Por João dos Reis Silva Júnior
O sertão nunca deixou de ser sertão. Território de travessia, chão de ausências e de vozes caladas, onde o mando não é só da terra seca nem da chuva incerta, mas da memória do que foi imposto de fora e enraizado por dentro. A colonialidade, palavra que parece pesada como pedra, é na verdade sopro que se infiltra, invisível, no respirar dos povos dependentes. Não se vê, mas molda a vida; não se nomeia, mas comanda as formas de saber, de sentir, de esperar.
O fio que vem do passado não se rompe. A independência foi bandeira hasteada, mas costurada com linhas do colonizador. Nos países dependentes, o colonizador nunca partiu. Apenas trocou de roupa, vestiu os trajes do capital, das finanças, dos discursos científicos que ditam como devemos pensar. O sertão, metáfora viva do Brasil profundo, mostra que o mando chega de longe, mas encontra aliados dentro.
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As elites locais, sempre prontas a servir, repetem o gesto da casa-grande, enquanto a senzala se reinventa em periferias, favelas e canaviais.
A colonialidade é memória alongada, que atravessa séculos e se renova em cada dobradura da história. Não está restrita ao tempo das caravelas, mas respira nas fábricas modernas, nos escritórios de vidro, nos corredores das universidades.
O colonizador de hoje não precisa mais desembarcar em portos, basta impor índices, tratados e algoritmos. É comando que viaja sem corpo, mas comanda corpos inteiros, submetendo sonhos e projetos de nações inteiras ao cálculo das metrópoles.
O sertão, sempre visto como atraso, é a metáfora dessa exclusão: nele se manifesta o destino imposto de ser eterno “quase”, nunca inteiro, sempre dependente.
Riobaldo dizia que viver é negócio perigoso. Também o é pensar nos países dependentes. Porque a colonialidade não é só cadeia de ferro, é corrente de ideia. Obriga a escrever conforme as regras da Europa, a medir o tempo pelo relógio de Wall Street, a ensinar o saber pela gramática estrangeira.
Na universidade, os rankings importados e os editais internacionais ditam o valor do que se produz. Até a ciência se torna cativa. O que não serve ao mercado global é relegado ao silêncio. O sertão do conhecimento, atravessado de precariedades, confirma que o pensar livre é sempre vigiado.
O sertão também é promessa
Onde o mando é duro, a rebeldia se multiplica. A cada imposição de fora, uma invenção de dentro. A cada saber negado, um saber insurgente. O jagunço que atravessa o rio não sabe se alcança a outra margem, mas segue. Assim também os povos dependentes: sabem que a colonialidade não é sentença final, mas combate diário. Da canção de protesto que nasce nas periferias às epistemologias que brotam de territórios indígenas e quilombolas, a resistência se mostra.
A palavra roubada não desaparece, apenas muda de boca, reinventada em sotaques e gírias, guardada em narrativas que recusam o esquecimento.
No entanto, a luta é desigual. A colonialidade é esperta, reaparece em cada novo disfarce. Está na dívida externa que corrói o futuro, no manual escolar que apaga a história de Palmares, na política que insiste em chamar modernização o que é submissão.
O sertão, com sua paisagem dura, ensina que resistir não é vencer de imediato, mas permanecer. E permanecer já é ato insurgente. Porque onde a ordem quer silêncio, a vida insiste em falar. Onde o mando quer apagar, a memória insiste em narrar.
O sertão, metáfora do mundo dependente, é dentro da gente. É território de perda, mas também de reinvenção. A colonialidade insiste, mas o sertão resiste. O que hoje parece condenação pode se tornar travessia. E nessa travessia, talvez resida a chance de devolver ao povo a palavra roubada e ao futuro o tempo sequestrado.
O sertão é onde o pensamento se perde e se encontra. E é nele que a dependência pode começar a se dissolver, não pela negação da memória, mas pela coragem de refazê-la.
João dos Reis Silva Júnior é professor titular da Universidade Federal de São Carlos.
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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

