Cidade das Letras: literatura e educação

A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor  da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga,  doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.

Crônica de Viagens IX: partir e chegar; luto e ressurreição

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Mala de viagem | Crédito: Foto: Reprodução

Quando regresso, com alegria meço também o que perdi

Por Luciano Mendes

Há, na literatura, uma variedade imensa de livros em que a viagem representa o cenário e a cena da história. Da Odisseia às Cidades invisíveis (Ítalo Calvino), passando pel’A Volta ao mundo em 80 dias, por Grande Sertão Veredas (uma grande viagem!), por Le tour de la France par deux enfants (um clássico da literatura de formação e/ou pedagógica) e por mil e um outros livros, a viagem não apenas é um ingrediente da trama, mas a condição mesma da história que se conta. Viajar é ler um mundo com os olhos que o desconhecem.  A abundância é tamanha que não existe uma boa biblioteca que não tenha dúzias de volumes clássicos e contemporâneos sobre tema.

De outro lado, há também a metáfora de que ler é viajar, é ir ao encontro do outro, é lançar-se ao desconhecido em cada livro que se lê. “Ler é viajar, sem sair do lugar”, é uma frase atribuída a Mário Quintana e que sintetiza, de forma lapidar, esta ideia. Lembro de meu amigo Chico Lopes, escritor, tradutor e cinéfilo de carteirinha dizendo que já viajou o mundo todo, já conheceu milhares de lugares e pessoas por meio dos livros que leu ou dos filmes que assistiu. A verdade é que, a este respeito, cada pessoa leitora tem o seu próprio “dicionário de lugares imaginários”, para lembrar a já clássica obra de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi.

A propósito disso, juntando as duas ideias –  ler é viajar; viajar é ler – em minha recente viagem, como relatei na crônica anterior, pude viajar por seus sabores, suas águas e sabedorias. Lá, conheci também a Editora Paka-Tatu. Nesta última, adquiri o livro da Luciana Brandão Carreira, A letra da Água (Ed Paka-Tatu,2017).

Como é boa a poesia da Luciana! Dona de estilo próprio e refinado, dialoga também com o melhor da literatura contemporânea. Lendo os poemas, vi ecos de Manoel de Barros, Adélia Prado, e muito mais. Poucas vezes senti que um título é tão adequado a um livro como este. As águas atravessam as páginas, conduzem peixes, rios inteiros, esperanças, corpos muitos em suas constantes metamorfoses e a-parições. Ler o livro da Luciana é viajar por um mundo de sons, cheiros, cores e ritmos de uma intensa vida que se nos apresenta transfigurada em cada poema.

As palavras de Luciana, suas letras todas, nos trazem o frescor das águas e as urgências das vidas. Estão molhadas de necessidades tantas, sobretudo de poesias que insistem em amanhecer. Em vários momentos a poeta, como quando escreve “que a tarde deseja voar / Escrevo este voo”, nos remete aos possíveis da criação poética. Palavras, escritas, inscrita nas águas e nos corpos de populações diversas como os humanas, os peixes e as árvores, deslocam nossos sentidos e nos arrepiam.

A lonjura é uma matança

Mas há, também, muita literatura boa sobre viagens, sobre o viajar em seu significado existencial, por assim dizer. Viajar é fazer malas. Este é o mote de “Dois pontos”, um dos ótimos pequenos contos que compõem o livro Vozes para tímpanos mortos, de Mário Baggio (Litteralux, 2025).

“Porque fazer a mala é tomar decisões: deixar de fora o que não importa e garantir lugar para o imprescindível: o acessório e o supérfluo não entra […] porque a mala contém o essencial de quem a faz”. Sendo assim, o viajante e sua mala se mimetizam, se (con)fundem de tal forma que o extravio desta é mais do que a perda de roupas e acessórios, é a perda de si. “Sabe-se de viajantes cuja mala foi extraviada no transporte entre um lugar e outro, e embora tivessem recebido indenização dos responsáveis pela companhia aérea, nunca voltaram a ser eles mesmos: porque foi a sua vida que extraviou”.

Se, como canta Milton Nascimento, “a plataforma desta estação é a vida” e o “o trem que chega é o mesmo trem da partida / A hora do encontro é também despedida”, e se há perigo de a vida se extraviar, é preciso cuidar da volta tanto quanto da partida.

A respeito disso, em Educação da tristeza (Biblioteca Azul, 2025), Valter Hugo Mae diz que “voltar para casa depois de uma ausência longa traz sempre certo luto […]  A lonjura é uma matança. Pode bem gerar novas identidades, outros dentro de nós tão ou mais férteis, tão ou mais felizes, mas a lonjura termina pouco a pouco quem éramos e quem nos eram os que amamos”.

E, continua: “A viagem é uma necessária infidelidade […[ Tudo se adia, se suspende, e o viajante inventa seu novo indivíduo com o que lhe parece ajuizado pelo prazer e, mais ainda, pela sobrevivência”. Regressar é saber que a vida, que a história, que as pessoas trans/correram em nossa ausência. Por isso, viaja melhor quem aprendeu, e pode dizer: “quando regresso, com alegria meço também o que perdi”.

Assim, a cada viagem, “o regresso implica o luto e pede a capacidade de ressureição do fundamental”. Amém!

Luciano Mendes de Faria Filho é pedagogo, doutor em Educação e professor titular da UFMG. Publicou, dentre outros, “Uma brasiliana para a América Hispânica – a editora Fondo de Cultura Econômica e a intelectualidade brasileira” (Paco Editorial, 2021)

Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato MG

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Editado por: Elis Almeida

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