Cidade das Letras: literatura e educação

A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor  da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga,  doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.

Maravalha

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Modelo de casa com móveis antigos | Crédito: Foto: reprodução

A coqueluche do momento era um móvel, chamava-se “cristaleira”

Por Telma Sousa Santos Viana

Acabei de me lembrar de uma palavra, ela me encontrou sem querer. Sim foi ela quem me encontrou, veio mansinha no meu pensamento, do nada! Veio rápida e ligeira, quando dei por mim, estava de novo com sete anos de idade.

Revi o vestido que usava no momento. Ele era vermelho de dois tons diferentes, a parte de cima vermelho bordô, a debaixo vermelho vivo. Era assim, porque minha mãe aproveitou outras roupas para me vestir, alguém chegou de Belo Horizonte e trouxe um saco cheio de roupas para que nós aproveitássemos. Eu nunca gostei da cor, mas gostava do vestido!

Pensando, agora me ocorreu que, eu enquanto era criança, nunca tive um par de calças compridas. Vim a tê-las somente depois dos treze anos.

Busquei pela memória e os sentimentos da saudade me inundaram. Já dizia o poeta que “Recordar é viver”; não sei quem disse, mas é um poeta.

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A palavra me transportou para um momento doce da minha infância. Trouxe em mim sentimentos de ternura; olhei para aquela menina pequena, rosto redondo, cabelos encarapinhados, olhos castanhos que mudam de cor conforme os sentimentos  e pensei… que saudades de mim! Estou sempre tão ocupada que esqueço de contemplá-la, embora, às vezes, quando olho no espelho, ela olha para mim.

Naqueles dias o que estava na moda em todas as casas… Espera!  Não, em todas as casas não! Mas naquelas onde o dinheiro não sobrava, mas também não faltava, porque nossas mães administradoras dos poucos recursos que dispunham, elas operavam verdadeiros milagres. Sabe de uma coisa? Assim como Jesus transformou água em vinho, o melhor vinho, minha mãe transformou um tiquinho de dinheiro em um sonho.

A coqueluche do momento era um móvel, chamava-se “cristaleira”. Era uma peça de madeira; eu disse madeira, sim, meus amores. Nossos móveis eram feitos de boa madeira, mogno, cerejeira, carvalho, imbuia, jacarandá e outras. MDF é coisa de gente moderna que tem dinheiro para repor os móveis, pois estes se quebram facilmente. No nosso caso não. Nossos móveis eram deixados, inclusive, como herança! Era na cristaleira que as peças de vidro e louça eram guardadas. Vasilhas que nunca usávamos, só as visitas.

A cristaleira era o sonho de minha mãe. Foi confeccionada em mogno. Era bem amarelinha e toda trabalhada em vidro. Móvel caro este, de madeira e vidro, sabe? Luxo puro!

Não satisfeita em ostentar tamanho gasto, ela mandou, ainda, fazer um banco bem espaçoso e bonito! Abusada! Eu, filha da abusada, me senti tal e qual! Parecia que nossa casa ia ganhar uma roupa nova.

Eu com sete anos estudava a 1ª série, conforme era lei naquela minha época, e na minha casa. Falar essa frase, entrega a idade. Estou nem ai! Nós morávamos numa casa à beira de uma estrada, na saída da cidade, indo para Bahia, ou chegando de lá, porque vocês sabem, estradas vem e vão né?

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Por quê estou contando isso? O motivo é simples: minha escola ficava no outro extremo da cidade, perto do rio e perto da marcenaria, o lugar onde o sonho estava sendo construído.

Ela me chamou toda eufórica: “Telminha, vai mais cedo para a escola e passa lá na marcenaria, vê se os móveis estão prontos, eu estou ansiosa!”. Ela, eu, todos nós!

Fui. Sim, os móveis estavam prontos. E, é aí que vem a palavra. Entrei no local e o perfume da madeira trabalhada inundou meus sentidos. Olhei e em qualquer lugar ou qualquer direção que eu olhasse, elas estavam, pareciam dourados cachos de cabelos, lindos e fartos, meus pequenos pés afundavam naquela maravilha, naquela maravilhosa MARAVALHA!

Telma Sousa Santos Viana é aluna do curso de Pedagogia da UFMG.

Leia outras crônicas e artigos na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato MG

Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

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