pelo menos aquele que ainda tem empatia, olha, estarrecido, o tapete de mortos cobertos com lençóis coloridos e sente o afeto da população da Penha.
O Tio Sam espreita, pronto para criar narrativas macabras, igual fez com a Venezuela, na expectativa de invadir o Brasil em busca das terras raras.
Gaza também é aqui.

